Manipulação Cosmética

Quando o Mar Morto estava doente

Novembro/Dezembro 2010

Luis Antonio Paludetti

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Luis Antonio Paludetti

Quando iniciei minha carreira como farmacêutico, era muito comum as farmácias com manipulação prepararem cosméticos para pacientes. O paciente chegava ao balcão e conversava com o farmacêutico, que atenciosamente preparava um “xampuzinho” para a caspa ou um “creminho” hidratante, de acordo com os mais rigorosos critérios técnicos, científicos e legais vigentes na época. Algumas farmácias expunham produtos nas prateleiras das farmácias ou ofereciam um folheto com a sua “linha própria” de cosméticos.

Era um tempo em que supermercados vendiam itens de primeira necessidade, farmácias vendiam apenas medicamentos e perfumaria, e postos de gasolina vendiam apenas combustível.

Esse tempo passou. Hoje, postos de combustível vendem de tudo (inclusive combustíveis) e supermercados também vendem de tudo, inclusive itens de primeira necessidade.

E, até cerca de um ano atrás, as “farmácias” vendiam de tudo, até medicamentos.

Nos supermercados, as marcas próprias tomaram as prateleiras, o que é “uma realidade”. Até mesmo grandes redes de drogarias e farmácias já estão adotando o conceito de marcas próprias.

E, no decorrer desse tempo, como ficaram as farmácias com manipulação?

Para a maioria delas, o tempo não passou.
Salvo exceções, a maioria das farmácias não acompanhou as tendências de outros ramos do comércio. Com o aumento das restrições determinadas pelos órgãos regulatórios, os farmacêuticos encontram grande dificuldade para preparar cosméticos sem prescrição.
Como as farmácias poderiam retomar a preparação de cosméticos de forma a satisfazer aos clientes, aos desejos criativos do farmacêutico magistral e às modernas práticas de comércio?

Basicamente, há três possibilidades:

Fazer os cosméticos da mesma forma que antes e correr os riscos da ilegalidade;
Criar uma linha de cosméticos e montar uma indústria para produzi-los com marca própria; ou Criar uma linha de cosméticos e contratar uma indústria prestadora de serviços de fabricação (terceirização).

Obviamente, não podemos concordar com a primeira opção, pois a prática da ilegalidade é inaceitável.

Assim, criar uma linha de cosméticos com marca própria pode ser bem interessante, ou seja, devemos considerar as possibilidades “2” e “3”.

Quando pensamos que o Brasil é um país com clima variado e etnias muito diferentes, as marcas próprias das farmácias podem ser um grande diferencial em termos de cosméticos: produtos com formulações diferenciadas, adaptadas à realidade de cada região ou etnia, que não são oferecidos pelas grandes marcas que atuam em nível nacional.

O primeiro passo é identificar claramente as necessidades particulares da região. Depois, com o auxílio de consultorias, deve-se avaliar como será feito o investimento para o desenvolvimento, a produção e a comercialização da linha de cosméticos, de modo que o negócio seja viável.

Ao longo dos anos, tenho vivenciado situações de empresas que optaram, logo no início, por montar uma indústria para fornecer cosméticos de “marca própria” às respectivas farmácias. Nem sempre essa opção se mostra viável, ou quando ela se mostra viável, consome consideráveis recursos financeiros e o empenho pessoal do farmacêutico empreendedor.

A não ser que o objetivo seja competir no mercado como indústria cosmética, há um risco considerável em montar uma indústria para atender apenas às necessidades de uma farmácia. Uma indústria precisa de escala de produção, para ser lucrativa. Como dono de farmácia, você compraria uma marca de seu concorrente? Quase sempre, a resposta será “não”. Assim, haverá dificuldades para a indústria sobreviver fornecendo apenas a um comprador.

Ao meu ver, a melhor opção para uma farmácia iniciante na área de marca própria é a terceirização. Logo no início, ela poderá trazer grandes vantagens.

Primeiramente, o farmacêutico não precisará investir em uma nova empresa, atender às necessidades legais e sanitárias, comprar equipamentos ou funcionários. Seu foco será o desenvolvimento e a criação de uma linha “com sua cara”, focada em seus pacientes.

Muitos dirão: “Mas minha demanda é muito pequena, será que é possível tercerizá-la”?

A resposta é sim.

Hoje, há empresas de terceirização que podem produzir quantidades pequenas de cosméticos, a partir de 200 ou 300 unidades por produto. Geralmente, essas empresas oferecem também serviços para o desenvolvimento de embalagens, rótulos e o trâmite dos produtos na Anvisa.

Isso permite melhor utilização dos recursos e do tempo dos profissionais envolvidos. O farmacêutico – em conjunto com a terceirista – define a formulação. A terceirista cuida da produção, liberando o profissional para que ele se foque em seu negócio: na farmácia, no atendimento dos pacientes e na divulgação de sua nova linha de produtos.

Por exemplo, podem ser terceirizados: protetores solares (com a vantagem adicional da garantia do FPS), xampus, cremes, produtos corporais e perfumes.

Depois, uma vez consolidado o negócio, será possível pensar em montar uma empresa para a produção de uma marca própria, e até mesmo de uma marca totalmente nova. Tudo isso alicerçado pela credibilidade da farmácia.

Há muitas empresas de sucesso que trilharam esse caminho e ingressaram na modernidade. Quem não fez isso, deveria fazer. Afinal, já foi o tempo em que o Mar Morto estava doente.



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