Gestão em P&D

Faça você mesmo! Será?

Março/Abril 2022

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Nos meados da década de 1980, eu estava começando a desenvolver uma linha para clínicas de estética quando fui ao dentista e percebi que ele preparava, na hora, o material que iria usar, misturando alguns produtos. Achei uma ótima ideia usar este processo na linha profissional. O produto poderia ser ajustado para atender especificamente as necessidades de cada pessoa. Assim, projetei uma linha que seria composta de produtos base aos quais poderiam ser adicionados concentrados de ativos, de acordo com cada caso. Apresentei a ideia e cheguei a desen- volver algumas formulações. O pessoal da empresa gostou, porém o projeto nunca foi colocado na pauta para realização. Talvez não desse certo naquela época por ser uma novidade que iria exigir um trabalho de divulgação e treinamento que iam além das possibilidades que tínhamos. Projeto arquivado. Nos meados da década de 1990, apresentei a ideia para outra empresa que tinha os recursos necessários para lançar a linha, mas também não se interessaram. Não chegaram nem a ver a apresentação toda.

Pela introdução, fica claro que sempre acreditei em produtos ajustados às necessidades de cada pessoa, porém, o movimento “Faça você mesmo” para cosméticos e higiene pessoal tem enormes equívocos e muitos riscos. Na internet, há pessoas leigas dando “receitas” para fabricar cosméticos caseiros. Vi um site que dizia que shampoos “são poluidores terríveis” e, para limpar os cabelos, sugeria usar limão, maionese ou bicarbonato de sódio. Só não disse se era maionese caseira e que bicarbonato de sódio é um composto químico que, mesmo tendo um perfil toxicológico de baixo risco, continua sendo um composto químico. Havia também uma “receita” de produto para clarear os cabelos composta por água, limão, canela, casca de cebola e óleo de rícino. A orientação era aplicar o produto nos cabelos e ir para o sol, com o cuidado de não deixar a mistura atingir a pele. Outro site, que trazia a citação “não passe na pele o que você não pode comer” - o que descarta todo e qualquer cosmético ou produto de higiene pessoal –, dava uma receita para fazer sabonete natural. Com hidróxido de sódio, é claro. Estranho, porque não se come sa- bonete. Tem pessoas de formação superior ensinando a fabricar cosméticos artesanais e incentivando as pessoas a terem uma renda extra com isso.

Estimular a fabricação caseira de cosméticos, além dos riscos toxicológicos e ambientais, é um incentivo a uma atividade ilegal, pelo menos por enquanto. E aqui vem o pior da história. Este texto está sendo escrito em fevereiro de 2022, período no qual tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 7816/17, que altera o artigo 27 da Lei 6360/76 e cria, em última instância, o “cosmético artesanal”. Ele já foi aprovado na Câmara de Deputados e agora foi enviado ao Senado para apreciação, com a seguinte redação: “Altera a Lei no 6.360, de 23 de setembro de 1976, para estabelecer isenção de registro e observância de regras simplificadas para cosméticos, produtos de higiene pessoal, perfumes e outros produtos de finalidade congênere, quando produzidos de maneira artesanal.” Se aprovado, ficam absolutamente desconsiderados todos os aspectos tecnológicos e toda legislação sanitária referente à atividade. Também per- dem o valor a responsabilidade técnica, as BPF, os procedimen- tos e metodologias usados no desenvolvimento, na produção, no controle de qualidade e, finalmente, a cosmetovigilância. Em outras palavras, um enorme e perigoso retrocesso. Haverá risco de acidentes na preparação artesanal, riscos para o meio ambiente e, principalmente, riscos para os consumidores que podem se enganar, acreditando se tratar de “produtos do bem”, que são naturais, que não fazem mal, que não agridem o meio ambiente e têm preço justo. Uma temeridade.

Qualquer pessoa tem o direito de passar o que quiser em sua pele, mas encorajar institucionalmente outras pessoas a fazerem isso extrapola esta prerrogativa. Incentivar e instruir a pro- dução caseira de cosméticos é uma irresponsabilidade. Inserir a legalização da fabricação e comercialização de “cosméticos artesanais” no ordenamento jurídico é uma insanidade que dá a impressão de que o congresso adotou a estratégia de “ir passando a boiada”. O “faça você mesmo” pode ser bom para comida, bolo, roupa, pintura da casa, móvel etc. Mas, em se tratando de cosméticos, é um descabimento que, até fevereiro de 2022, é ilegal. Se depois disso for permitido, será um enorme retrocesso para a saúde pública e para o meio ambiente.



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