Fragrâncias

A contribuição do Brasil para a perfumaria mundial

Janeiro/Fevereiro 2023

Olivier Fabre

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Olivier Fabre

Muitas vezes, durante palestras, cursos e conversas sobre perfumaria, há uma pergunta recorrente. Por que será que os perfumes brasileiros não são tão bons quando comparados aos perfumes importados?

Sempre fico surpreso com essa pergunta e, se pergunto a essas pessoas por que razão acham que os perfumes importados são melhores que os nacionais, elas dão respostas, em geral, evasivas, imprecisas e sem muito fundamento.

Por que será que muitas pessoas pensam assim? Em francês há um dito que, acho, pode explicar essa crença: “A grama sempre parece mais verde do outro lado da cerca”. Seria essa a explicação aplicada para fragrâncias? O que vem do estrangeiro é melhor que o que é do Brasil? Não concordo! E, em particular, isso não ocorre na perfumaria.

Se analisarmos a história da perfumaria brasileira, veremos que essa área tem se desenvolvido desde os anos 1950 e sempre deu uma contribuição importante para a perfumaria mundial. Naquela época, essa contribuição foram os ingredientes naturais do Brasil que eram usados nas fragrâncias criada por perfumistas europeus. O exemplo mais icônico desses ingredientes é o óleo essencial de pau-rosa, originário da Floresta Amazônica, que é um componente importante da fórmula do perfume Chanel no 5. Essa fragrância se tornou a fragrância fina mais conhecida e vendida do mundo! Mas esse não é o único exemplo: são várias as fórmulas de fragrâncias da perfumaria fina nas quais o óleo essencial de pau-rosa está em sua fórmula e isso ocorre até em criações recentes.

Então, naquele tempo, um ingrediente brasileiro contribui para a excelência de fragrâncias que ainda estão no mercado. Mas não foi somente isso. Nos últimos 20 anos, empresas brasileiras de óleos essenciais se desenvolveram e ampliaram a paleta de óleos essências à disposição tanto de perfumistas de empresas brasileiras como de empresas estrangeiras, de forma significativa.

A contribuição brasileira não se dá unicamente em relação aos óleos essenciais do Brasil. Ela também é importante na criação de fragrâncias, tanto de fragrâncias finas como de fragrâncias funcionais.

O que muitas pessoas não sabem é que na comunidade de perfumistas criativos mundial a proporção de brasileiros é significativa e que estes são responsáveis por sucessos e pelo desenvolvimento da perfumaria global.

As primeiras empresas de criação de fragrâncias chegaram no Brasil nos anos 1950. No começo, os perfumistas eram expatriados da Europa. Mas, pouco a pouco, perfumistas brasileiros foram treinados nessas empresas ou em suas escolas de perfumaria. O resultado é que hoje, no Brasil, são poucos os perfumistas expatriados, a maioria são brasileiros, tanto trabalhando em multinacionais como nas empresas brasileiras do mercado.

Esses perfumistas criam fragrâncias para briefings “globais”. Se a fragrância for a vencedora do briefing, o produto poderá chegar a ser vendido no mercado brasileiro, um dos maiores do mundo, e em outros mercados. Assim aconteceu com a fragrância do Lux Botanicals Rosas Francesas, comercializado na América Latina, na Ásia e na África desde os anos 2000, foi criada por uma perfumista brasileira.

E muitos outros exemplos podem ser citados.

Hoje, perfumistas brasileiros se expatriam ou trabalham em briefings para outros mercados e empresas brasileiras exportam produtos perfumados. Portanto, a indústria da perfumaria é atualmente uma indústria totalmente globalizada.

Voltando à pergunta do início desta coluna, nesse contexto de globalização, as fragrâncias criadas e comercializadas hoje no Brasil não são diferentes das fragrâncias de outras origens. Tanto as fragrâncias brasileiras quanto as estrangeiras são criadas por perfumistas das mesmas casas de fragrâncias, entre eles perfumistas brasileiros, e seus ingredientes são os mesmos, seja qual for o local de sua fabricação. Sim, nesse caso, o ditado francês se verifica: “A grama sempre parece mais verde do outro lado da cerca”.



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