Fragrâncias

Antropologia e avaliação olfativa de fragrâncias

Janeiro/Fevereiro 2025

Olivier Fabre

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Olivier Fabre

Será que existem antropologia olfativa e antropólogas e antropólogos olfativos? Essa é uma pergunta que eu me faço regularmente e às vezes acho que, de alguma forma, avaliadoras e avaliadores olfativos são, ao mesmo tempo, antropólogas e antropólogos olfativos.

O que me levou a me fazer essa pergunta foi constatar que o antropólogo Claude Lévi-Strauss fez, em seus escritos, inúmeras referências olfativas. Uma dessas referências que me impactou muito foi seu primeiro contato olfativo com o Brasil, que ocorreu quando ele avistou a costa do país enquanto estava a bordo do navio misto Mendoza, na sua primeira viagem para o Brasil, onde morou de 1935 até 1940.

Em sua obra Tristes trópicos (editora Companhia das Letras, 1996), Lévi-Strauss cita: “A princípio parece que as fragrâncias marinhas das semanas anteriores já não circulam livremente; elas se deparam com uma parede invisível; assim imobilizadas, exigem atenção apenas para odores de outra natureza, e que nenhuma experiência anterior permite qualificar; brisa da floresta alternada com aromas de estufa, quintessência do reino vegetal cujo frescor específico teria sido tão concentrado que resultaria em uma intoxicação olfativa, a última nota de um acorde poderoso, arpejado como para isolar e misturar os tempos sucessivos de diversos aromas frutados. Só compreende- rão os que enterraram o nariz no coração de uma pimenta exótica recém-rasgada depois de ter inalado em um bote- quim qualquer do sertão brasileiro o toque melado e preto de folhas de fumo de tabaco. Folhas de fumo são folhas de tabaco fermentado enroladas em cordas de alguns metros que, na união desses cheiros irmãos, encontram esta Amé- rica que durante milênios foi a única a possuir seu segredo”.

Essa descrição é para mim uma das mais belas e exatas que já li. Além do maravilhoso estilo da escrita, nada falta dos elementos da descrição olfativa de uma fragrância: notas de cabeças (verdes, vegetais); de coração (frutadas, apimentadas); de fundo (melado, tabaco).

A descrição de um perfume é uma das responsabilidades das avaliadoras e dos avaliadores. Mas a relação da antropologia com a avaliação olfativa vai além disso. Outra responsabilidade de avaliadoras e avaliadores, aliás sua maior responsabilidade, é responder a briefings para desenvolver fragrâncias para um público-alvo bem definido de consumidores. De alguma forma, responder à um briefing se assemelha a fazer uma pesquisa antropológica, com todas as proporções guardadas, aplicada nesse caso às preferências olfativas do público-alvo do briefing.

Por isso, em certo momento da minha carreira profissional de avaliador, comecei, de forma intuitiva, a tratar os briefings como se fossem uma pesquisa antropológica.

Meu objetivo era entender, da melhor forma possível, por que o alvo do briefing preferia ou rejeitava determinada fragrância. Por exemplo, para briefings de fragrâncias para a América Central evitava submeter fragrâncias de flor branca, jasmim, lírio e tuberosa, já que, para os centro-americanos, a flor branca remete ao cheiro de velório, devido à abundância de flores brancas nessas cerimônias.

Outro objetivo era sempre ter em conta os cheiros que chamo de “patrimônio olfativo” do país ou da região do briefing. Por exemplo: para os briefings do Brasil sempre guardava na memória o cheiro da erva-doce, tão apreciado e popular no país inteiro.

Eu poderia citar muitos outros exemplos em que tanto a história, os costumes, a cultura, as tradições, a socioeconomia do país, em suma, os objetos de estudo da antropologia podem servir de diretriz para o desenvolvimento das fragrâncias.



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