Mercado

7 bilhões de pessoas!

Janeiro/Fevereiro 2012

Carlos Alberto Pacheco

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Carlos Alberto Pacheco

Gerir um mundo com 7 bilhes de habitantes sedentos de consumo no algo fcil, e os sistemas moda antiga, nos quais se plantava no quintal para colocar na mesa uma alface fresca, ou se passava um par de sapatos do irmo mais velho para o mais novo, no funcionam mais.

Apenas para refletirmos sobre como as mudanas so profundas, vejam os dados a seguir. Em 2000, a classe mdia mundial representava 22,5% da populao. Em 2010, j eram 28,0% e respondiam por 45% do consumo. Esmiuando um pouco mais os nmeros, o que se observa que os pases emergentes que compem o BRICs (Brasil, Rssia, ndia e China) so os principais fornecedores desses novos consumidores e estes atualmente no s vivem mais do que antes, como tm poder aquisitivo maior. Eles so consumidores que no querem mais o aparelho de celular que tinham no ano anterior, mas o novo que acabou de sair. Consumidores inexperientes se lambuzam nesse doce mundo do crdito, do desejo de consumir e do prazer de possuir, sem a dor do impacto que isso possa ter agora e no futuro, aqui ou no mundo. Esse um grupo que traz no inconsciente a ideia de que agora a minha vez. Junte a esse fato o desejo inato do ser humano de ignorar os efeitos de suas aes ou, se preferir, o desejo de no querer saber os efeitos de suas aes, o que nos leva a uma misria pessoal e social.

O Brasil vem atravessando um perodo de sucessivos progressos em vrios indicadores, como o aumento do ndice de Desenvolvimento Humano (IDH), a expanso da expectativa de vida, uma vigilncia maior nos assuntos que dizem respeito ao sistema de educao etc. A situao econmica do Pas, apesar das crises norte-americana e europeia, vem se sustentando com as polticas do Banco Central para conter a inflao, que, em 2011, encerrou no topo da meta oficial estipulada, ou seja, de 6,5% (a meta era de 4,5% pelo ndice de Preos ao Consumidor Amplo, IPCA). O ndice foi o maior desde 2004 (que foi de 7,6%) e vem crescendo consecutivamente nos ltimos dois anos (4,3% e 5,9%, respectivamente). Vale lembrar que foi necessrio que o governo abrisse mo do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos eletrodomsticos, no ltimo trimestre, para trazer a inflao para o nvel de 6,5%. Dessa forma, com os preos desses produtos mais baratos, foi possvel manter o ndice no topo da meta.

Preos mais baixos e menor taxa de juros que remunera os investimentos de renda fixa (os investimentos preferidos dos consumidores de classe mdia), cuja consequncia imediata o aumento do consumo interno, acabam implicando no consumo de mais recursos naturais. Junte-se a isso uma reduo da taxa de desemprego, puxada principalmente pela absoro da mo de obra na construo civil, e teremos um caldo perfeito para o aumento da inflao em 2012. Os especialistas dizem que no, veremos.

Como consequncia de vivermos num mundo aquecido em termos de crescimento populacional e economicamente mais favorvel, novos assuntos comeam a demandar decises cada vez mais difceis. So decises que envolvem (e envolvero) toda a sociedade, atual e futura. Eu gostaria de destacar o tema dos transgnicos, entre os milhares de assuntos que nos demandam tomar decises urgentes. Com uma populao cada vez maior, a necessidade de mais alimentos inevitvel. A agricultura convencional corre cada vez mais acelerada no sentido de suprir essas fortes demandas. E, entre as vrias tcnicas que podem contribuir para dar flego ao setor agrcola, o uso de sementes transgnicas a que vem se mostrando mais promissora, pois requer menor uso de defensivos agrcolas e maior resistncia s pragas naturais.

Desde que se iniciou o plantio de variedades transgnicas no Pas, os Ministrios da Sade e do Meio Ambiente reivindicaram, na CTNBio, entidade que autoriza ou no o uso de processos biotecnolgicos, que as autorizaes fossem precedidas de estudos de impacto ambiental o que inclui no s o estudo sobre a biodiversidade, como tambm o impacto desses processos na sade humana. Porm, os ministrios foram invariavelmente vencidos, com o argumento de que essa se trata de uma postura ideolgica, em oposio a uma viso cientfica.

A CTNBio, por meio de uma resoluo normativa, autoriza as empresas (a maioria estrangeiras) produtoras de sementes transgnicas a pedir iseno de monitoramento no plantio, depois de este ser liberado comercialmente, o que far que os resultados de estudos sobre os impactos no longo prazo sejam apenas de domnio das empresas e no mais da Unio. Na opinio de muitos, o fato demonstra um desmanche das regras de biossegurana do Pas, pois esta ao desrespeita a conveno internacional, de que o Brasil signatrio, que consagra a necessidade de se ater ao princpio de precauo com a biodiversidade. No se trata de ser contra ou a favor, mas sim de chamar a ateno para o fato de que no podemos assumir riscos excessivos apenas porque estamos sendo premidos por um aumento populacional e, consequentemente, por um aumento de consumo de alimentos ou de qualquer outro bem.

Apesar do problema que o crescimento populacional nos traz com o aumento do consumo, parece que o fantasma de Thomas Malthus volta a cada ano com intensidade menor, pois, para muitos, o problema no mais o quanto seremos em termos de populao, mas como faremos uso dos recursos disponveis de forma racional e eficiente. Separar a gesto de recursos naturais de uma poltica de crescimento demogrfico me parece utpica.

Sim, inevitvel reconhecermos que estamos diante de uma transformao que tende a mudar radicalmente a face do planeta. S nos resta saber se para melhor ou pior.



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