Fragrâncias

Eu respiro, então eu cheiro

Setembro/Outubro 2008

Carmita Magalhães

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Carmita  Magalhães

Deveria dar continuidade ao tema da última edição sobre águas de colônia, mas resolvi deixar para a edição seguinte, por duas razões:

A primeira é que diariamente as pessoas me pedem conselhos para aprender a cheirar ou, para ser mais sincera, para aprender a falar sobre perfumes. O que me chamou a atenção foi que até hoje eram só conselhos profissionais, mas recentemente várias pessoas, sem ligação com a perfumaria, começaram a me procurar solicitando conselhos para “aprender cheirar”.

A segunda é que muitas dessas pessoas são pais conscientes que estão preocupados com a educação dos filhos. Criança não espera, cresce rápido e assimila bem mais rápido ainda.

Por essa razão, o título do tema que eu vou tratar nesta oportunidade é “Eu respiro, então eu cheiro”. Isso é uma certeza!

Entretanto, existem pessoas que perderam completamente a capacidade olfativa, são os portadores de anosmia total. Outras são capazes de perceber apenas certos odores, anosmia parcial.

Pensando bem, eu tenho sim facilidade de falar de odores com segurança. Isso porque cheiro com consciência, concentração, regularidade, repetição. Não é só uma profissão, é uma diversão diária! Cheiro não só com o nariz, mas também com os olhos, com a boca, com o ouvido, com as mãos. Cheiro com emoção! Não cheiro somente 8 horas por dia, cheiro 24, cheiro na rua, na empresa, nas viagens, na feira (frutas, legumes), no mercado (especiarias), no jardim (grama cortada, rosa)... Não presto atenção somente nos cheiros bons (café fresco, bolo saindo do forno), mas também nos ruins (poluição, gasolina, gás)... Cada dia eu trabalho a minha memória olfativa, cada dia eu acrescento uma novidade, passoa- passo. Por isso consigo falar coisas básicas, complexas, intensas e lindas, porque eu cheiro com todos os meus sentidos! Acho que é isso o que as pessoas querem, sobretudo os pais: aprender, ensinar e falar sobre cheiros.

O que eu posso propor é um método básico de aprendizagem olfativa. Simples, divertido, para crianças e adultos praticarem no dia-a-dia. Proponho que sigam a minha experiência pessoal, que pode não ser a melhor, mas sem dúvida me ajudou a tornar perfumista. Antes de eu mergulhar no mundo da perfumaria, já gostava e já tinha um conhecimento olfativo bem desenvolvido, graças ao meu ambiente familiar e, assim, pude passar de aluna dos meus pais a professora de muitos leitores.

Para aprender a cheirar é necessário conhecer e comparar diversidades sensoriais, ter o seu tempo para poder cheirar, ver, provar, escutar, tocar.

Para ensinar, os pais devem somente despertar a curiosidade, mostrar novidades, orientar as descobertas, porém, devem deixar a criança construir uma reflexão própria, mesmo que lentamente.

Para isso acontecer é só compartilhar:

- Momentos da vida de todos os dias. Por exemplo, brincando de reconhecer os cheiros das frutas, das especiarias ou das flores, na feira, no mercado, no jardim.

- Quando assar um bolo come tar sobre o cheiro dele antes, durante e ao final do seu preparo e, sobretudo, quando comer.

- Incentivar a prestar atenção ao redor. Saber quando uma fruta está verde, madura ou mesmo passada. Cheirar em todas as fases.

- Vivenciar experiências diferentes. Por exemplo, na horta, o cheiro da terra seca, o cheiro da terra molhada; nas caminhadas, os cheiros de umidade na sombra das árvores e o cheiro da caatinga seca quando não tem essa mesma umidade.

O que é preciso saber:

- Notas básicas olfativas: verdes, aromáticas, frutais (cítricos, frutas vermelhas, frutas exóticas, frutas amarelas), florais (rosa, jasmin, lírio, etc.), madeiras, especiadas (cravo, canela, noz-moscada, etc), animálicas...

- Notas complexas olfativas: como “gourmand”, uma palavra muito comum, usada para falar de perfumes com conotações doces, que lembram sobremesas.

Nesse primeiro momento, não é preciso conhecer cheiros abstratos, como fougère, âmbar, aldeídico, pois só semeará confusão e dúvidas. Um conselho para os pais que trabalham no ramo, não tentem ensinar esses acordes complexos, deixe para a criança, quando na fase adulta, se ela tiver interesse pelo ramo da perfumaria e por sua história.



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