Tricologia

Ação da radiação ultravioleta no cabelo

Maio/Junho 2016

Valcinir Bedin

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Valcinir Bedin

O cabelo humano constitudo de uma haste queratinizada e sem alteraes metablicas. Dessa forma, a exposio solar no gera alteraes morfofuncionais, como ocorre em neoplasias na pele humana. Entretanto, podem ocorrer modificaes fsicas na fibra capilar. A radiao solar afeta a aparncia do cabelo, tornando-o mais fraco, frgil e menos manejvel. Ao contrrio da pele, o cabelo no emite mensagem de dor para sinalizar as mudanas geradas pela intensa exposio solar, que aparecem aps o acmulo da radiao solar por muitas semanas.

O cabelo humano contm dois pigmentos orgnicos principais: a eumelanina, de cor marrom e negra, e a feomelanina, responsvel pela cor vermelha dos cabelos. Nos cabelos expostos luz solar, encontra-se um outro tipo de pigmento, a oximelanina - produto gerado pela fotodegradao da melanina, cuja presena afeta quimicamente a colorao dos cabelos e est diretamente relacionada com o fotoenvelhecimento da fibra capilar.

A radiao ultravioleta danifica a fibra capilar e acaba com seu aspecto saudvel. Reduo da fora e do brilho, ressecamento, textura spera, perda da cor e fragilidade so alguns exemplos de danos provocados pela exposio solar. As protenas e as melaninas da fibra capilar so os alvos prioritrios da fotodegradao. Entretanto, os mecanismos bioqumicos e fotoqumicos envolvidos na gerao dos danos provocados pela radiao solar ainda no esto totalmente elucidados. De acordo com a literatura cientfica, existe muita dificuldade no estudo da melanina da fibra capilar, o que torna o estabelecimento de um completo mecanismo de fotodegradao um desafio aos pesquisadores.

A luz solar altera os aminocidos da cutcula mais intensamente que os do crtex, j que as camadas mais externas da fibra capilar recebem maior intensidade de radiao. Essa alterao causa a ruptura e a separao das camadas externas.

Hoting e colaboradores, em 1995, estudaram os efeitos da radiao UVA e UVB e da luz visvel sobre a fibra capilar e verificaram que, aps irradiao por seis semanas, ocorreram alteraes na cor e perda proteica da fibra capilar. Eles observaram que estes parmetros variaram de acordo com o comprimento de onda e o tipo de cabelo analisado. A colorao do cabelo escuro foi alterada exclusivamente pela luz visvel, e o nico tipo de cabelo que apresentou modificao de cor na presena de radiao UVA foi o loiro. Assim, os autores atriburam luz visvel a principal responsabilidade pelas alteraes de colorao na fibra capilar. Os danos aos aminocidos da cutcula foram semelhantes nos diferentes tipos de cabelo devido ausncia de pigmentos nesta regio. Nogueira e Joekes, em 2004, avaliaram o efeito da radiao ultravioleta e da luz visvel em diferentes tipos de cabelo (castanho, loiro e ruivo). Os autores verificaram que as radiaes UVB e UVA so as principais responsveis pela perda de protenas capilares e pelas mudanas de colorao.

Os lipdios que constituem a fibra capilar so responsveis pelo brilho e pela reduo do atrito no ato de pentear. A radiao ultravioleta danifica estes lipdios, promovendo sua lipoperoxidao, e provoca o ressecamento do fio e um menor condicionamento, pois o torna suscetvel eletricidade esttica e, assim, ele embaraa com mais facilidade e ocorrem quebras com maior frequncia.

Diante do exposto, o desenvolvimento e o uso de produtos capilares com substncias que promovam a proteo radiao ultravioleta representam uma importante ferramenta na diminuio dos efeitos danosos desta radiao na fibra capilar.

A fotoproteo um mtodo preventivo usado no combate aos efeitos danosos da radiao UV. No mbito capilar, ela pode ser realizada por meio do uso de indumentria especfica (chapu, bon e guarda-chuva), restringindo a exposio luz solar; e pela utilizao de produtos capilares contendo filtros solares e tinturas capilares e formulaes contendo antioxidantes.

A pigmentao natural das fibras capilares, gerada pelos pigmentos eumelanina e feomelanina presentes no crtex da fibra, exerce proteo contra os danos da radiao UV. Alguns estudos revelaram que cabelos coloridos so menos susceptveis aos danos gerados pela radiao UV que cabelos sem colorao. As tinturas capilares utilizadas para modificao da cor natural do cabelo apresentam papel semelhante ao exercido pela pigmentao natural.

Estas formulaes contm agentes redutores e oxidantes que podem danificar a fibra capilar por meio de reaes de oxidao. No entanto, so capazes de proteg-la dos danos provocados pela radiao UV, como descritos anteriormente. Verificou-se que as fibras sem pigmentao apresentam uma reduo da resistncia mecnica mais rpida do que aquelas com pigmentos, e foi observado o mesmo comportamento em relao taxa de quebra das ligaes de dissulfeto na cistina.

Pande e colaboradores, em 2001, estudaram o potencial fotoprotetor de tinturas capilares permanentes e semipermanentes e verificaram que elas protegem a fibra capilar dos danos solares. O nvel de proteo variou de acordo com o padro de deposio dentro da fibra, o valor de pH das formulaes e o tipo de tintura utilizada (permanente ou semipermanente). Os autores concluram que as tinturas haviam funcionado no cabelo tingido como filtros solares, atenuando a luz solar incidente e, assim, diminuindo os danos provocados por ela. As molculas da tintura realizam absoro, elevao de estado energtico e retorno ao estado fundamental da radiao solar, reduzindo seus efeitos na fibra capilar.

Alm das tinturas, diversos produtos destinados ao cuidado dos cabelos exercem fotoproteo, e as formulaes geralmente contm filtros solares. Existem registros na literatura de que os filtros solares so capazes de proteger a fibra capilar da degradao fsica e da modificao de colorao, mas h fatores que limitam a fotoproteo exercida por eles. Diversos produtos de uso capilar com ao fotoprotetora utilizam filtros solares UVA e UVB - normalmente empregados para a proteo da pele - adicionados s formulaes, como gis modeladores, sprays, shampoos e condicionadores, que tm o intuito de reduzir a quantidade de raios UV que atingem a superfcie da fibra capilar, prolongando o efeito de cor da tintura capilar e melhorando as caractersticas da fibra. No entanto, no existem mtodos de avaliao da eficcia capilar como no caso da fotoproteo da pele. So analisados atributos de condicionamento e manuteno da cor. Devemos considerar sua atuao na formulao, protegendo seus componentes da fotodegradao.

Visando a diminuio dos fatores limitantes da fotoproteo capilar, foi desenvolvida uma classe de filtros solares especfica para fotoprotetores capilares -substncias catinicas que apresentam afinidade intrnseca com a fibra, provavelmente por interao inica, e tm efeito formador de filme. Os filtros solares DimetilPabamidopropil Laurdimonio Tosilato (Dimethylpabamidopropyl Laurdimonium Tosylate) e cloreto de cinamidopropil trimnio (Cinnamidopropyltrimonium chloride) so exemplos destas substncias catinicas. Condicionadores com filtros solares apresentam maior eficcia fotoprotetora que os shampoos, uma vez que colaboram com a formao de um fino filme sobre a fibra capilar. Apesar de no cobrirem toda a superfcie de cada fibra, os filtros solares contidos na formulao conseguem exercer sua funo. Os condicionadores de tratamento intenso, que permanecem em contato com a fibra capilar por mais de 15 minutos, so os que apresentam os melhores resultados, j que, alm de formarem um filme na superfcie da fibra, ajudam na adeso dos filtros solares na superfcie da cutcula.

Existem diversas dificuldades relacionadas com o desenvolvimento de formulaes capilares fotoprotetoras. Primeiramente, deve-se atentar para sua aceitabilidade cosmtica. Outro ponto importante a distribuio uniforme dos filtros solares sobre a fibra capilar e a sua deposio e permanncia sobre ela. A permanncia e distribuio uniforme por um perodo prolongado caracterizaria o comportamento ideal de fotoproteo capilar, como no caso de condicionadores sem enxgue. Neste contexto, torna-se importante o estudo das caractersticas qumicas dos filtros solares utilizados. No caso de serem lipossolveis, apresentariam dificuldades de distribuio uniforme sobre a fibra capilar, e os filtros solares hidrossolveis podem ser facilmente eliminados na lavagem dos cabelos aps a aplicao do produto.

Outro fator limitante da fotoproteo exercida por produtos de uso capilar a fotoinstabilidade dos filtros solares. Bernhard e colaboradores, em 1993, estudaram diferentes filtros solares e verificaram que, aps dez dias de irradiao, a benzofenona-3 apresentou 90% de estabilidade, a benzofenona-4 foi um pouco menos estvel, com 60% de estabilidade, e o octil-dimetil PABA apresentou estabilidade menor que os demais filtros. Aps a aplicao de fotoprotetores que apresentavam 5% de cada filtro citado, seguindo o protocolo de dez ciclos de lavagem, secagem e irradiao, os autores verificaram que a benzofenona-3 e a benzofenona-4 proveram maior proteo em relao perda da cor e reteno das propriedades elsticas do que os demais filtros estudados. Alm disso, os autores concluram que a eficcia fotoprotetora de produtos capilares no dependeu apenas do tipo de filtro solar empregado e de sua concentrao, mas tambm da complexa interao entre o princpio ativo, o veculo escolhido e o substrato.

Muitas pesquisas so necessrias para o aprimoramento de formulaes fotoprotetoras destinadas ao uso capilar, e as existentes ainda apresentam fotoproteo limitada. No desenvolvimento cosmtico, deve-se procurar adeso adequada do produto cutcula, assim como, busca-se a formao de um filme uniforme em toda fibra capilar em espessura adequada, sem proporcionar ao cabelo aspecto untuoso, pegajoso e sujo.

Atualmente, existem pesquisas investigando outros mecanismos de fotoproteo para os cabelos. Sabe-se que reaes de espcies reativas de oxignio, induzidas pela luz visvel, podem danificar a fibra capilar. As pesquisas verificaram que a maioria dos antioxidantes aumentou a capacidade de proteo estrutural de produtos fotoprotetores capilares e que alguns antioxidantes apresentaram tendncia a reduzir os danos em cabelos naturalmente coloridos.

Concluindo: a exposio solar, mais precisamente a radiao ultravioleta (UV), representa fonte potente de dano fibra capilar, gerando modificaes por meio da fotodegradao e do fotoenvelhecimento.

Entre os recursos para promover a fotoproteo capilar, esto: o uso de produtos capilares contendo filtros solares especficos para a fibra capilar e antioxidantes, veiculados em formulaes cosmticas como condicionadores (creme rinse, creme para pentear e reparador de pontas, dentre outros) com e sem enxgue e tinturas; a restrio da exposio ao sol; e o uso de chapu, bon, viseira etc.

Estudos cientficos referentes a este tema devero ser conduzidos a fim de promover a sade capilar, representada por seu condicionamento, e elevar a eficcia dos tratamentos qumicos de modificao da forma e da cor e de melhora na aparncia da fibra capilar - to comumente e indiscriminadamente empregados na atualidade, por homens e mulheres, independentemente da faixa etria, da raa e do nvel social.



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