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A cliente entrou na farmácia e, toda segura de si, disparou à queima-roupa:
-Eu quero um pote de lanolina.
- Lanolina? - respondi surpreso. (Naquela época, não havia restrições para a venda de produtos ou insumos diretamente ao paciente, sem receita médica.)
- Isso, lanolina.
- A senhora poderia me informar como vai usar essa lanolina?
- Vou usar para deixar os lábios mais grossos. (Angelina Jolie ainda era uma jovem atriz iniciante, mas as pessoas já queriam engrossar os lábios.)
- Olhe senhora, a lanolina não é para ser usada para engrossar os lábios.
- Acontece que eu li numa revista feminina que a lanolina é ótima para engrossar os lábios; a gente passa nos lábios como se fosse manteiga de cacau.
- Mas, senhora, não é assim que a gente deve usar a lanolina.
- Mas eu li na revista e quem escreveu a matéria foi um jornalista importante, além do que várias artistas famosas estão usando a lanolina para deixar os lábios grossos. Caso você não tenha lanolina, eu irei a outra farmácia que queira me vendê-la.
Naquele momento, pensei em queimar meu diploma e ir vender “capeta” em Porto Seguro. Também pensei em pegar logo um pote de lanolina e dispensar o produto a ela, sem qualquer crise de consciência. Mas o dever ético falou mais alto.
- Senhora, a lanolina é sebo de carneiro. (Expliquei dessa forma para que ela pudesse.)
- Sebo de carneiro? Como assim?
- Se a senhora permitir, eu lhe mostrarei o que é a lanolina e a senhora vai perceber que é difícil aplicar assim, diretamente, a lanolina nos lábios.
- Tá bom. Eu aguardo.
Fui então ao laboratório e peguei uma ponta de espátula com lanolina. Levei-a, pacientemente, até o balcão e mostrei a lanolina a ela, pedindo-lhe que cheirasse e tocasse o produto como os dedos.
Primeiro, ela pegou um pedacinho entre os dedos e tentou levá-lo aos lábios. Quando a lanolina aproximou-se de seu nariz, o odor repugnante causou-lhe uma peculiar expressão de “nojo”.
- Credo, que coisa horrível! – disse ela, afastando a pegajosa substância do rosto.
- É como eu lhe disse. A lanolina é a secreção sebácea dos carneiros, devidamente purificada para uso em medicamentos e cosméticos. Como a senhora percebeu, a lanolina não pode ser utilizada diretamente nos lábios.
- É que eu li na revista que era bom para engrossar os lábios... Mas não dá para usar isso na boca não.
- De fato, a lanolina não engrossa realmente os lábios, mas ela tem um efeito emoliente e hidratante, muito importantes para evitar o ressecamento e manter os lábios bonitos e saudáveis. Posso preparar um brilho labial contendo lanolina e, usando-o, a senhora poderá desfrutar desses benefícios sem a necessidade de passar por qualquer inconveniente.
- É mesmo? O senhor poderia prepará-lo para mim? Quanto custaria?
Eram os idos de 1989. As farmácias magistrais experimentavam um grande crescimento. Na época, o movimento “naturalista” e o de “culto ao corpo” estavam em seu início.
Quase sempre estávamos envolvidos em orientar os pacientes para os cuidados com a pele e a saúde em geral, mas, vez por outra, éramos questionados sobre as celebridades que, “vira e mexe”, apareciam nas revistas dando receitas mágicas de beleza e emagrecimento.
De lá para cá, parece que as celebridades ganharam mais importância científica do que anos e anos de estudos da ciência cosmética e da medicina. Do dia para a noite, as celebridades ex-grávidas aplicam cremes e ficam “durinhas”, tomam chá disso ou chá daquilo e emagrecem 20 quilogramas em uma semana. Ninguém conta que faz dietas, exercícios, fisioterapias e tratamentos estéticos.
É claro que as revistas são importantes para divulgar as novidades e os lançamentos do mercado, mas elas não podem sobrepujar o conhecimento científico. Algumas vezes, médicos que são meus amigos comentam comigo que os pacientes chegam aos consultórios “exigindo” que eles apliquem o ácido “tal” ou usem a cápsula “de tal” planta. Ou seja, a opinião das celebridades vale mais que toda a prática do médico, numa total inversão de valores.
Nesses mais de 20 anos que se passaram até hoje, muita coisa mudou nas farmácias, mas as celebridades e algumas revistas que publicam fotos e matérias sobre elas continuam a tentar fazer valer sua fama, como se não existissem notícias melhores para serem publicadas.
Na outra ponta, cabe a nós, farmacêuticos, fazer valer a ciência farmacêutica e a cosmetológica, informando, esclarecendo e orientando a população sobre o que é verdade e o que não é.
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