Sustentabilidade

Sustentabilidade sem fronteiras?

Julho/Agosto 2026

Joana Marto

joanamarto@omesticsonline.com.br

Joana Marto

A sustentabilidade tornou-se um dos principais motores de inovação da indústria cosmética. No entanto, à medida que as empresas expandem a sua presença para mercados internacionais, surge um desafio que nem sempre recebe a mesma atenção: como conciliar a sustentabilidade com um enquadramento regulamentar que varia significativamente entre países/continentes?


Embora a sustentabilidade seja hoje um objetivo comum a grande parte dos mercados, a realidade é que não existe uma harmonização global da legislação aplicável aos cosméticos. O que é permitido, valorizado ou mesmo exigido em um determinado país pode não ser reconhecido em outro. Essa diversidade regulamentar obriga as empresas a encontrar um equilíbrio entre o cumprimento legal, a inovação sustentável e a viabilidade econômica.

Durante muitos anos, a sustentabilidade foi encarada como um fator diferenciador ou uma estratégia de marketing. Atualmente, essa realidade está a mudar. Em várias regiões do mundo, a legislação está a evoluir para transformar práticas sustentáveis em verdadeiras obrigações legais.

Na União Europeia (UE), por exemplo, o Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal) e o Plano de Ação para a Economia Circular estão a impulsionar uma profunda transformação da indústria. Mais recentemente, a Diretiva (UE) 2024/825, relativa à capacitação dos consumidores para a transição ecológica, veio reforçar o combate ao greenwashing, proibindo alegações ambientais vagas ou não comprovadas. Termos como eco-friendly, verde, amigo do ambiente ou sustentável deixam de poder ser utilizados sem evidência robusta que os sustente.

Essa mudança representa um avanço importante para a credibilidade da sustentabilidade, mas também exige um investimento crescente, por parte das empresas, em estudos, rastreabilidade e validação científica das alegações ambientais.
Ao mesmo tempo que a Europa avança rapidamente na regula- mentação da sustentabilidade, outros mercados apresentam priorida- des diferentes. Nos Estados Unidos, apesar da recente modernização da legislação cosmética, por meio do Modernization of Cosmetics Regulation Act (MoCRA), os requisitos relacionados com sustenta- bilidade continuam, em grande medida, dependentes de iniciativas voluntárias ou de legislações estaduais. Na Ásia, a realidade é igualmente heterogênea. Países como o Japão e a Coreia do Sul apostam fortemente na inovação tecnológica, enquanto a China continua a centrar grande parte da sua regulamentação na segurança e na qualidade dos produtos, embora esteja a introduzir, progressivamente, requisitos ambientais, sobretudo em relação a embalagens e à gestão de resíduos. Mercados emergentes, na América Latina, no Médio Oriente e na África, apresentam igualmente níveis muito distintos de exigência, criando um cenário no qual uma mesma formulação pode necessitar de adaptações regulamentares diferentes, consoante o destino.

Essa falta de harmonização cria desafios concretos para as empresas!

Uma embalagem desenvolvida para cumprir os objetivos europeus de redução de uso de plástico poderá não responder às exigências logísticas de determinados mercados, nos quais as infraestruturas de reciclagem são limitadas. Da mesma forma, determinados materiais biodegradáveis ou compostáveis podem não ser valorizados em países onde ainda não existam sistemas adequados para o seu tratamento no final de sua vida.

Quando se fala em sustentabilidade, raramente se considera que a própria exportação tem uma pegada ambiental significativa. O transporte internacional, a necessidade de uso de embalagens secundárias mais robustas, as diferentes exigências de rotulagem para cada mercado e a duplicação de processos de certificação representam custos ambientais e econômicos que nem sempre são contabilizados. Por outro lado, a necessidade de produzir versões diferentes do mesmo produto para mercados distintos reduz economias de escala e dificulta a implementação de estratégias globais de economia circular. Perante esse cenário, torna-se evidente que a sustentabilidade já não pode ser pensada apenas na fase final do desenvolvimento do produto.

Isso implica em as empresas desenvolverem formulações que sejam suficientemente flexíveis para responder às diferentes exigências regulamentares, selecionarem ingredientes com ampla aceitação internacional, privilegiarem embalagens facilmente adaptáveis e incorporarem ferramentas, como a avaliação do ciclo de vida, que devem ser usadas logo nas fases iniciais de desenvolvimento.

Apesar dos desafios, importa reconhecer que a regulamentação pode ser um poderoso impulsionador da inovação.

Historicamente, muitas das maiores evoluções da indústria cosmética surgiram em resposta a novas exigências legais. Hoje, a legislação relacionada com a sustentabilidade está a acelerar o desenvolvimento de novos materiais, processos de fabrico mais eficientes, ingredientes obtidos por meio de biotecnologia e sistemas de embalagem mais circulares.

À medida que a sustentabilidade se consolida como um requisito global, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de que haja maior convergência internacional entre regulamentações.

Assim, uma maior harmonização permitiria reduzir custos, facilitar a inovação, acelerar a adoção de soluções sustentáveis e aumentar a confiança dos consumidores, independentemente do mercado em que o produto seja comercializado.

Enquanto esse cenário não se concretiza, o sucesso das empresas depende da sua capacidade em navegar entre diferentes enquadramentos regulamentares sem perder de vista um objetivo comum: desenvolver produtos seguros, eficazes e ambientalmente responsáveis.



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