Gestão em P&D

Desenvolvimento de formulação: ciência ou arte?

Novembro/Dezembro 2019

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Você já deve ter ouvido falar que desenvolver uma formulação é uma arte. A princípio, você pode até não entender por que abordar este tema em uma revista técnica, mas esta noção não é tão inócua como parece e pode representar um enorme risco de orientação - ou até comprometer a efi ciência do P&D.

Todo artista utiliza alguma técnica para realizar seu trabalho. Sob este aspecto, acontece um processo semelhante no P&D, mas o resultado é bem diferente. O trabalho do artista resulta em uma obra de arte, enquanto o resultado do P&D é ou será, em última análise, um produto - no caso de cosméticos, um produto de consumo.

E as diferenças entre este e a obra de arte são enormes - especialmente no caso de cosméticos, que têm que atender a parâmetros técnicos, além de cumprir normas regulatórias específicas e satisfazer as necessidades dos consumidores. Isso não acontece na criação de uma obra de arte, em que o compromisso é externar a emoção ou visão do artista diante de determinado tema ou acontecimento. Mesmo quando existiam regras para as criações artísticas, estas não eram sempre impositivas. Às vezes, o valor de uma obra de arte podia estar exatamente no fato de infringir regras vigentes, o que, definitivamente, não é o caso de um produto, principalmente para aqueles com regulamentação específica.

Por outro lado, temos que enxergar que o P&D existe principalmente para criar coisas novas e, por isso, a criatividade é - ou deveria ser - um elemento relevante. Junte-se a isto o cuidado, a atenção e o esmero que são exigidos para realizar bem o trabalho, a sensibilidade para escolher ingredientes e até o uso da intuição para interpretar dados técnicos ou resolver determinados problemas, quando somente a aplicação linear do conhecimento não for suficiente.

Todo este envolvimento e esta intensidade podem gerar uma espécie de vínculo autoral. E mais: quando o resultado é bom e reconhecido, é natural que seja motivo de orgulho e satisfação pessoal. Tudo isso é muito parecido com a relação de um artista com sua obra. Deve vir daí a noção de que desenvolver formulação é uma arte. O problema é que esta visão pode desviar a atenção do técnico a ponto de fazê-lo negligenciar alguns aspectos fundamentais do seu trabalho, que, por natureza, é tecnológico e científico.

Tenho visto acontecer em empresas de todos os portes. A atenção fica quase totalmente voltada para o material, causando falhas no processamento, no conteúdo e no formato das informações que devem ser colhidas, geradas e armazenadas durante o desenvolvimento. Isto reduz a eficiência do processo, porque pode ocorrer - e normalmente ocorre - formulação com custo inadequado, presença de ingredientes indesejados na composição, não consideração da quantidade de alergênicos e uso de concentração de materiais da lista restritiva acima do permitido.

E existem questões mais amplas ainda. A codifi cação e o compartilhamento do conhecimento podem ficar comprometidos pela falta de padrão na formação do cadastro técnico, o que certamente aumenta o custo e o tempo de realização de projetos futuros. Há ainda um efeito negativo sobre o setor de Assuntos Regulatórios, que, neste contexto, será uma área única e exclusivamente operacional, quase cartorial, o que não contribui nem um pouco para a evolução tecnológica das empresas. Tudo isto repercute em uma considerável perda de tempo dos profissionais destas duas áreas, além de gerar erros na formulação consolidada - que compõe o processo de regularização do produto - ou erro na composição qualitativa que aparece nos rótulos.

Repercute, ainda, na necessidade de remediar estas situações, gastar recursos e mobilizar pessoal, fatos que seriam evitados com a integração funcional de P&D e Assuntos Regulatórios. Esta configuração pode ser estabelecida a partir da adoção de alguns procedimentos e da implantação de recursos adequados para armazenamento, geração e proteção de informações, mas exige proatividade.

Assim, uma noção aparentemente inócua pode ser um dos fatores determinantes de baixa eficiência, alongamento de prazo e elevação de custo no processo de desenvolvimento e regularização de produtos nas indústrias no Brasil.

Esmero, atenção, cuidado, intuição, criatividade e sensibilidade não devem ser exclusividade dos artistas. Têm enorme importância também nos trabalhos de base científica e tecnológica, desde que não gerem a falsa impressão de que estes são uma obra de arte.



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