Gestão em P&D

Novas demandas pré-bancada do P&D

Novembro/Dezembro 2025

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Alguns fatos recentes têm exigido ajustes e mudanças no processo de desenvolvimento de cosméticos. E uma das alterações mais importantes se refere à fase “pré-bancada”. É nesta fase que é realizada a pesquisa que vai definir o padrão de qualidade e desempenho
do novo produto. É razoável pensar que fazer um desenvolvimento saltando ou abreviando esta fase, mesmo quando o trabalho de bancada for bem-sucedido, irá resultar no “mesmo do mesmo”. Isso, na melhor das hipóteses, porque não é incomum que esse formato gere não conformidades técnicas e regulatórias. Sem falar em produtos de custo inadequado ou de baixa performance.

Histórica e erroneamente, em muitas empresas, sempre houve uma supervalorização da fase de bancada no trabalho de desenvolvimento, provavelmente porque é a fase que gera resultado palpável. Se isso, há tempos, já era um equívoco, atualmente ficou mais evidente por causa das inovações tecnológicas e dos movimentos do mercado que cada vez exigem mais dos produtos que consome. Além da pesquisa técnica para sustentar claims, verificação de custo e regularidade de fornecimento de ingredientes, custo e adequação regulatória da formulação, compatibilidade do modo de preparação com os recursos da planta de fabricação, os projetos “collab” e a abordagem ecológica exigem uma ampliação dessa fase. No caso de “collab”, a fase de pesquisa é importante porque é quando se alinham escopo, valores e padrões de qualidade, eficácia e segurança.

Por outro lado, a preocupação com o impacto das substâncias usadas na composição dos cosméticos deixou de ser um diferencial e tornou-se uma exigência de mercado. É na fase de pesquisa que são verificados e avaliados os critérios de sustentabilidade do novo produto. Fazer a opção consciente por ingredientes seguros e ambientalmente compatíveis é básico, e o primeiro passo é a verificação detalhada desses ingredientes. Informações sobre solubilidade, coeficiente de partição octanol/água (log P), peso molecular, volatilidade e estabilidade permitem prever o comportamento ambiental da substância e, consequentemente, da formulação.

A ecotoxicidade aquática é também ponto de atenção. Mesmo que os testes de toxicidade em organismos aquáticos não sejam exigidos rotineiramente para ingredientes e formulações de cosméticos, dados de literatura auxiliam na identificação de riscos potenciais. A avaliação de toxicidade em algas, microcrustáceos e peixes é uma informação relevante para avaliar o impacto ambiental de ingredientes e formulações. O uso de substâncias classificadas como “readily biodegradable” é altamente recomendado porque elas podem ser processadas por microrganismos em condições ambientais normais. Essa característica é essencial para minimizar o acúmulo de resíduos orgânicos em ecossistemas aquáticos. No caso de ingredientes não facilmente biodegradáveis, há de se pesquisar associações com outras substâncias que favoreçam a decomposição ou buscar substitutos mais compatíveis. Outro fator a se considerar é a concentração de ativos nos blends. Alta concentração de água ou veículos deve ser evitada porque aumenta o custo do ingrediente e a emissão de carbono no transporte até a fábrica. Além do desempenho ecológico de cada ingrediente, a fase de pesquisa deve avaliar o impacto coletivo da formulação. Interações entre os ingredientes podem alterar a biodisponibilidade e a degradação de cada componente, modificando a ecotoxicidade.

É recomendável que o P&D mantenha uma ficha de avaliação ambiental de ingredientes, com registros padronizados de biodegradabilidade, ecotoxicidade, origem (natural, sintética, biotecnológica) e rotas de degradação. Essa base de dados é um ativo técnico valioso, inclusive para trabalhos futuros. Além da composição da formulação, o modo de preparação também deve ser criteriosamente elaborado e avaliado no sentido de se optar por um processo seguro e mais sustentável possível. Critérios de sustentabilidade também devem ser criteriosamente aplicados no desenvolvimento da embalagem porque ela também será descartada.

A abordagem integrada da ecologia no desenvolvimento de cosméticos não apenas garante produtos ambientalmente mais seguros e compatíveis, mas também posiciona a empresa à frente das crescentes demandas por transparência e sustentabilidade. E, obviamente, aumenta a responsabilidade do P&D, a abrangência e o tempo de pesquisa de um novo desenvolvimento. Isso é o inevitável sinal dos tempos.



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