Embale Certo

Faça você mesmo. E as embalagens?

Março/Abril 2022

Antonio Celso da Silva

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Antonio Celso da Silva

O tema desta edição é a fabricação de cosméticos de maneira artesanal, o chamado “faça você mesmo”.

Na verdade, esse é um tema que vai e vem e sempre encontrou resistência por parte da Anvisa. Aos olhos dessa entidade, que regula o setor, não existe cosmético artesanal, pois isso equivaleria a adotar dois pesos e duas medidas em relação às empresas que precisam regularizar seus produtos e, para isso, ter uma fábrica 100% regularizada.

Sempre é bom lembrar que “fazer você mesmo” é somente para quem realmente quer fazer quantidades muito pequenas.

Hoje, com o trabalho de prestação de serviço feito pelos terceiristas, torna-se muito mais interessante contratar um deles do que fazer por conta própria. A menos que a quantidade seja tão pequena, que nenhum pequeno terceirista consiga fazer em escala industrial.

Fabricar com um terceirista significa ter um produto legalizado sem riscos de problemas com os órgãos fiscalizadores, fazer com especialistas, usar o sistema full service, no qual o terceirista compra todos os insumos e a marca se preocupa apenas com o marketing e a venda do produto, seja qual for o canal de venda. Isso potencializa e dá foco para o negócio.

A Anvisa não permite a fabricação artesanal de cosméticos para comercialização, assim como não permite fazer qualquer complemento da produção como, por exemplo, o envase, o reescalonamento ou a adição de algum ativo na própria loja.

A gente sabe que há quem armazene o bulk de colônias dentro da loja e incentive o consumidor a comprar a quantidade que quiser, trazendo a sua embalagem ou mesmo usando a embalagem que a loja oferece.

Isso é completamente ilegal, pois não atende às exigências de órgãos como Anvisa, Inmetro e até mesmo Procon, explicitadas nas portarias existentes.

Acho que o grande exemplo de fazer um complemento da produção de um cosmético na própria loja aconteceu com a marca internacional Lush.

Essa marca mantinha barras de sabonete em prateleiras ou em bancadas e o consumidor comprava o tipo de sabonete e tamanho de sua preferência. A loja “embalava” na hora. Essa operação não levava em conta os riscos de contaminação cruzada em função do ambiente não ser adequado para a operação, além de desconsiderar também a preocupação com a compatibilidade do produto com o tipo de embalagem e seu material de composição, onde eram colocados os pedaços de sabonetes.

Depois de várias autuações por parte da Anvisa, a marca resolveu fechar uma grande loja que existia num shopping de luxo em São Paulo e se retirar do Brasil.

Vemos na TV o incentivo à produção artesanal para a geração de emprego e renda também para cosméticos, porém sem considerar a legalidade. Tramita no Senado o Projeto de Lei 7816/2017, que trata desse assunto, mas ainda sem aprovação.

A preocupação com o “faça você mesmo” nos cosméticos é grande se não houver legislação adequada, pois, além do aspecto embalagem, há o uso das matérias-primas que não passam por controles físico, químico e microbiológico, obrigatórios na indústria.

Com relação à embalagem, um dos testes que se faz durante o desenvolvimento da formulação é a compatibilidade tanto física quanto química do produto com sua embalagem primária, que é aquela que entra em contato direto com o produto.

Esse teste visa detectar previamente defeitos, tais como migração do produto através da embalagem, reação de matérias-primas do produto com o material de composição da embalagem, stress da embalagem etc.

Um bom exemplo é a incompatibilidade do palmitato de isopropila, comum nos batons, com o poliestireno, material de composição das embalagens de batom.

Citei esse exemplo, porém existem muitos outros, principalmente se considerarmos que, nesses produtos artesanais, a prioridade é o uso de matérias-primas de origem vegetal, nas quais o risco de contaminação microbiológica é grande.

Aliado a isso, temos as incompatibilidades físicas entre produto e embalagem, como, por exemplo, o tipo de material de composição de um frasco de shampoo, seu peso e sua espessura de parede para torná-lo com memória, no caso de um shampoo viscoso. Frasco “pesado” é inadequado para esse tipo de shampoo, pois dificulta o uso do produto se for usada uma tampa disc ou flip top. Por outro lado, o uso de válvula pump também não resolve o problema.

Coloquei aqui alguns exemplos apenas para ilustrar o “faça você mesmo” sem conhecimento, além da total falta de contro- le de qualidade nas diversas fases do processo e na embalagem.

Concluindo: faça você mesmo, mas tenha cuidado. Não se esqueça do risco a que será exposto quem usar esses produtos.



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