Gestão em P&D

Mentalidade analógica e digital no P&D de cosméticos

Janeiro/Fevereiro/Março 2026

Wallace Magalhães

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Wallace Magalhães

O P&D da indústria de cosméticos é um setor que opera com um grande volume de informações. Literatura acadêmica, FISPQ, métodos de análise, protocolos, formulações, resultados de testes e estudos, texto de rotulagem, entre outros. Isso faz com que o desenvolvimento de uma linha de 200 produtos gere, aproximadamente, 5 mil documentos. Isso sem falar que um estudo de estabilidade completo pode ter mais de mil resultados de análises. Não é pouca coisa. A forma como essas informações são registradas, mantidas e compartilhadas determina o nível de eficiência dos técnicos e do setor e afeta a competitividade da empresa, já que a qualidade e o desempenho do produto serão consequência do que está registrado como informação repassada a outros setores, como a produção, por exemplo. Aqui coexistem duas mentalidades: a analógica e a digital.

A mentalidade analógica é caracterizada por um modelo de trabalho centrado em experiência tácita, documentos físicos e processos lineares. As características principais são:

- Registros em planilhas locais, cadernos de laboratório ou formulários impressos;
- Dependência de conhecimento individual, muitas vezes não documentado formalmente;
- Comunicação predominantemente verbal ou por e-mail, com pouca ou nenhuma rastreabilidade;
- Decisões baseadas na percepção e no histórico pessoal mais do que em dados estruturados;
- Dificuldade de integração de informações;
- Impossibilidade de automação de tarefas.

Essa abordagem, embora tenha sustentado a indústria por décadas, torna o processo de desenvolvimento muito lento, frágil e caro para os padrões atuais. Naturalmente segmentado, esse formato é vulnerável porque as informações ficam dispersas e suscetíveis a perda ou extravio. Perdas essas que podem comprometer a qualidade e a situação regulatória dos produtos e, segundo especialistas, impossibilitam o compartilhamento do conhecimento, o que significa perda econômica para a empresa. A rotatividade de pessoal também é um problema.

A mentalidade digital representa a transição para uma cultura baseada em dados, colaboração e integração tecnológica. A ideia é ter informação estruturada, protegida e rastreável que, além de atender demandas, forme uma base de conhecimento que possa ser compartilhado e estar disponível para novos projetos. Essa mudança não é apenas tecnológica, é cultural. Analistas e gestores precisam enxergar informações como ativo estratégico. Assim, o conhecimento deixa de ser individual para tornar-se institucional. Com recursos adequados e específicos, é possível automatizar tarefas que, além de acelerarem o processo e reduzirem o custo, disponibilizam mais tempo para a realização de pesquisas mais profundas e geração de know-how e produtos de maior valor, o que é muito conveniente para a empresa - que terá produtos mais competitivos - e para os técnicos, que, por sua vez, terão seu nível de conhecimento aprofundado e ampliado.

A migração da mentalidade analógica para a digital, que todos nós já fizemos em nossa vida cotidiana e as empresas já fizeram em vários departamentos, pode ser um desafio maior para o P&D. O trabalho de Pesquisa e Desenvolvimento, além de abranger um número muito grande e variado de informações, tem como característica “fazer uma coisa que ainda não foi feita”, o que é um desafio bem diferente dos outros setores.

O desenvolvimento de formulações é um processo relativamente longo, e a fase de laboratório/bancada é intensa e, normalmente, ocupa muito tempo, o que pode dar a impressão de que esse é o trabalho principal do P&D, mas isso é um grande equívoco. A verdadeira entrega do P&D é informação, que, além de instruir a produção, por força da legislação, deve abranger todos os itens dos requisitos técnicos estabelecidos nas normas sanitárias.

Fazer essa transição é um ganho para a empresa e para os profissionais, que, com os ganhos, poderão ir para um patamar superior de conhecimento. É o famoso “ganha-ganha”. Uma oportunidade de ouro.



Outros Colunistas:

Deixe seu comentário

código captcha

Seja o Primeiro a comentar

Novos Produtos