Gestão em P&D

Novas formas do P&D

Novembro/Dezembro 2024

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Se compararmos as formulações dos cosméticos dos anos 1980 e 1990 com as atuais, fica claro que houve mudanças e avanços importantes, não somente nas composições e nos ingredientes, mas também nas formas dos produtos. Além da evolução do conhecimento científico, existe a mudança da percepção do consumidor.

Até mesmo os produtos populares, que nas décadas de 1980 e 1990 conseguiam sobreviver e ter bom desempenho de mercado com formulações simples, agora apresentam composição e conceito tecnicamente mais sofisticados. Naquela época, os cremes capilares traziam em sua composição somente álcool graxo, quaternário de amônio, ácido cítrico, metilparabeno, corante, perfume e, a meu ver, uma “pitada de conversa fiada” na rotulagem. Claro que um produto com essa composição simples traz algum benefício se comparado com “não usar nada”, mas hoje não teria mais espaço. Isso aconteceu porque a tecnologia evoluiu, os produtos concorrentes avançaram e, princi- palmente, porque o consumidor ficou mais exigente. E o mercado não é infinito. Ninguém faz uma segunda compra de um produto que não agradou.

Vários fatores contribuíram para essa mudança. A nanotecnologia trouxe a possibilidade de produtos mais eficazes e de efeitos mais intensos. O conhecimento sobre a importância da microbiota cutânea permitiu a criação de ingredientes e produtos mais eficazes e mais seguros. O avanço da biotecnologia disponibilizou ingredientes sustentáveis de alta performance. Houve avanços no conhecimento sobre produtos potencialmente perigosos para pessoas e danosos para o meio ambiente, como os conservantes, por exemplo. E mais: o consumidor, com a evolução da tecnologia, passou a ter acesso a muitas informações sobre si e as possibilidades disponíveis para atender às suas necessidades. Fica fácil entender o motivo de tantas mudanças nas formas e composições dos cosméticos. E a inteligência artificial ainda deve abrir novas e inúmeras possibilidades.

Nesse cenário, principalmente nas pequenas e médias empresas, ainda é preocupante o não reconhecimento por parte de gestores do papel central do P&D nesse processo de renovação e sua participação nos resultados econômicos. Os resultados das empresas vêm do desempenho dos produtos no mercado e, como eles são regularizados e fabricados por setores que replicam o que foi feito no P&D, fica fácil entender sua importância. E é mais preocupante o fato de muitos especialistas do P&D também não perceberem essa relação direta de seu trabalho com o desempenho econômico da empresa. Essa baixa valorização reflete negativamente nos recursos disponibilizados ao setor e nos seus processos internos.

Ainda há o equívoco sobre a estrutura do P&D, que é obrigatoriamente formada por instalações, pessoas e sistema de informação. O que o P&D entrega para regularizar e produzir um produto é informação. Portanto, queira ou não, todo P&D tem um sistema de informação operando, e a baixa disponibilização de recursos acaba fazendo com que sejam usadas planilhas e pastas. O uso desses recursos improvisados e não validados resulta numa alta incidência de erros e retrabalho e consome mais de 25% do tempo e do investimento de custeio. Esse tempo poderia ser mais bem aproveitado no desenvolvimento de novas formas de produtos e novas metodologias de avaliação. Em muitas em- presas, o desenvolvimento e a avaliação ainda são feitos com os mesmos protocolos e a mentalidade da década de 1990.

O presente não é nada mais que o resultado do que foi decidido, feito e do que aconteceu no passado. Da mesma forma, o futuro será resultado do que está sendo feito, decidido e do que acontecer no presente. Assim, olhar para trás é um bom exercício para entender o agora e projetar o futuro. Isso é especialmente interessante para o P&D que trabalha criando produtos para serem usados no futuro. O que se sabe é que virão muitos desafios e que não haverá chance de sucesso para quem permanecer em inércia tecnológica ou de mentalidade.



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