Tricologia

Cosméticos fitoterápicos brasileiros – o capim barbatimão

Janeiro/Fevereiro 2015

Valcinir Bedin

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Valcinir Bedin

O Brasil, como país continental que é, tem uma flora muito extensa, com múltiplas variedades de plantas que se adaptam aos diversos microclimas que temos de norte a sul, de leste a oeste. Não apenas a região Amazônica, com a sua já reconhecida internacionalmente “farmácia natural”, mas outras partes do nosso território fornecem matérias-primas fitoterápicas de uso medicinal e cosmético de ótima qualidade. Pela limitação do espaço da nossa coluna escolhemos falar sobre uma espécie vegetal considerada menos nobre na escala de importância neste universo, que é o capim barbatimão.

O barbatimão (Stryphnodendron adstringens) é uma árvore originária do cerrado brasileiro. Seu nome é derivado de um termo indígena que significa “a árvore que aperta”. Nativo do cerrado brasileiro, ele é encontrado em maior quantidade em Minas Gerais, Goiás, Bahia, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

A casca do barbatimão produz matéria tintorial vermelha, e, no passado, era amplamente utilizada no curtimento de couro. Os taninos, cuja concentração chega a 30% em suas cascas, podem transformar a proteína animal em couro. Durante secas e falta de capim, o gado se alimenta de suas vagens e folhas, porém estas são tóxicas, podendo causar grandes irritações nas mucosas do aparelho digestivo ou abortos. Em contrapartida, o gado também ajuda na dispersão da espécie, pois dissemina suas sementes, que, por sua vez, podem germinar no pasto.

O barbatimão é uma planta medicinal também conhecida como alaramotemo, barba-detimam, barbatimão-verdadeiro, charãozinho-roxo, ibatimô, ilatimó, ulatimó, casca-do-Brasil, casca-da-virgindade e casca-da-mocidade, entre outros nomes populares. Possui os sinônimos botânicos Stryphnodendron adstringens (Mart.) Coville, Mimosa barbadetimam Vell., Mimosa virginalis Arruda e Acacia adstringens Mart. Pertence à família das leguminosas. Entre suas substâncias químicas, encontramos taninos, flavonoides e alcaloides. Além disso, faz parte da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse do SUS (RENISUS), constituída de espécies vegetais com potencial de avançar nas etapas da cadeia produtiva e de gerar produtos de interesse do Ministério da Saúde do Brasil.

As propriedades terapêuticas do barbatimão devem-se, em sua maioria, aos taninos, principal constituinte ativo da planta, localizados majoritariamente em suas cascas. O poder de cicatrização e diminuição de hemorragias do barbatimão deve-se à eliminação de água de dentro das células, que provoca a contração das fibras. Os taninos também formam uma camada protetora sobre a mucosa ou tecido lesado, por meio de complexação dos taninos com íons metálicos, proteínas ou polissacarídeos.

Os taninos da casca do barbatimão possuem atividade adstringente e, por isso, a planta é conhecida como bá-timó na língua indígena, que significa “planta que aperta”. Por conta desta atividade, é cicatrizante, bactericida e fungicida. Em estudos da Universidade do Estado de São Paulo, os taninos provenientes de extratos das cascas de barbatimão apresentaram comprovada atividade antioxidante e sequestradora de radicais livres, evitando danos oxidativos às células e retardando o envelhecimento.

Além dos taninos, a planta possui como constituintes químicos, terpenos, estilbenos, esteroides e inibidores de proteases (como a tripsina). Os efeitos antimicrobianos da planta previnem infecções na pele, e estudos recentes apontam até seu uso como adjuvante no tratamento da cárie dental.

O chá da casca e das folhas em forma de lavagem é abortivo. As vagens e folhas do barbatimão são tóxicas, podendo causar grandes irritações nas mucosas do aparelho digestivo. O pólen da planta também é tóxico para as abelhas. Assim, a apicultura não deve ser realizada nas áreas onde ela é cultivada.

No Brasil, a novidade é o extrato de capim barbatimão, que, quando aplicado em forma de creme, tem conseguido reverter a situação de mulheres com quadro de hipertricose idiopática ou de hirsutismo sem correlação laboratorial. Esta é uma condição não muito rara, na qual as mulheres apresentam um excesso de pelos nas áreas onde não deveriam tê-los, sem nenhum aparente problema endocrinológico de base.

Este trabalho foi desenvolvido no ambulatório de cabelos da Sociedade Brasileira para Estudos do Cabelo (SBEC), em associação com a SBME-SP (Sociedade Brasileira de Medicina Estética), e apresentado no último Congresso Mundial de Medicina Estética, na cidade de Buenos Aires.

O que precisamos é não descuidar do nosso vasto arsenal terapêutico disponível na natureza e aproveitar ao máximo esta dádiva que muitos gostariam de ter.



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