Gestão em P&D

O especialista

Maio/Junho 2017

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Quando um músico ouve uma música, ele naturalmente consegue ouvir ao mesmo tempo todos os instrumentos. Não é raro que identifique se o encordoamento do violão é de nylon ou aço, ou mesmo que reconheça uma determinada marca de instrumento. O baixo Hofner – que tem o formato de um violino - que o Paul McCartney usou em muitas gravações dos Beatles tem um som relativamente fácil de ser identificado. Esta capacidade que o músico tem de ouvir de maneira diferente e de reconhecer timbres de instrumentos específicos acontece porque ele tem formação, conhecimento e treinamento específicos. Ele é um especialista.

Olhando para o nosso setor, temos obrigatoriamente que reconhecer duas características básicas. A primeira é que somos uma atividade de base tecnológica - complexa e diversificada. A segunda é
que temos uma regulação específica. Estes dois fatos já são suficientemente consistentes para exigirem a presença de um especialista, ou melhor, de especialistas na condução dos assuntos e processos das áreas técnicas que ainda devem participar das decisões estratégicas das empresas. Parece óbvio, mas na prática, nem sempre é assim. O mercado brasileiro cresceu rápida e vigorosamente nos últimos anos e, mesmo hoje, com os resultados dos últimos dois anos, tem porte e representatividade respeitáveis, o que estimulou, e continua estimulando, o aparecimento de muitas novas empresas. Neste movimento intenso, entraram e ainda devem continuar entrando no mercado muitos empreendedores que não têm a vivência e nem a percepção das duas características básicas citadas acima. Eles têm normalmente uma visão simplista e mercantilista da atividade. Esta realidade é altamente impactante em vários aspectos. O desprestígio do pessoal técnico é uma das consequências. Em muitos casos, a área técnica é vista erroneamente como um setor que consome muitos recursos. Uma das facetas desta visão é a sobrecarga de tarefas. Muitas vezes, os técnicos acumulam funções e obrigações que são quase inconciliáveis, o que pode comprometer seu desempenho e sua evolução. Ficam esquecidas a óbvia responsabilidade e a grande importância do setor que é quem cria e fabrica os produtos que irá gerar faturamento e definir o valor e a lucratividade da empresa.

Ainda há outra consequência relevante. O desconhecimento e a não compreensão pelos gestores não especialistas das razões técnicas e científicas que fundamentam as normas e obrigações regulatórias se expressam sob a forma de falso cumprimento ou mesmo de descumprimento das obrigações regulatórias, o que é uma situação crítica para todos. É arriscada para a empresa, perigosa para consumidores e, sob o aspecto legal, especialmente grave para responsáveis técnicos e representantes legais.

Para resolver esta questão, que não tem absolutamente nada a ver com o caráter dos empreendedores, e sim com uma percepção equivocada, aparece o especialista, que, no nosso caso, é o profissional da área técnica, aquele que pode ter pouco prestígio nos primeiros instantes. Aqui encontramos a primeira dificuldade. A formação dos nossos técnicos é quase exclusivamente voltada para bancada e laboratório. Para ir diretamente ao ponto, basta reconhecer que é impossível resolver no laboratório ou na bancada todos os problemas e desafios que dizem respeito à área técnica de uma indústria de cosméticos. Para um profissional se dizer um especialista, ele precisa conhecer muitas coisas além da bancada e do laboratório. Aí temos a segunda dificuldade. Será necessário sair da zona de conforto e se expor mais. Ousar com consciência, estudar além do óbvio, enfrentar algumas resistências, encarar com disposição e determinação dificuldades e desafios que podem parecer insolúveis em um primeiro momento. Terá que reconhecer, assumir e mostrar aos seus pares a grande parcela de responsabilidade que tem no valor do produto e na competitividade da empresa. Internamente - isso mesmo, internamente, no laboratório e na bancada -, terá que se empenhar para extrair o máximo possível dos recursos e métodos disponíveis. Isto exige conhecer bem, pensar muito e ter uma visão crítica baseada em conhecimento científico de todos os procedimentos usados. No nível gerencial, terá que identificar e apresentar todos os indicadores dos processos colocados sob sua responsabilidade. Quem conseguir fazer ou coordenar tudo isto, será um especialista. Se conseguir fazer com brilho nos olhos, será especial.



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