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Durante minha carreira profissional de avaliador olfativo, tive a chance de tra- balhar em quatros continentes e de visitar “olfativamente” mais de 75 países. Sendo o tema desta edição cosméticos e etnia, vou relatar meus aprendizados e minhas experiências sobre a relação entre fragrâncias e etnias.
Em primeiro lugar, como já mencionei em várias colunas anteriores, existe uma ligação estreita entre a cultura de um país ou de uma região e as preferências olfativas de seus habitantes. Isso se verifica ainda mais na relação entre a cultura de uma etnia e as preferências olfativas de seus membros. Por outra parte, observa-se que, na história da humanidade, cada civilização faz uso específico das fragrâncias. Por exemplo, no Egito antigo as fragrâncias eram um meio de comunicação das pessoas com os deuses, enquanto que na Amazônia as fragrâncias servem para elas se comunicarem com a alma. Não é à toa que os pajés da Amazônia Andina se denominam “perfumeros”.
Quando comecei minha carreira profissional, em várias ocasiões recebi briefings com o objetivo de desenvolver uma fragrância global, ou seja, uma única fragrância que fosse apreciada da mesma forma ao redor do mundo. Entende-se facilmente a razão pela qual uma empresa global pode pretender colocar a mesma fragrância no seus produtos: realizar economia de escala. Mas rapidamente percebi que isso era utópico. Para uma empresa global, economias de escala podem ser realizadas nos processos de fabricação, na escolha das matérias-primas e no desenvolvimento da formulação. Entretanto, não é possível realizar economia de escala com as fragrâncias, pois o que é apreciado no Brasil com dois sigma de preferência é rejeitado na Índia e, mesmo dentro do próprio Brasil, o que é apreciado no Nordeste pode ser rejeitado no Sudeste! E eu poderia multiplicar os exemplos. Portanto, o que fez com que minha profissão fosse apaixonante.
A partir dessa constatação, comecei a me interessar, de perto, pela relação entre as fragrâncias e as preferências de consumidores e a tentar identificar como funciona a relação entre a cultura dos consumidores e suas preferências (ou rejeições) olfativas. À medida que entendia melhor essa relação, mais acertava no desenvolvimento das fragrâncias.
Fatos interessantes, algumas vezes quase cômicos, aconteceram no início da minha carreira, quando eu visitava frequentemente vários países da América Central.
Naquele tempo, as viagens duravam várias semanas e eu visitava sucessivamente vários países.
Antes de partir, eu selecionava as fragrâncias que seriam apresentadas aos clientes. Na minha primeira viagem, eu tinha levado várias fragrâncias opulentas de flores brancas pensando que seriam bem apreciadas na região. Erro meu! Rapidamente fui informado que, na América Central, esses tipos de fragrância remetem demais a cerimônias de velório, nas quais muitas flores brancas são colocadas junto ao defunto. Outro fato foi que, em um táxi em Mumbai, na Índia, senti um maravilhoso cheiro de rosa. Perguntei ao motorista qual era a marca do difusor de fragrância. Qual foi minha surpresa quando ele me respondeu que era a fragrância que ele mesmo usava. No dia seguinte, não tive dúvida em pro- por a rosa para um briefing de fragrância masculina! Aliás, hoje a perfumaria de “niche” ou “indie”, segmento da perfumaria em forte crescimento, já não atribui gênero às fragrâncias, e estas não são “unissex”, são fragrâncias!
Hoje, com o desenvolvimento dos blogs de amadores de fragrâncias nas redes sociais (não estou falando de influenciadores que se tornaram meros agentes comerciais de marcas), é cada vez mais importante desenvolver fragrâncias que levem em conta os aspectos sócio-culturais dos consumidores.
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