Fragrâncias

O lança-perfume marcou a história do Brasil

Maio/Junho 2022

Olivier Fabre

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Olivier Fabre

Em uma das edições do ano passado (mar/ abr 2021), nesta revista, abordei os temas patrimônio olfativo do Brasil e as características dos cheiros dos produtos perfumados mais populares no país. Hoje vou falar de um dos produtos perfumados icônico do Brasil: o lança-perfume.

Genuinamente brasileiro, apesar de ter sido inventado na França, o lança-perfume teve um desenvolvimento comercial extraordinário no Brasil, que foi o único lugar no mundo onde o lança-perfume teve tamanho
sucesso.

É interessante notar que o antecessor do lança-perfume era um produto de uso médico- farmacêutico. O ingrediente principal desse produto, o cloreto de etila, tem poder anestésico. A embalagem do produto era um
tubo de vidro que continha a quantidade adequada para uma dose de anestesia local. Esse produto era usado dessa forma na França, desde os anos 1890. Acontece que um dos fabricantes desse produto anestésico era a empresa Société Française des Usines du Rhône, futura Rhodia, que o produzia sob a marca Kélène e sintetizava moléculas para o mercado da perfumaria, outro ramo de suas atividades.

Um dia, um certo Sr. Chatenoud fez uma mistura acidental de cloreto de etila com violeta sintética. O resultado foi que a empresa teve a ideia de patentear essa mistura como o nome Lance parfum Rodo e de lançar esse produto no mercado da perfumaria. A empresa passou a exportá-lo, em tubos de alumínio, para sua filial do Brasil.


O sucesso do produto no Brasil foi imenso, sobretudo nos bailes de carnaval, e cresceu anos após ano, de carnaval em carnaval, chegando a ser vendidas mais de 40 toneladas do produto por ano, nas décadas de 1940 e de 1950, o que significava de 3 a 4 toneladas de perfume. Essa era uma quantidade expressiva de fragrância para a indústria da perfumaria da época.

Provavelmente, o lança-perfume era o produto perfumado número um, em volume, do mercado brasileiro naquele período!

A princípio, o lança-perfume era usado de forma lúdica: borrifar um perfume agradável nos foliões e nas folionas. Outro atrativo do lança-perfume era que, quando ele era borrifado na pele, deixava uma impressão de frescor que era muito bem-vinda no calor da cidade do Rio de Janeiro e nos bailes do carnaval. Essa é outra característica do cloreto de etila que contribuiu para o sucesso do lança-perfume no Brasil. O lança-perfume se tornou um dos acessórios indispensável do carnaval brasileiro.

Rapidamente o uso do lança-perfume foi aumentando devido à outra característica do cloreto de etila: seu poder entorpecente, o excitante quando
cheirado borrifado num lenço.

O lança-perfume chegava até mesmo a ser ingerido, misturado a bebidas! Esse uso explica o aumento exponencial das vendas do produto. Naquele tempo, os consumidores não eram informa- dos sobre os perigos potenciais dos produtos, nem existia uma legislação nesse sentido. Por causa da toxicidade da fórmula
do lança-perfume, acidentes fatais ocorreram naquele período.

No começo dos anos 1930, denúncias na imprensa já po- diam ser lidas. “O éter fantasiado de lança-perfume é sorvido com escândalo pelo carnaval. No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas do terrível entorpecente”, dizia uma notícia da época.

Somente com Jânio Quadros, como presidente da República, o lança-perfume viria finalmente a ser proibido no território nacional por meio do Decreto no 51.211, de 18 de agosto de 1961. A proibição do uso de lança-perfume ocorreu por sugestão do popular apresentador de rádio e televisão Flavio Cavalcanti, que fez uma campanha contra o lança-perfume. Como se sabe, a proibição de uma droga não é eficaz em inibir na totalidade o seu uso. Por essa razão, o lança-perfume é utilizado até hoje, mas em menor quantidade.



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