Tricologia

Tricologia pediátrica

Setembro/Outubro 2019

Valcinir Bedin

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Valcinir Bedin

Apesar de ser um órgão com funcionalidade semelhante, a pele das crianças difere da pele dos adultos em suas características morfológicas e fisiológicas. Sob o aspecto morfológico, os bebês apresentam na hipoderme e na epiderme camadas mais finas e circulação periférica menos acentuada. A derme é menos corneifi cada, com poucos pelos e alto teor de água, sendo, dessa forma, mais hidratada. Tal grau de hidratação torna a pele da criança mais permeável e propensa à absorção de substâncias, oferecendo, por outro lado, menor resistência aos agentes agressores.

A imaturidade das estruturas que constituem o tecido cutâneo e subcutâneo é outro fator que torna a pele das crianças menos apta a manter o equilíbrio homeostático e mais suscetível à penetração de materiais externos, potencialmente prejudiciais.

O pH ácido da pele é um fator de proteção a bactérias patogênicas e auxilia na manutenção da integridade e coesão do estrato córneo. No recém-nascido, o pH é próximo do neutro e só se estabiliza no primeiro mês de vida, quando atinge valores próximos ao do adulto, em torno de 5,7.

Somente a partir dos 2 ou 3 anos de idade que a pele de uma criança passa a ter as mesmas características da pele adulta, exercendo completamente a função de barreira entre o meio externo e o meio interno.

O mercado de cosméticos infantis vem apresentando um crescimento importante nas últimas décadas, sinalizando que crianças e adolescentes são um novo grupo de consumidores. Esse fato vem chamando a atenção da indústria farmacêutica, de pais, médicos e autoridades sanitárias para o perfil e a segurança de tais cosméticos.

Alguns acometimentos são mais comuns em crianças e outros são raros. Existem genodermatoses, que são alterações genéticas que felizmente ocorrem em pequenas quantidades, e existem situações bem mais frequentes, que ocorrem com muita intensidade.

A título de amostragem, escolhemos duas dessas ocorrências:

• A primeira é a síndrome dos cabelos anágenos frouxos (SCAF), descrita inicialmente por Nödl, e caracteriza-se pela presença de fios de cabelo esparsos no couro cabeludo, com crescimento anormal e sem necessidade de cortes frequentes. Os fios de cabelo são facilmente retirados do couro cabeludo, de forma indolor e sem quebra.

As alterações geralmente aparecem na infância (entre 2 e 5 anos), sendo ambos os sexos afetados. A maioria das crianças tem cabelos loiros, embora possam ser observadas algumas com cabelos castanhos. Ocorre comumente na população branca, mas não é raro em indivíduos de pele escura.

A herança, na maior parte dos relatos, é autossômica dominante, e o achado essencial é a retirada fácil de cabelos, em fase anágena, do couro cabeludo.

A clínica da SCAF caracteriza-se por rarefação e reduzido comprimento dos cabelos, os quais se desprendem facilmente do couro cabeludo, podendo ser extraí dos de forma indolor mediante leve tração.

Os cabelos são mais finos que o normal e não necessitam ser cortados com frequência, pois crescem lentamente. Esse fato é mais frequentemente notado em meninas, que em geral usam os cabelos mais compridos.

• No outro extremo das alterações capilares e do couro cabeludo em crianças, vamos encontrar a dermatite seborreica.

A dermatite seborreica é uma doença muito comum e recorrente, caracterizada por cronicidade, inflamação e descamação epidérmica e distribuída em ampla faixa etária. A abordagem terapêutica deve seguir três vias de ação: controle da inflamação, controle da proliferação fúngica e controle da oleosidade epidérmica.

É válido ressaltar a extrema importância do acompanhamento por utilização de métodos de atenção médica do paciente com medidas não farmacológicas, como indicação de rotinas de higiene adequadas e mudanças em hábitos de vida não condizentes com sua condição clínica.

Cuidados especiais de higiene, com uso de shampoo adequado ao tipo de pele, tornam o tratamento mais fácil e de resolução mais rápida. A palavra de ordem, neste caso, é equilíbrio, que deve vir com o tratamento medicamentoso correto, o qual irá depender da localização das lesões e da intensidade dos sintomas, a alteração de hábitos nocivos e a eliminação dos fatores reguladores.

Normalmente os recém-nascidos não têm cabelos visíveis e não precisam fazer uso de shampoo. Em lactentes e crianças, o uso é mais comum. Não existe uma fórmula pediátrica padronizada. Eles se baseiam, normalmente, em agentes anfotéricos, não iônicos. Enquanto o cabelo é curto, fino e frágil, não é necessário usar shampoos, e o mesmo produto utilizado para o corpo pode ser usado para o cabelo.

Produtos de estilo e modifi cadores da estrutura da haste, como alisantes, devem ser evitados por motivos orgânicos e culturais.

É sempre bom ter em mente que a principal matéria-prima de qualquer formulador é sempre o bom senso!



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