Gestão em P&D

Questões funcionais do P&D

Setembro/Outubro 2020

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Tenho abordado assuntos de interesse funcional para o P&D, que nem sempre são tratados com o destaque necessário porque há a natural predominância dos assuntos técnicos. O especialista em P&D precisa entender também o seu papel estratégico. Em uma atividade de base tecnológica, a área de desenvolvimento tem uma enorme parcela de responsabilidade no sucesso ou no insucesso da empresa. Por isso, o P&D precisa estar bem estabelecido. E isto independentemente do tamanho da empresa, porque é um requisito básico.

- Postura correta: a primeira providência do P&D é assumir a postura de pesquisa e desenvolvimento. Em muitas empresas, apesar da denominação ser P&D, o que se tem é simplesmente um laboratório de aplicação. O resultado será sempre “produtos sem assinatura” ou “o mesmo do mesmo”. Isto acontece pela falta de recursos e de uma estrutura de pesquisa que conduza objetivamente o processo. Em um mercado competitivo, que evolui em alta velocidade, “produtos sem assinatura” têm pouquíssimas chances de sucesso.

- Compreender a natureza da atividade: o objetivo essencial do P&D é criar a tecnologia para a fabricação de produtos, o que é finalizado com a geração de um pacote de informações. Ainda se vê uma enorme atenção à bancada e às amostras e pouca atenção aos princípios e recursos de gestão da informação - e até ao seu conteúdo. Essencialmente, o trabalho do P&D tem origem em informação, abrangendo conceitos, tecnologia e materiais, e finaliza em informação - no caso específico de cosméticos, obrigatoriamente na forma de dossiê de produtos, especifi cado por norma. É incrível que, mesmo depois de 15 anos da publicação desta norma, ainda existam empresas que não adotaram este procedimento, o que é uma falha tecnológica e uma irregularidade sanitária.

- Ter profissionais com perfil de pesquisador: talvez o maior erro estratégico seja ter no P&D pessoas sem o perfil de pesquisador. E isto é mais comum do que parece, principalmente em empresas de pequeno porte, onde é comum até ver pessoas acumulando produção com P&D, que são atividades que exigem posturas bem distintas. Se isto ocorrer, cabe ao profissional separar bem as atividades, de preferência definindo um horário específico para cada atividade. Não é uma tarefa simples e precisa contar com o apoio da direção da empresa.

- Alinhamento com o marketing: o desenvolvimento do conceito de um novo produto normalmente surge no marketing, mas pode surgir também no P&D. Assim, entender a lógica do marketing é essencial. Muitas vezes, ao criar um novo conceito, o marketing, no entusiasmo do novo projeto, pode exagerar nos “claims”. Cabe ao P&D o papel de avaliar a exequibilidade da nova proposta de produto, tendo o cuidado de não avalizar exageros incompatíveis com o conhecimento científico, como também não se deixar levar pela comodidade de reprovar ou desaconselhar sem estudar bem o caso. De qualquer forma, a melhor conduta é interagir com a intenção de criar um novo produto que seja sucesso de vendas e satisfaça os consumidores, logicamente obedecendo aos princípios científicos e às exigências sanitárias.

- Relacionamento com fornecedores: fornecedores podem ajudar muito, principalmente com informações técnicas. Mesmo que estejam empenhados, você não deve deixar o trabalho de desenvolvimento para o fornecedor. O produto precisa ter a “assinatura” da empresa. Antes de usar um ativo, solicite e estude composição, especifi cação, FISPQ e custo. E verifique a disponibilidade de estoque.

- Manter contato constante com as outras áreas técnicas: um produto é desenvolvido para ser fabricado em uma determinada planta, com determinados critérios de qualidade, e estes precisam ser conhecidos pelo P&D. Uma boa medida é implantar uma demonstração mensal de resultados das áreas técnicas, que, além de apresentadas, devem ser discutidas por todos os envolvidos, sempre na intenção da melhoria contínua.

- Acompanhar o desempenho de produtos no mercado: muitos especialistas em desenvolvimento acham que o seu trabalho acaba quando termina o trabalho no P&D. Conhecer os números de desempenho do produto no mercado e os possíveis relatos de cosmetovigilância vai ampliar a percepção de profundidade para novos projetos.

- Dar subsídios à direção da empresa: muitas vezes, o P&D aparece, aos olhos da direção, como um setor que só gera custo e necessidade de investimentos. Cabe ao especialista desfazer este despropósito, porque talvez este seja o mais pernicioso de todos os problemas.



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