Bioeconomia

COP30 e bioeconomia

Janeiro/Fevereiro/Março 2026

Francine Leal

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Francine Leal

Esta coluna inaugura uma nova série dedicada à bioeconomia, marcando a retomada da parceria entre a GSS e a revista Cosmetics & Toiletries Brasil. Nos próximos meses, aprofundaremos temas que conectam biodiversidade, inovação, regulação e geração de valor no setor cosmético.

A COP30 representou um ponto de inflexão na agenda internacional. Mais do que um evento diplomático, consolidou uma mudança estrutural: clima e biodiversidade deixaram de ser tratados separadamente e passaram a integrar a estratégia econômica global.

Para o setor cosmético, essa integração é concreta
Desde a ECO-92, quando foram estabelecidas a Convenção do Clima e a Convenção sobre Diversidade Biológica, as COPs vêm moldando compromissos multilaterais. No entanto, foi recentemente que a bioeconomia ganhou centralidade como solução estruturante para enfrentar a crise climática. Essa mudança altera o papel do Brasil e das cadeias produtivas baseadas em ativos naturais.

Biodiversidade: risco ou ativo estratégico?
O Global Risks Report do World Economic Forum vem apontando, nos últimos anos, a perda da biodiversidade entre os principais riscos globais aos negócios. A pergunta que o setor cosmético deve fazer é objetiva: qual o grau de dependência do meu portfólio em relação à biodiversidade?

Óleos vegetais, manteigas, extratos botânicos, fermentados e ativos inspirados na natureza dependem de sistemas ecológicos funcionais. Sem biodiversidade, não há insumos naturais. Sem insumos naturais, perdem-se diferenciação, narrativa e valor agregado.

A biodiversidade deixou de ser apenas um tema reputacional para se tornar variável econômica.

Regulação como tendência global
A legislação brasileira de acesso a recursos genéticos, conhecimento tradicional associado e repartição de benefícios (Lei no 13.123/2015) ainda é vista por muitos como entrave regulatório. Essa leitura é limitada. A norma decorre do compromisso assumido pelo país na Convenção sobre Diversidade Biológica e no Protocolo de Nagoia, instrumento internacional já adotado por mais de 140 países. Hoje, cerca de 80 países têm legislações semelhantes. Não se trata de “risco Brasil”, mas de convergência global.

Além disso, a repartição de benefícios não constitui imposto. Os recursos são destinados à conservação, ao uso sustentável da biodiversidade, à valorização de conhecimentos tradicionais e ao fomento à pesquisa e ao desenvolvimento. Sob a perspectiva estratégica, trata-se de reinvestimento na própria base produtiva.

Bioeconomia como vetor de inovação
Durante a COP30, a bioeconomia foi reconhecida como instrumento essencial para manter a floresta em pé por meio da geração de renda estruturada. O Brasil abriga cerca de 20% das espécies do planeta e mantém ampla cobertura vegetal nativa. Esse patrimônio, aliado ao conhecimento tradicional associado, representa um dos maiores potenciais de inovação do mundo.

O setor farmacêutico opera em ciclos longos de desenvolvimento. Já o setor cosmético tem agilidade regulatória e capacidade de transformar ativos naturais em valor de mercado com rapidez e apelo sensorial.

Quantos lançamentos utilizam ingredientes de origem vegetal? Quantas fórmulas exploram narrativas ligadas à floresta ou à naturalidade? Se há valor mercadológico, há também responsabilidade de governança.

Da narrativa ao impacto
Quando estruturada com responsabilidade, a bioeconomia gera impacto mensurável. Projetos de repartição de benefícios têm demonstrado aumento de renda em comunidades tradicionais, fortalecimento de redes produtivas e melhoria de indicadores sociais. Investimentos relativamente modestos podem produzir transformação relevante quando integrados à cadeia de valor.

Sustentabilidade, nesse contexto, não é custo - é estratégia de continuidade e segurança de suprimento.

O que muda a partir da COP30?
Com o Brasil conduzindo os desdobramentos até a próxima conferência, abre-se uma janela estratégica para integrar clima, biodiversidade e inovação industrial.

Para o setor cosmético, isso implica:
• mapear dependência e impacto sobre biodiversidade;
• estruturar compliance regulatório internacional;
• integrar bioeconomia às estratégias de P&D;
• enxergar a repartição de benefícios como oportunidade e investimento.

A questão não é mais se a biodiversidade afeta o negócio. A questão é quanto do valor gerado depende dela.

O setor cosmético brasileiro tem diante de si uma oportunidade rara: liderar uma inovação baseada em biodiversidade, com governança, geração de valor e protagonismo internacional.



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