Boas Práticas

A ilusão da qualidade

Setembro/Outubro 2026

Carlos Alberto Trevisan

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Carlos Alberto Trevisan

No atual cenário do mercado cosmético, caracterizado pela hipercompetitividade e por vasta pulverização de marcas no segmento de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos (HPPC), a gestão da percepção de valor tornou-se um desafio estratégico altamente complexo. Esse ambiente é frequentemente distorcido pela “ilusão da qualidade”, um fenômeno em que atributos puramente estéticos e apelos superficiais de marketing são utilizados como alavancas de conversão, justificando preços premium que não refletem a real entrega técnica do produto ou serviço.

Esse descolamento de valor ocorre quando as estratégias de branding e design de embalagem mascaram uma infraestrutura de formulação medíocre ou uma baixa durabilidade do efeito prometido. O investimento massivo em narrativas de exclusividade e apelo visual muitas vezes canibaliza o orçamento que deveria ser
destinado à excelência estrutural, à pesquisa e desenvolvimento (P&D) e ao controle de qualidade. Como consequência direta disso, as organizações correm o risco de induzir o consumidor a pagar margens brutas elevadas
por promessas de performance que geram sua frustração em médio prazo, deteriorando o valor da marca e elevando os custos de venda ao cliente devido à falta de recompra.

Essa miopia estratégica é severamente amplificada pela pressão do mercado financeiro por resultados operacionais e lucros de curto prazo. Para inflar os indicadores imediatos, muitas corporações priorizam o efeito “uau” no momento da abertura do produto, desenhado para gerar engajamento instantâneo nas redes sociais, em detrimento do ciclo de vida total do bem. O foco das lideranças migra do compliance técnico — que envolve normas rigorosas de desenvolvimento, testes clínicos de estabilidade e eficácia regulatória — para a conveniência imediata e a estética instagramável, fragilizando a robustez do portfólio da empresa.

Dessa forma, o conceito de qualidade é desidratado de sua métrica técnica, objetiva e mensurável, transformando-se em uma construção puramente psicológica de status e validação social. Para o setor corporativo, a manutenção desse modelo representa um risco sistêmico para sua reputação e sua sustentabilidade financeira. Companhias que baseiam seu crescimento nessa assimetria de informação tornam-se vulneráveis a crises de marca e à perda de fatias de mercado para entrantes mais transparentes.

Para mitigar os riscos operacionais dessa ilusão e garantir a perenidade dos negócios, as organizações precisam recalibrar urgentemente seus métodos de desenvolvimento e satisfazer, de fato, os desejos do cliente. A construção de uma qualidade autêntica exige governança e transparência radical na cadeia de suprimentos, auditoria de fornecedores, adoção de práticas ESG reais, uso de insumos susten- táveis e o estabelecimento de uma estrutura robusta de pós-venda e atendimento ao cliente. Superar a “ilusão da qualidade” significa alinhar a promessa da marca à entrega operacional, garantindo que o valor capturado do mercado corresponda estritamente à utilidade real e ao valor tangível entregues ao cliente final.



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