Gestão em P&D

Cosméticos e mudanças climáticas no P&D

Setembro/Outubro 2025

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Mesmo que alguns neguem, vivemos tempos de mudanças climáticas importantes. Na conta da intensidade, as causas naturais como ciclo de Milankovitch, atividades vulcânicas, atividade solar e oscilações naturais na temperatura dos oceanos parecem ter influência muito menor que mudanças causadas pela atividade humana. Outra coisa que chama a atenção é que parece que a conta chegou antes do esperado e com valor mais alto.

Assim, o binômio Cosméticos x Mudanças climáticas ganha grande importância ambiental, social e estratégica. Em outras palavras, importância mercadológica e, por isso, é mandatório. No P&D, este binômio tem que ser abordado sob dois ângulos distintos. A primeira abordagem deve considerar os efeitos biológicos que as mudanças climáticas provocam. Ao alterar o ambiente, essas mudanças têm impacto na saúde das pessoas, e isso cria novas demandas para cuidado e tratamento da pele e seus anexos. Ou seja, cria mercado. A segunda abordagem diz respeito aos produtos e deve considerar a maneira como eles são fabricados, distribuídos, utilizados e até como serão descartados.

Na pele, o aumento da incidência de radiação UV torna maior o risco de fotoenvelhecimento, com aparecimento de manchas e rugas. Ainda haverá mais possibilidade de causar queimaduras solares e até o desenvolvimento de câncer de pele. Ondas de calor podem causar piora de doenças relacionadas a vasodilatação, sudorese e produção de sebo, como rosácea, dermatite seborreica e acne. Baixas taxas de umidade ressecam a pele e podem gerar descamação e irritação. Poluição atmosférica pode trazer partículas que afetam negativamente a barreira cutânea e podem até aumentar o estresse oxidativo. Temperatura e umidade altas podem aumentar a incidência de micoses, escabiose e infecções da pele. Mesmo sabendo que o tratamento de doenças não é o objetivo dos produtos HPPC, é importante conhecer essas possibilidades para que o novo produto possa atuar positivamente na prevenção, mitigação de efeitos e até na correção de alguns eventos.

Nos cabelos, a radiação UV degrada a queratina e a melanina do fio. A exposição solar aumentada pode causar alterações da cor e enfraquecimento da fibra. Já em altas taxas de umidade, haverá aumento do frizz e perda de definição dos cachos. A deposição de partículas suspensas na atmosfera pode tornar os fios opacos e até causar enfraquecimento. Altas temperaturas ainda podem aumentar a oleosidade e favorecer o aparecimento de caspa e prurido.

Para desenvolver a formulação, haverá muitos fatores a serem considerados. A escolha dos ingredientes é um ponto crucial. Materiais derivados de petróleo têm alta pegada de carbono devido à extração e ao refino. Ao selecionar ingredientes naturais, é necessário verificar se a obtenção é realizada por processos sustentáveis. Outro fator é a distância que os ingredientes percorrem. Longas distâncias significam mais emissão de carbono, além de aumento de custo. Será sempre menos poluente usar óleos e extratos vegetais de plantas cultivados em regiões próximas. Também a redução da quantidade de água na formulação, quando possível, é uma providência valiosa. Já o processo de preparação deve ser definido com a menor quantidade de energia possível. O uso de tecnologias de baixo consumo, como emulsões a frio ou processo de emulsão de três fases (quente-quente-frio) são boas opções que ainda reduzem ou eliminam a etapa de resfriamento.

Mesmo que, na maioria dos casos, a embalagem seja desenvolvida em outro setor, é importante que o P&D tenha critérios para colaborar nesse processo. E, nesse quesito, também será necessário olhar com profundidade para fazer a melhor escolha. É o caso do vidro. Ele é reciclável, mas é pesado, e seu transporte gera mais emissões do que o transporte de embalagens mais leves, como as de alumínio, por exemplo.

Temos que considerar ainda que, depois de usados, os produtos serão lançados no meio ambiente. E não só a embalagem. A formulação também vai atingir o ambiente aquático ou a atmosfera, que são elementos de estabilidade climática.

O uso de energia renovável, a adoção de horários racionais, a criação de rotas racionais para a distribuição dos produtos e a implantação de engenharia reversa, dentre outras, são providências importantes, mas, por mais criterioso que seja o funcionamento da empresa, a abordagem efetiva do problema somente será completa se o P&D fizer sua parte. E os primeiros passos são a conscientização dos técnicos e dos seus gestores.



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