Gestão em P&D

Conflitos do P&D

Julho/Agosto 2019

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Já vai longe o tempo em que o pessoal de P&D devia saber só preparar formulações, que seu habitat natural era a bancada do laboratório e suas ferramentas eram os ingredientes e as formulações que conhecia. Mais que nunca, o P&D é hoje uma atividade múltipla e de vários e novos desafios. Dentre eles, está a identificação e a solução de conflitos. Todas as mudanças que aconteceram recentemente, as que estão acontecendo agora e as que ainda vão acontecer exigem e vão continuar exigindo que o especialista de P&D, como qualquer outro profissional, saiba compreender e se adaptar a novas realidades. Encontrar conflitos pela frente é uma certeza. Parece que a evolução das normas, da tecnologia e dos mercados está forçando a empresa a funcionar com mais interação. Neste ambiente de proximidade, com interfaces cada vez mais numerosas e profundas -
inclusive envolvendo pessoal de áreas diferentes - o surgimento de conflitos é um fato natural e esperado. O conflito é um estado gerado por divergência de ideias, percepção, compreensão, interesses ou objetivos. Não é de se estranhar, porque é um fato comum da convivência humana, dizem os estudiosos do assunto. E, atualmente, os conflitos estão parecendo mesmo inevitáveis. Está acontecendo muita coisa ao mesmo tempo. A saída é identificar e resolver os conflitos que surgirem. Isto vale para empresas de todos os portes, porque todas estão no mesmo barco chamado mercado.

E quais seriam os conflitos do P&D? Um dos mais impactantes é o conflito de mentalidade. Muitas fábricas de cosméticos no Brasil nasceram de uma mentalidade comercial, e isto pode ser um problema na medida em que o reconhecimento da base tecnológica e da regulação sanitária específica, que caracterizam e regem a atividade, fica em segundo plano em relação aos objetivos puramente comerciais. E não é uma questão filosófica. A ideia de que o cosmético existe só para gerar faturamento para a empresa não está em sintonia com a expectativa atual dos consumidores. Para que os cosméticos possam cumprir a sua finalidade mais elementar, que é promover saúde e bem-estar, será necessário respeitar sua base tecnológica. Por outro lado, as questões regulatórias devem ser bem conduzidas para evitar que conflitos se alastrem. Na interface regulatória, as dificuldades, os entraves e até uma aparente falta de bom senso em algumas exigências da legislação ou de seus agentes devem ser tratados com sobriedade e profissionalismo. O desmerecimento de sua relevância e até o alardeamento das difi culdades geradas - que muitas vezes partem das áreas técnicas - só fazem estimular na empresa a lógica do desrespeito a estas obrigações, o que pode trazer a reboque o enfraquecimento da importância de sua base tecnológica, o que é muito ruim.

Outro conflito importante resulta do descuido com a noção da atualidade, que, por definição, é a essência do P&D. Se não for atual, não é P&D. Processos e protocolos não podem estar em discordância com as obrigações regulatórias vigentes nem com o patamar tecnológico atual - e muito menos com as expectativas do consumidor, porque configura um conflito de competência entre a empresa e seu próprio mercado. Será necessário automatizar processos para ter tempo para realizar estudos mais profundos e manter conhecimento, metodologias e recursos devidamente atualizados. Isto deve estar inclusive nas previsões orçamentárias. Caso contrário, certamente haverá perda de competitividade. Consumidores insatisfeitos podem ser até mais rigorosos que os órgãos reguladores.

Ainda existem os pequenos conflitos do dia a dia. Os manuais que tratam do assunto sugerem usar empatia e diálogo, ouvir todos os lados e ter postura racional, não se esquecendo de que a coisa mais importante é reconhecer um conflito e estar preparado para resolvê-lo. Especificamente para o P&D, o conhecimento técnico é o recurso mais importante para solucionar a maioria dos conflitos, principalmente quando envolve outras áreas. Conhecimento de causa e clareza na exposição de argumentos são decisivos.

Especialistas defendem que confl itos podem ser saudáveis e até necessários porque eles podem impulsionar mudanças positivas, o que é até razoável. No entanto, existem muitos conflitos que são altamente danosos. Eles podem destruir valores e eliminar possibilidades, gerando insatisfação, frustração e prejuízos. E parece certo imaginar que a maioria seja ruim, mas pior mesmo é ignorá-los ou não estar disposto a resolvê-los.



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