Fragrâncias

Interpretação dos sentimentos

Março/Abril 2008

Carmita Magalhães

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Carmita  Magalhães

É muito interessante como a óptica de interpretação de determinados fatos depende do olhar que temos sobre eles.

Um exemplo: a mudança de estação

- No Brasil: o verão acabou, entramos no outono.

- Na França: a primavera chegou, mas como ainda está nevando, diria que daqui a pouco o inverno acabará e que a primavera está por chegar. Ou seja, no mês de abril, para uns será a chegada dos dias frios e para outros a chegada do calor. Da mesma forma que as pessoas vivem o mesmo momento, apesar de viverem em lugares diferentes e experiências diferentes, as interpretações de cada um se tornarão pessoais e até paradoxais.

Como a interpretação dos perfumes é fundamental no nosso mercado abordarei três temas:

- Emocional: minha interpretação pessoal sobre a rosa

- Histórico: sobre a criação do Chanel N°5

- Etimológico/técnico: a genealogia dos perfumes

Notem que a complexidade crescerá à medida que passarmos por cada um desses temas.

Uma flor: a rosa

Por definição, na perfumaria, a rosa é considerada a rainha das flores. Ela é a encarnação da beleza e da perfeição.

“Hedonisticamente” (ligado ao prazer) eu diria que a rosa por si só é um perfume harmonioso e completo.

Pensando em cores, mencionaria: vermelho, rosa, laranja, amarelo, branco, o jardim da minha infância.

E você, leitor, qual é a sua interpretação?

“Perfumisticamente” as interpretações são mais amplas. Para cada tipo de rosa, daria uma definição:

- Rosa vermelha: paixão, sedução, intensidade, feminilidade, misteriosa, força.

- Rosa cor-de-rosa: romantismo, delicadeza, serenidade, refinamento, descrição.

- Rosa selvagem: inocência, suavidade, transparência, aérea, tranqüilidade.

Com esse exemplo fica claro que as interpretações podem ser diferentes, pois cada um tem suas próprias lembranças, relacionadas à sua memória.

Na história da perfumaria, a rosa tem presença marcante, em toques sutis ou em acordes principais. Nesse segundo caso, pessoalmente acredito que o perfumista homenageia esta “grande dama” da perfumaria, que é interpretada através dos tempos.

Se fosse escolher um perfume em homenagem à rosa, escolheria o Paris d´Yves Saint Laurent. Nesse perfume, a rosa se une a uma outra flor, a violeta. Vale ressaltar que este acorde rosa-violeta é um dos mais belos clássicos da perfumaria moderna.

Um produto: Chanel N° 5

Para falar da interpretação na perfumaria é quase inevitável não escolher a famosa Coco Chanel e seu N° 5, com o qual ela entraria para a posteridade olfativa.

A historia é simples (quando olhamos para trás, sempre achamos que foi simples): o perfume mais famoso do século passado teria nascido de um erro, do uso excessivo de uma matéria-prima sintética (um aldeído) transformando na época um “comum”, mas rico, bouquet floral em um acorde olfativo inusitado.

Um erro para muitos? Será?! Muitos diriam que foi uma sorte das grandes. Será mesmo?! Eu diria que foi uma oportunidade.

Sorte? Sim, por uma assistente ter cometido um erro de diluição.

Oportunidade? Também, por Gabrielle Chanel ter cheirado esta fragrância e ter tido a ousadia de lançar um bouquet floral com fortes toques aldeídicos, responsável por uma “virada” na perfumaria.

E, assim, a famosa estilista, que tinha o número 5 como “fetiche”, com sua interpretação pessoal da moda, das mulheres e do mundo, lançou o Chanel N° 5, que se tornaria o best-seller dos perfumes do século passado:

- um dos perfumes mais vendidos no mundo até hoje;

- um precursor da perfumaria fina;

- uma inspiração primordial para a perfumaria técnica, sobretudo na perfumação dos sabonetes em barra.

Uma palavra: genealogia

O melhor meio da perfumaria para resumir interpretação é a genealogia dos perfumes.

Genealogia, palavra de origem grega, significa genos (origem) e logos (ciência). Por definição, é a lista dos membros de uma família, a ciência que tem por foco a pesquisa das origens e estuda a composição da família.

A genealogia dos perfumes é, por conseqüência, o estudo dos perfumes através dos tempos. É dividida em feminina e masculina e são classificados em famílias e subfamílias, como as pessoas, com seus sobrenomes e nomes.

As genealogias são interpretações criadas por grupos de pessoas/ empresas. Dessa forma, pode-se encontrar diferentes estruturas, com pequenas variações, mas todas as interpretações foram/são baseadas num tronco comum, uma realidade coletiva, reflexo da história e da evolução econômica, social, cultural, geográfica e política. Por esse motivo, diz-se que a perfumaria está em constante evolução.

Essa é a razão pela qual cada Casa de Perfumaria ter genealogias próprias e, dependendo das características de cada mercado, pode-se encontrar genealogias adaptadas, como é o caso da perfumaria brasileira, mas esse será o assunto da próxima edição.



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