Gestão em P&D

Interfaces do P&D

Janeiro/Fevereiro 2018

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Como parte de uma organização, seja do porte que for, boa parte do trabalho do P&D acontece nas interfaces com outros setores. A forma como isto é feito repercute na qualidade do trabalho e no resultado da empresa, tanto positiva quanto negativamente. Talvez o maior desafio seja harmonizar as diferentes lógicas e os diferentes interesses envolvidos no processo, porque vai exigir certo grau de empatia funcional e habilidade para interagir com outras pessoas. Debates e interlocuções são eventos rotineiros.

Quando o pessoal do marketing concebe um produto, uma campanha ou um texto, eles podem fazer com tanto entusiasmo, que o conteúdo pode não ter respaldo científico ou cabimento regulatório. Todos os benefícios anunciados devem ser suportados pelos produtos, e quem tem que cuidar disto é o P&D. Não se pode mais correr o risco de inventar uma história deslumbrante e entregar um produto que não corresponda à expectativa criada. Seja do ponto de vista regulatório ou de negócio, em um mercado maduro, isto é um verdadeiro “tiro no pé”. Sem falar em valor ético, que, atualmente, é um componente importante do valor das empresas.

O P&D tem que interagir com o marketing para que a argumentação usada na divulgação seja impactante, mas verdadeira e tecnicamente viável. Que as imagens sejam apropriadas e não sugiram, por exemplo, o uso inadequado do produto, porque isso poderia comprometer a segurança do consumidor. Se neste processo entra o pessoal de vendas, pode haver mais um grande desafi o: “ter o melhor produto do mercado com o menor preço possível”, o que, cá entre nós, não é um bom princípio.

E não cabe ao P&D, em conjunção com Assuntos
Regulatórios, ficar só dizendo “isto pode” ou “isto não pode”, porque vai criar a imagem negativa. A perda de prestígio e importância em trabalhos futuros será inevitável. Há de se ter, do lado do P&D, o compromisso de fazer jus à sigla que o identifica, ou seja, pesquisar e desenvolver tecnologia para obter um produto com o máximo de desempenho, e ter fundamentação para argumentar com clareza sobre o que é efetivamente possível e legalmente permitido, sem que isto reduza o entusiasmo e as perspectivas do novo projeto.

Para um olhar despreparado, o P&D pode parecer um setor que só consome recursos. Em uma atividade de base tecnológica, como é o caso da fabricação de cosméticos, este é um equívoco grosseiro, que, por incrível que pareça, ainda ocorre com frequência em empresas que têm ao seu dispor o quarto maior mercado do planeta. Se o P&D fizer um bom trabalho – e for acompanhado pela Produção e Qualidade -, o que o consumidor receberá, lá no fim da linha, será um produto que corresponderá às suas expectativas. A empresa possivelmente ganhará um consumidor fiel e propaganda gratuita, que poderão garantir bons resultados financeiros e crescimento sustentável. Negar recursos ou disponibilizar recursos insuficientes ao P&D é outro “tiro no pé”.

No que se refere a custos, deve ser estabelecida uma planilha que resulte ao desenvolvimento de formulações e embalagens os valores que poderão ser usados para a realização de um projeto. O P&D, principalmente no que se refere ao custo da formulação, precisa compreender que a máxima que diz que “técnico bom é aquele que faz mais barato” é um despropósito. Mesmo sabendo que o desempenho de uma formulação não é obrigatoriamente proporcional à concentração de ativos, o uso de toda a margem de custo deve ser uma diretriz, seja na concentração, seja na escolha de ingredientes de qualidade superior, porque aumenta a possibilidade de entregar ao consumidor um produto melhor.

A interface com fornecedores pode ser muito proveitosa porque existe uma convergência de interesses. Seus representantes devem ser tratados com muita consideração. Eles podem ter informações sobre tendências, sugestões de formulação e resultados de trabalhos científi cos que irão facilitar tremendamente o trabalho do P&D, que, por sua vez, tem que compreender que não basta “copiar e colar”, porque há o risco de se obter um produto sem personalidade, já que as informações não serão exclusivas. Mas isto, nem de longe, diminui a importância deste parceiro. Do lado do fornecedor, espera-se a disponibilização de informações técnicas completas (composição, alérgenos, especificações, etc.) na entrega das amostras, porque é uma exigência científica natural.

Fornecer informações somente na aprovação do material é um desrespeito ao trabalho do P&D.



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