Gestão em P&D

Quanto tempo a indústria sobrevive sem o P&D?

Julho/Agosto 2021

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Você já havia pensado nisso? Eu não sei exatamente quanto tempo e acho que ninguém sabe, mas uma coisa é certa: uma indústria ou uma marca de cosméticos não sobrevivem muito tempo sem um P&D ativo e competente. Vamos tentar entender a questão por um caminho alternativo fazendo uma comparação com outros setores. Quanto tempo uma indústria sobrevive sem a produção? Fácil. Sobrevive enquanto durar o estoque, algo que normalmente gira em torno de trinta a quarenta dias. E sem o departamento comercial? Sem vendas, a sobrevivência seria determinada pelo saldo de caixa, que, nas empresas de pequeno e médio porte, deve ser um tempo ainda mais curto que a autonomia do estoque. Já para a sobrevivência sem o P&D, não existe uma resposta clara. Nem para o seu próprio pessoal. Comparada com os setores de vendas e produção, a importância do P&D nos resultados e na continuidade da empresa não fica explícita porque não existem os vetores de urgência ou de curto prazo. E é exatamente aqui que se esconde um enorme risco de “insucesso”, jeito polido de falar “fracasso”.

Quando a importância de um setor não é devidamente percebida, a consequência é um natural desprestígio, o que normalmente acarreta em déficit de recursos, equipamentos inadequados e falta de pessoal, o que comprometeria, por exemplo, a possibilidade de ter tempo e estrutura necessários para desenvolver protocolos de avaliação, uma atividade essencial que deveria ser constante no P&D. Recursos e protocolos de avaliação bem desenvolvidos permitem medir e comparar o desempenho dos produtos que desenvolve com aqueles do mercado, o que é básico para gerar competitividade.

O mercado já conviveu com produtos de vida longa, mas há muito tempo esta não é mais a regra. A quantidade de pesquisas gera uma rápida evolução do conhecimento, que, aliada à farta comunicação social, afeta fortemente o comportamento dos consumidores e acaba por determinar a necessidade contínua de novos produtos. Isso sem considerar o suporte constante que o P&D deve dar à produção e à qualidade, já que os produtos atuais são mais tecnológicos. Grande parte da qualidade é gerada no P&D, quando este define a composição, o modo de preparação e as especificações de produtos e insumos. Se houver um comprometimento ou uma deficiência funcional, haverá repercussão em todas as áreas técnicas e, certamente, nos “resultados da empresa”, jeito polido de falar “prejuízo”.

Fazer um creme hidratante ou perfume não é tarefa difícil, mas existe uma enorme distância entre preparar e desenvolver um produto. No desenvolvimento, há primeiramente a necessidade de ajustar a composição a uma determinada necessidade do mercado consumidor, com o máximo de desempenho possível e ajustado a um custo adequado ao sistema de precificação. Em seguida, tem que estabelecer modo de produção e especificações que determinem níveis ótimos de eficácia, segurança e estabilidade, que, por sua vez, devem ser devida e formalmente avaliados. Existem, ainda, a observação formal de todas as normas regulatórias e o compromisso de entregar à produção uma tecnologia exequível na planta industrial, com risco mínimo de qualidade.

O funcionamento do P&D se apoia em três pilares: laboratório, pessoal e sistema de informação. Se este setor, que é quem gera a tecnologia, não estiver devidamente reconhecido e prestigiado, provavelmente o laboratório não vai estar devidamente equipado, o quadro de pessoal deve ser insuficiente e o sistema de informação será improvisado. Aí, dificilmente terá um bom desempenho. Definitivamente, não é possível fabricar produtos confiáveis e competitivos se estes tiverem sido desenvolvidos em um setor deficitário em recursos, equipamentos, protocolos, conhecimento, informação e pessoal. Pelo mesmo motivo, é praticamente impossível ter uma fabricação sem riscos de qualidade e prejuízos.

No âmbito da competitividade, o cenário não é melhor. Como entregar ao mercado um produto capaz de satisfazer o consumidor e criar fidelidade à marca sem um processo de desenvolvimento vigoroso? Até a regularização do produto vai ficar comprometida, na medida em que os dados serão naturalmente incompletos ou imprecisos. Portanto, não há como responder com precisão à questão título desta coluna, mas ignorar a essencialidade do P&D e sua contribuição para o resultado da empresa é um equívoco grosseiro que não combina com possibilidade de sucesso. O incrível é que isso ainda acontece, até no próprio P&D.



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