Manipulação Cosmética

O desafio da arte

Março/Abril 2010

Luis Antonio Paludetti

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Luis Antonio Paludetti

Numa concessionária de automóveis:

- Por favor, eu quero um carro.

- Então você veio ao lugar certo! (“Afinal, estamos em uma concessionária,” pensou o vendedor).

- Eu quero um carro com ar-condicionado, direção e airbag.

- Tenho um modelo com ar-condicionado, direção, airbag e câmbio automático.

- Poxa, mas não quero um carro com câmbio automático... Gosto de dirigir com mais esportividade.

- Bom, sem câmbio automático eu só tenho um carro sem airbag.

- Então está bem. Vou ficar com o carro sem airbag, mas com ar-condicionado e direção.

- Ótimo. Em qual cor você quer?

- Quero um carro vermelho metálico.

- Bom, metálico eu só tenho prata, cinza e marrom...

- Poxa vida, eu sempre tive carros da sua marca, mas assim está ficando difícil...

- Não, você não precisa mudar de marca. Vamos fazer assim: Na cor vermelho metálico eu tenho um modelo completo, com airbag, câmbio automático, direção e MP3, além do trio elétrico...

Tudo bem... Esta é uma revista que fala de cosméticos, não sobre carros.

Mas... Coloque-se no lugar dos personagens e pense que você está em uma loja de cosméticos. Ou então, coloque-se no lugar de um consumidor que se vê diante de uma gôndola de um supermercado tentando avaliar – observando a infinidade de itens para o tratamento dos cabelos – qual destes seria o melhor produto para seus cabelos em particular.

Esta situação é muito parecida. Em muitos casos, o consumidor acaba comprando um cosmético que não “cai como uma luva” para ele, mas opta por aquele cujo resultado se aproxime mais do que ele deseja. Muitos consumidores adquirem dois ou três produtos para que um compense as lacunas do outro.

Ponderando sobre essas situações, como, então, satisfazer exatamente as necessidades dos pacientes? E mais: nos casos em que o paciente esteja submetendo-se a um tratamento dermatológico, como tratar uma condição de pele ou cabelos, proporcionando-lhe não só eficácia no tratamento, mas também o conforto e a beleza proporcionados pelos cosméticos?

Diferentemente da indústria automobilística, os pacientes podem contar com estabelecimentos que podem preparar cosméticos de tratamento de modo personalizado e com excepcional qualidade técnica. Estes estabelecimentos são as farmácias com manipulação.

Segundo a atual legislação brasileira, essas farmácias podem preparar produtos dermatológicos com a finalidade cosmética e de tratamento, desde que sejam prescritos por um médico. O farmacêutico pode – e deve – adequar os veículos e as quantidades às necessidades individuais dos pacientes, para obter maior individualização do tratamento, o que proporciona eficácia e satisfação.

Entretanto, para que o farmacêutico possa atingir estes objetivos, é necessário superar alguns desafios.

Para tanto, o primeiro passo é conhecer precisamente os ativos prescritos, em particular suas características de concentração de uso, o pH de uso e a melhor estabilidade, as incompatibilidades químicas e físicas, e os veículos recomendados. Um aspecto essencial na personalização é que as concentrações de uso podem ser bem maiores do que as utilizadas na indústria cosmética, o que – dentro de limites especificados – traz maior expressão do efeito desejado.

O segundo passo é buscar um veículo que seja adequado às condições específicas do paciente. Mais uma vez, o veículo pode ser feito sob medida. Por exemplo, pacientes cuja condição da pele é mais oleosa pedem veículos fisiologicamente compatíveis com esta condição. Pacientes que estão em tratamento de peeling necessitam que sejam amenizadas a irritação, a vermelhidão e, eventualmente, a sensação dolorosa inerente ao processo descamativo. Estes pacientes precisam usar cosméticos em seu dia a dia. E pode-se preparar para ele um cosmético cujo veículo possua ativos que amenizem a irritação e a vermelhidão.

Não menos importante, o terceiro passo é informar a classe médica, de modo científico e adequado, sobre as possibilidades e as potencialidades dos cosméticos de tratamento. Estas informações deverão ser transmitidas de modo simples, objetivo e cientificamente embasado. São elas: as características dos ativos, quais ativos podem ser associados entre si, as concentrações de uso, a disponibilidade de veículos diferenciados, e quaisquer outras informações que o farmacêutico considere importante para que o médico adquira confiança para a prescrição.

Ainda sobre este passo, uma oportunidade ainda muito pouco explorada, é oferecer produtos dermatológicos cosméticos manipulados que complementem o tratamento médico. Por exemplo, um dermatologista prescreve um peeling com ácido retinoico. A farmácia pode sugerir a este médico que prescreva preparações hidratantes, calmantes e refrescantes.

Para aqueles que ainda duvidam que isso seja possível, recentemente visitei um amigo dermatologista que me mostrou o folheto de uma indústria farmacêutica, no qual, em páginas lado a lado, são oferecidos um medicamento para peeling e um cosmético “profundamente hidratante.” O cosmético é fabricado por uma indústria cosmética que pertence ao mesmo grupo da indústria farmacêutica.

Atualmente, a indústria automobilística já oferece opções de “personalizar” parcialmente os carros. Talvez, no futuro, a indústria cosmética ofereça opções semelhantes à de automóveis. Mas, como a necessidade por cosméticos personalizados é presente, não há necessidade de esperar o futuro. Este já existe e se chama “farmácias com manipulação.”



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