Manipulação Cosmética

Canja de galinha

Julho/Agosto 2010

Luis Antonio Paludetti

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Luis Antonio Paludetti

Em minhas colunas anteriores, procurei tratar da importância que os medicamentos dermatológicos e os cosméticos terapêuticos têm para os pacientes que recorrem a esses produtos, e de como as farmácias com manipulação podem personalizar esses produtos de modo a oferecer alternativas diferenciadas e personalizadas aos seus clientes.

Nesta oportunidade, comentarei com vocês um assunto importante para qualquer setor que deseje estar à frente de seu tempo: o investimento em pesquisa.

Como em qualquer setor, é fundamental que as farmácias disponham de informação técnica de qualidade, a respeito da eficácia, das dosagens, da formulação e da estabilidade dos produtos.

A grande maioria dos insumos e ativos se destinam à aplicação na indústria cosmética e, embora as empresas fabricantes e distribuidoras de insumos cosméticos possuam departamentos de pesquisa voltados à obtenção de informação específica sobre seus produtos, existem particularidades que fazem que essa informação, em geral, não seja completamente aplicável no universo das farmácias.

No desenvolvimento de produtos cosméticos, os estudos de pré-formulação definem claramente o produto, particularmente quanto à formulação e à estabilidade. Em conjunto ou não com os fabricantes das matérias-primas, desenvolvem metodologias para avaliar a eficácia e a estabilidade desses produtos.

Já no caso das farmácias não se pode definir estudos de pré-formulação, uma vez que a atividade destas difere substancialmente da realizada pelas indústrias: existe a prescrição médica.

Na farmácia, os produtos dermatológicos e os dermocosméticos devem ser preparados sob prescrição médica (isso mesmo, pois segundo a legislação brasileira eles são medicamentos), e podem conter concentrações bem maiores do que as geralmente empregadas em cosméticos, e ter associação de ativos e modos de usar completamente diferentes dos preconizados para uso em cosméticos.

Muitas vezes, o farmacêutico se depara com o desafio de formular – em tempo recorde – preparações estáveis e eficazes, para as quais não há quase informação específica.

Atualmente, a manipulação de medicamentos dermatológicos e de dermocosméticos é alvo de diversos fabricantes e distribuidores de insumos, representando parcela significativa do faturamento dessas empresas.

Mas, apesar de tudo isso, há pouca informação disponível para que o farmacêutico possa atender com total segurança a uma prescrição contendo diversos ativos e insumos.

Por exemplo: a empresa “A” fabrica um ativo composto de extratos vegetais; e a empresa “B” fabrica um outro ativo composto por uma associação de extratos vegetais diferentes. O que acontecerá com a eficácia do produto, caso os ativos de “A” e “B” forem associados?

Um outro exemplo interessante: a literatura de determinado ativo especifica determinada concentração de uso. Os prescritores, muitas vezes, elevam essas concentrações buscando um resultado mais pronunciado, como ocorre com ativos clareadores, antiacne e de peeling.

O que acontece com o medicamento nesses casos? Qual é sua eficácia? Há incompatibilidades químicas envolvidas nisso? Há potencialização ou inativação dos ativos entre si? Nas concentrações prescitas, há risco de reações cutâneas devido ao aumento de concentrações? Em geral não se sabe quais são as respostas para essas perguntas.

Para que um segmento tenha perenidade e credibilidade, não pode haver dúvida em relação a questões como as que comentei. A farmácia depende da prescrição médica e precisa levar ao prescritor informações precisas e confiáveis.

E para isso acontecer, só há uma saída: investimento em pesquisa. Mesmo sendo uma realidade na terapêutica e importante fonte de receita, as farmácias parecem ter esquecido a importância da pesquisa científica de temas como a eficácia e a estabilidade dos cosméticos manipulados.

Durante o 24º Congresso Brasileiro de Cosmetologia, realizado em maio, em São Paulo, apenas um (“unzinho” só) dos 60 pôsteres apresentados tinha como objeto da pesquisa cosméticos manipulados.

Fabricantes, distribuidores e farmácias devem refletir sobre esse fato. Há inúmeras universidades no Brasil com condições de executar pesquisas bem conduzidas, para atender a essa demanda. Mais do que isso, desde que as novas diretrizes curriculares do farmacêutico foram introduzidas, os graduandos necessitam realizar trabalhos de conclusão de curso e os temas estabilidade e eficácia certamente despertarão interesse de alunos e professores.

Todos sairão ganhando com o aumento da pesquisa científica sobre medicamentos dermatológicos e dermocosméticos.

E, pedindo licença ao compositor Jorge Ben Jor, sempre é bom lembrar: Pesquisa e “dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém”.



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