Gestão em P&D

Interação dos setores técnicos

Março/Abril 2018

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Continuando a falar sobre as interfaces do P&D, assunto que começamos a tratar na edição anterior, abordando o relacionamento com os setores de marketing, financeiro e com fornecedores, é importante relembrar sua relevância. Como um produto é resultado do trabalho de várias pessoas e diferentes departamentos, o encaminhamento do assunto nas diversas intercessões é de grande importância.

No Brasil, na maioria dos casos, o setor de Assuntos Regulatórios ainda atua depois do P&D e tem, culturalmente, um procedimento mais operacional do que estratégico, o que é uma perda considerável. É claro que um entrosamento maior seria muito proveitoso. Se o pessoal de Assuntos Regulatórios operasse desde o início do projeto, os excessos que podem acontecer por causa da empolgação com um novo produto seriam resolvidos antes que qualquer esforço ou trabalho fosse realizado. Neste formato, o relacionamento com o P&D poderia ser similar ao que acontece entre a produção e a qualidade. O acompanhamento do trabalho do laboratório de desenvolvimento, a supervisão na formação e atualização do cadastro técnico para mantê-lo em conformidade com a legislação sanitária e as diretrizes tecnológicas, a participação efetiva nas análises de resultados e, ainda, o acompanhamento da criação das peças que irão compor a embalagem podem representar um ganho expressivo.

Como o P&D gera a tecnologia que será aplicada na produção, o relacionamento entre estes dois setores deve ser estreito e constante. No desenvolvimento de uma formulação, os recursos da planta de produção devem ser considerados basicamente por dois motivos. Primeiro, para saber se existem condições adequadas para fabricar o novo produto em todas as suas etapas, incluindo envase e estocagem final. Depois, para verificar se o produto preparado pela produção terá o perfil de eficácia, segurança e estabilidade igual ou similar àquele preparado no laboratório. Por exemplo, emulsões com agentes reológicos podem ter viscosidades na faixa especifi cada e variar muito na distribuição e no tamanho das micelas, o que pode determinar um comportamento funcional diferente. O caminho inverso também deve ser considerado. A aquisição de novos equipamentos de produção deve ter a participação do P&D.

O papel da Qualidade na implantação de um novo produto ou processo deve ir além de receber e até, eventualmente, criticar as suas especificações. É preciso que o P&D opere junto da Qualidade para avaliar se os métodos analíticos usados no desenvolvimento e na verifi cação da qualidade de lotes são eficazes e adequados. Tem ainda que elaborar, juntamente com a produção, o protocolo de validação de processo.

Quem acha que o trabalho do desenvolvimento acaba quando se entrega o novo produto para a produção está enganado. Saber como o produto se comporta no mundo real - que pode ser bem diferente do comportamento em laboratório - é decisivo, porque ele foi desenvolvido e fabricado para o consumidor.

É preciso desenvolver metodologias para reduzir esta diferença, e quem deve fazer isto é o P&D. Os relatos de cosmetovigilância, junto com as pesquisas de satisfação, são as melhores fontes de consulta.

O mais importante é saber que o trabalho de interface deve ser realizado com intenção e disposição colaborativas. Debates e discussões são esperados e até saudáveis. O que deve ser evitado são os enfrentamentos e as disputas, com o objetivo de fazer prevalecer pontos de vista puramente pessoais, porque isso não faz parte do roteiro do sucesso.

Pelo contrário, enfrentamentos deste tipo são vetores do custo invisível, causam perda de competitividade e uma inevitável redução do nível de satisfação profissional, o que pode comprometer o desempenho das pessoas e até da empresa.

Uma boa maneira de promover a interação e melhorar a eficiência dos diversos setores que compõem a área técnica é compilar indicadores específicos em um demonstrativo, que deve ser avaliado periódica e formalmente pelos responsáveis de cada área envolvida e também pelos gestores. Uma indústria em uma atividade de base tecnológica não pode se limitar a se avaliar somente por demonstrativos financeiros, porque estes só representam parte do negócio. As conclusões e as decisões baseadas somente nestes relatórios podem ter um alto grau de risco ou ineficiência, porque são estabelecidas a partir de uma análise incompleta.



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