Gestão em P&D

Abismos corporativos

Março/Abril 2017

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

A expansão e segmentação do mercado, o aumento da concorrência, o ritmo acelerado da evolução tecnológica e o acesso à informação formam um ambiente muito dinâmico e muito complexo, estabelecendo um alto grau de competitividade. Ao falar de cosméticos, temos que somar a grande quantidade de lançamentos e de novos ingredientes disponíveis. A resposta e a adaptação das empresas e pessoas a este fenômeno são muito variáveis. As demandas originadas neste ambiente levam a uma formação natural de desafi os que criam lacunas, e estas devem ser rapidamente preenchidas para não se transformarem em abismos que possam colocar em risco a rentabilidade e até a sobrevivência das empresas.

Se compararmos os recursos aplicados por fornecedores para demonstração de eficácia de um novo ingrediente com aqueles que estão disponíveis no laboratório de desenvolvimento da imensa maioria de nossas indústrias, vamos encontrar um destes abismos. Certamente, os dados obtidos nos estudos realizados pelos fornecedores podem e devem ser usados, mas basear a avaliação da eficácia de um novo produto somente nestas informações é um procedimento muito frágil. Isso porque a expressão dos efeitos benéficos destes ativos será afetada pelo conjunto da composição, pelo modo de preparação e pelas características físico-químicas do produto. Não ter recursos, mesmo que mínimos, para avaliar a eficácia deste novo produto - que é o atributo mais importante para o consumidor -, é quase que entregar ao acaso ou à sorte a capacidade de gerar resultados. Não ter capacidade financeira e não ter pessoal disponível, dentre outras razões, pode justificar a negligência, mas não resolve a questão. Desde que haja determinação, é possível criar metodologias simples e eficientes para avaliar eficácia, mesmo com poucos recursos.

Outro exemplo de abismo corporativo diz respeito aos assuntos regulatórios. Temos uma legislação sanitária equiparada aos padrões europeus, ou seja, consistente e desenvolvida, mas a falta de compreensão das empresas e o não raro despreparo dos agentes fiscalizadores formam uma considerável e complexa possibilidade de problemas sérios.

Vejamos o caso do Termo de Responsabilidade que compõe o processo de regularização de um produto. Técnicos e representantes legais muitas vezes assinam sem entender que os estudos de estabilidade e de segurança são obrigatórios para todos os produtos, independentemente do seu grau. E isto é muito grave. Isso sem considerar que o dossiê deve estar montado conforme estabelece o Anexo III da RDC 7/2015. Do outro lado, o que chama muita atenção é a insistência de alguns fiscais sanitários em exigir que a composição que aparece na Fórmula Padrão seja igual àquela declarada no peticionamento. Eles não entendem o que é uma fórmula expressa em teor de ativos.

Muitas vezes, a interface entre o P&D e a área de produção não está bem estabelecida. Então, na hora de transferir uma formulação do laboratório para a fabricação, as enormes diferenças de processo não são tratadas com os necessários cuidados e atenção. Tempo de processo, efi ciência de mistura, dinâmica de aquecimento e resfriamento e até, muitas vezes, a mudança do número de fases podem afetar de tal forma o produto, que os seus resultados, no tocante a eficácia, segurança e estabilidade, podem ser totalmente diferentes daqueles obtidos durante o desenvolvimento. Um caso que tenho visto com frequência refere-se à produção de emulsões.

Nos casos em que a fase interna é formada por diversos ingredientes, com forma física e temperaturas críticas diferentes, o processo sem a fusão e homogeneização prévia desta fase pode levar à formação de produtos de composição diferentes no mesmo lote. Para adotar esta prática, a metodologia de validação deve ser orientada no sentido de confirmar, não só pelas características físico-químicas básicas, que a composição do produto resultante é mesmo homogênea.

O abismo cultural talvez seja a forma mais perniciosa de todas, porque ele tem origem no comodismo e na acomodação de pessoas e, por isso, talvez seja o mais difícil de se resolver. Escrever uma formulação no papel, ir para a bancada e preparar uma amostra não é um trabalho de desenvolvimento. É, no máximo, um ensaio.

O fato de estes abismos existirem não é o pior caso. A negligência, o desconhecimento e o comodismo fazem com que eles assumam sua forma mais temerária. Ficam invisíveis e se tornam altamente perigosos.



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