Manipulação Cosmética

Soy loco por ti

Janeiro/Fevereiro 2014

Luis Antonio Paludetti

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Luis Antonio Paludetti

Até quando a gente vai precisar de médicos “cubanos”?

Se você é como eu e se preocupa com a saúde pública brasileira, já deve ter feito essa pergunta a si mesmo. Mais que isso, talvez tenha se perguntado: “Precisamos de médicos cubanos?”.

Primeiramente, quero deixar claro que não sou contra médicos, nem contra médicos cubanos, argentinos, espanhóis, brasileiros, portugueses... Enfim, de qualquer país. Os médicos são profissionais essenciais no sistema de saúde e os únicos legalmente habilitados a diagnosticar.

O diagnóstico é a base de toda e qualquer ação para manter a saúde, curar ou mitigar a dor dos pacientes. E é justamente nesse ponto que entram os médicos “cubanos”.

As localidades mais distantes do país (e o país é grande) parecem ser pouco atrativas para os médicos brasileiros, fato comprovado pela baixa adesão destes ao programa Mais Médicos, do Ministério da Saúde. Para lembrar, nem 50% das vagas ofertadas foram preenchidas por brasileiros.

A questão não pareceu ser o salário, mas certas coisas que o salário não compra, como condições de trabalho, perspectiva de carreira e distância dos grandes centros geradores de conhecimento.

Essa problemática parece ser atual, mas na verdade não é. Quando a gente estuda como se deve a história da farmácia no Brasil, percebemos que isso já ocorria há algum tempo.

É o ano de 1839. A escravidão toma conta das ruas de Vila Rica, em Minas Gerais, onde escravos negros são forçados a trabalhar principalmente na mineração de ouro. Naquele tempo, chegar a Vila Rica era uma grande façanha, que se cumpria no lombo de jegues, e a viagem demorava muitas semanas.

Os escravos - desde crianças – eram considerados máquinas de trabalhar. Como todas as máquinas, tinham de trabalhar constantemente até se “quebrar”, sendo então “consertados”.

“Consertar” um escravo era tratar de suas doenças ocupacionais e endêmicas. Agora, eu lhe pergunto: Quantos médicos estavam dispostos a deixar a sociedade aristocrática de Salvador, na Bahia, ou da cidade do Rio de Janeiro, para, depois de viajar dias em lombo de jegue, fixar residência nos “cafundós do Judas” para tratar de escravos?

Poucos. Pouquíssimos. Qual a solução para isso? Naquela época, a medicina de base era em grande parte exercida por barbeiros, que não eram propriamente profissionais de saúde.

Assim, por iniciativa do imperador, foi criada, em 1839, a Escola de Farmácia de Ouro Preto (antiga Vila Rica), com a finalidade de formar profissionais farmacêuticos que não só atuariam como multiplicadores do conhecimento, mas também como profissionais de saúde substitutos dos médicos.

Essa era uma iniciativa visionária, porque hoje ainda sofremos dos mesmos problemas que existiam no Brasil em 1839: médicos não querem - de fato - ir às localidades mais pobres.

Mas, pense bem: mesmo nas localidades mais pobres, sempre há algum tipo de estabelecimento farmacêutico. E por que esses estabelecimentos não podem se transformar em postos avançados de saúde?

Seria muito simples fazer isso: imagine transformar cada farmacêutico em um superagente de saúde, como um agente de saúde do Programa Saúde da Família (PSF), do Ministério da Saúde, mas com superpoderes. Esse superagente poderia diagnosticar questões básicas de saúde, como verminoses, dislipidemias, diabetes e hipertensão, além de realizar cuidados fundamentais em relação à mulher na gestação e ao idoso.

Atualmente, isso já existe e é feito por um técnico, o agente de saúde do PSF, que não faz diagnósticos, apenas monitora e relata ao médico.

Se é possível transformar uma pessoa com escolaridade média em um agente de saúde, seria muito mais fácil fazer isso com um farmacêutico.

Imagine quantos benefícios para a saúde da população seriam concretizados se farmacêuticos com mais alguns semestres de estudo voltado à atenção básica de saúde (em nível de graduação ou pós-graduação) estivessem prontamente disponíveis? Quanto tempo do médico seria poupado?

Atualmente, o farmacêutico pode prescrever alguns tipos de medicamento. Expandir seu âmbito profissional para o diagnóstico em atenção básica à saúde, com o apoio de protocolos rigidamente estabelecidos pelas autoridades sanitárias e por conselhos profissionais seria relativamente simples.

A ideia poderia ser implantada em “projetos piloto”, como foi feito com as farmácias notificadoras.

Primeiro seria implantada em alguns estados e depois nos outros. Dessa forma, resgatando e aperfeiçoando uma ideia implementada há mais séculos, poderemos dar um grande passo para transformar as farmácias em postos avançados e, quem sabe, resolver uma grande parte das doenças básicas que nos assolam há séculos.

Por que não tentar?



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