Fragrâncias

O tempo na evolução olfativa

Março/Abril 2009

Carmita Magalhães

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Carmita  Magalhães

Viajar a trabalho é muito estimulante. E eu adoro viajar por muitas razões, mas uma delas é ficar mais sensível ao tempo que passa de forma diferente... É um tipo de meditação onde o passado, o presente e o futuro se encontram com intensidade.

Estou chegando de viagem e, tão concentrada estava nos meus pensamentos, esqueci em algum lugar meu “caderno mágico” e, com essa perda, lá se foi o esboço daquilo que seria esta coluna. Agora, como se diz em francês, é sans filet, ou seja, sem rede de segurança.

Neste momento, o tempo parece outro: rápido, fugaz e veloz... e, por essa razão, vou ficar nos grandes temas. Vou falar de dois fundamentais para a nossa indústria: a evolução e a diversidade da perfumaria com foco na ação do tempo, claro!

Gostaria que pensássemos juntos sobre este assunto banal, porém bastante complexo.

Num primeiro momento falaremos do verde, mas, para a minha argumentação ser mais fluida, precisarei completá-la com outros temas olfativos: o “animálico” e o “gourmand”; porém, vou tratá-los de forma idêntica ao verde. Após esses três exemplos, poderemos ver como o tempo influi decididamente na perfumaria.

Verde - palavra fácil para qualquer pessoa identificar porque, acima de tudo, verde é uma palavra do dia-a-dia. Representa uma cor e, na prática, tem vários tons. Na perfumaria, globalmente, se diz uma nota ácida que lembra a natureza.

Apesar dessa família olfativa existir desde o início da perfumaria industrial, gosto de dividir o verde em dois grupos: verde clássico e verde moderno.

O verde clássico é representado por uma matéria-prima natural, o óleo essencial de galbanum - planta com a qual se faz incensos - que, para mim, é um verde terroso, denso, escuro.

O verde moderno é representado por várias matérias-primas naturais e sintéticas e, assim como existem várias tonalidades dessa cor, hoje existem várias “tonalidades” olfativas de verde: florais, frutais, herbais, vegetais etc.: lembram flores como jacinto, frutas como maçã e graviola, herbais e vegetais como a mata e o capim.

Assim, o que antigamente era um tema explorado de maneira pejorativa e artística, graças à evolução das técnicas, foi se tornando cada vez mais real e reconhecível pelo consumidor.

Animal - palavra fácil de identificar por qualquer um, mas apesar disso é difícil, pois um leigo não imagina que esta família é útil para a construção de um perfume.

Na perfumaria, olfativamente, a nota “animálica” é associada ao cheiro característico dos animais. Quando o leigo toma conhecimento disso, sua primeira reação é o susto... mas, atualmente, usar matérias-primas animálicas é como o uso do sal na cozinha, que se provado isoladamente é horroroso, mas sem ele os pratos ficariam sem sabor.

As notas animálicas já tiveram muita procura e, como as verdes, são uma família olfativa clássica, no passado usada em grande quantidade e intensidade, sobretudo nos bouquets florais, nos chipres aristocráticos e nos orientais envolventes.

Hoje é uma nota discreta que representa apenas a opulência de uma nota floral ou a sensualidade através de uma nota couro, podendo-se dizer que é considerada como uma família adormecida.

Gourmand - na língua portuguesa, para o leigo, não significa nada, mas a palavra gourmand, de origem francesa, significa pessoa que gosta de comer boas coisas. A tradução para o português corresponde a guloso. É claro que ficou estranho, não acham?

Na perfumaria, a palavra gourmand agrupa várias notas olfativas, que podem ser chamadas notas doces e, assim, podemos falar de família gourmand, que
, ao contrário da família das notas verdes, é bem recente, tendo surgido há menos de 20-30 anos.

Essa família começou atuando na perfumaria de maneira discreta, com notas de sorvete de baunilha e chocolate, que se mesclavam e se confundiam nas bases dos perfumes.

Com o tempo, a família gourmand foi ganhando força, intensidade, caráter e diversidade. Hoje temos uma grande variedade de notas gourmands nos perfumes internacionais e nacionais, como algodão-doce, doce de leite, torta de limão, brigadeiro, mousse de morango... pelo menos não engorda!

E dessa forma temos o verde, o animal e o gourmand: três famílias olfativas da perfumaria atual, que provam que a arte da perfumaria está em constante evolução, ou seja, em transformação gradual e contínua.

Através desses três exemplos pode-se verificar a importância do tempo na evolução olfativa...

Temas, como o verde, que existem a mais de um século, e que se desenvolveram de maneira lenta e não perderam poder.

Em contrapartida, há temas, como o animálico, que teve um desenvolvimento intenso no século passado mas, neste, apresenta uma aparição discreta.

Quanto ao gourmand, tema recém-chegado à perfumaria, também evoluiu em curto espaço de tempo, mas de maneira bem mais rápida.

Vou encerrar por aqui, deixando uma reflexão: as coisas que parecem simples às vezes se tornam mais complexas e vice-versa. Pensem... e, na próxima edição, aprofundaremos um pouco mais.




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