Mercado

Clima em transformação, mercados em transição

Julho/Agosto 2026

Carlos Alberto Pacheco

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Carlos Alberto Pacheco

Há poucos anos, a crise climática era tratada como uma agenda predominantemente ambiental. Hoje, tornou-se um fator determinante da economia mundial. Ela influencia a inflação, altera cadeias de suprimentos, modifica padrões regulatórios, redefine investimentos e afeta diretamente a competitividade internacional. Para a indústria cosmética, especialmente aquela que busca ampliar sua presença no mercado externo, compreender esse novo contexto deixou de ser uma questão de responsabilidade corporativa e passou a integrar o próprio planejamento estratégico.

Os números ajudam a dimensionar a velocidade dessa transformação. Tomando o período pré-industrial (1850–1900) como referência, a temperatura média global manteve relativa estabilidade durante séculos. Por volta de 1900, praticamente não havia diferença em relação a essa base histórica. Cem anos depois, no início dos anos 2000, o aquecimento médio já alcançava aproximadamente 0,8°C. Atualmente, o planeta supera cerca de 1,5°C acima do nível pré-industrial, e os últimos anos concentram sucessivos recordes de temperatura.

Não se trata apenas de uma mudança estatística. O sistema climático responde de forma integrada. Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor acumulado na atmosfera. Como consequência, elevam-se as temperaturas superficiais do mar, intensifica-se a evaporação, alteram-se correntes oceânicas e cresce a energia disponível para tempestades. Paralelamente, a acidificação das águas ameaça recifes de coral, comprometendo ecossistemas essenciais para o equilíbrio ambiental.

No ambiente agrícola, os reflexos já são perceptíveis. Alterações no regime de chuvas reduzem a previsibilidade das safras. Ingredientes naturais utilizados pela indústria cosmética — óleos vegetais, extratos botânicos, manteigas e ativos provenientes da biodiversidade — tornam-se mais suscetíveis às oscilações climáticas. A consequência é uma cadeia de abastecimento mais instável, sujeita a aumentos de custos e interrupções inesperadas.

As cidades concentram outro conjunto de desafios. A impermeabilização do solo e a redução das áreas verdes intensificam o fenômeno das ilhas de calor, elevando temperaturas locais e ampliando o consumo de energia elétrica. Ao mesmo tempo, precipitações concentradas provocam enchentes, interrompem atividades econômicas e ampliam perdas patrimoniais.

A economia responde rapidamente a esse novo cenário. Nos países dos BRICS, eventos climáticos extremos pressionam a produção agrícola, a segurança hídrica e os custos energéticos. A Europa, por sua vez, transformou o enfrentamento das mudanças climáticas em política industrial. Regulamentos relacionados à economia circular, emissões de carbono, rastreabilidade, desmatamento e diligência das cadeias produtivas tornam-se cada vez mais requisitos para acesso ao mercado europeu.

Na América Latina, onde parcela significativa das exportações depende de recursos naturais, a vulnerabilidade climática assume importância estratégica. No Brasil, enchentes e secas afetam simultaneamente a geração hidrelétrica, a infraestrutura logística e os custos industriais. O resultado é um ambiente de maior incerteza para investidores e exportadores.

Essa convergência entre clima, economia e regulamentação está remodelando o comércio internacional. Barreiras técnicas deixam de considerar exclusivamente segurança, eficácia e qualidade dos produtos, incorporando informações sobre emissões de gases de efeito estufa, origem sustentável das matérias-primas, conservação da biodiversidade, consumo de água e transparência das cadeias produtivas. O consumidor acompanha esse movimento, valorizando empresas capazes de comprovar seus compromissos ambientais por meio de indicadores objetivos, certificações reconhecidas e governança consistente.

Nesse contexto, inovação assume um significado mais amplo. Biotecnologia, química verde, processos industriais de menor intensidade energética, embalagens circulares, digitalização da rastreabilidade e gestão ambiental integrada deixam de representar apenas avanços tecnológicos. Tornam-se instrumentos de competitividade internacional.

Talvez a principal mudança seja conceitual. Durante décadas, a sustentabilidade foi apresentada como um custo adicional necessário para proteger o planeta. Hoje, ela se consolida como condição para acessar mercados, reduzir riscos operacionais, atrair investimentos e preservar valor econômico.

A crise climática continuará moldando a evolução dos marcos regulatórios e das exigências comerciais nas próximas décadas. Para a indústria cosmética brasileira, compreender esse cenário significa antecipar riscos, identificar oportunidades, fortalecer sua posição em mercados cada vez mais exigentes e incorporar a variável climática às decisões empresariais. Afinal, exportar com sucesso dependerá não apenas da qualidade dos produtos, mas também da capacidade de demonstrar que inovação, sustentabilidade e conformidade caminham juntas.



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