Parcerias com Startups

Erica Franquilino

Iniciativas no setor cosmético

 

artigo publicado na versão impressa da edição janeiro/fevereiro 2017 da revista Cosmetics & Toiletries Brasil
  A agilidade, a flexibilidade e o poder de inovação de pequenos empreendedores vêm chamando a atenção de grandes empresas, que apostam na parceria com startups para criar novas soluções, reinventar processos e aprimorar serviços.
    Dentre outras possibilidades, essa interação pode abrir caminho para novas oportunidades a serem exploradas pelas corporações e novos nichos de mercado, bem como para o aperfeiçoamento de aspectos relacionados à gestão, às vendas e ao relacionamento com o consumidor.
 
     Na outra ponta, as startups têm seus negócios impactados em razão da busca pela melhoria contínua de processos e do acesso a mercados e ao capital necessário para alavancar suas inovações em produtos e serviços.
    O que define uma startup? O termo começou a ganhar popularidade no Brasil no início dos anos 2000, período em que asempresas também começaram a investir em inovação aberta, buscando o conhecimento que estava além de suas áreas de pesquisa e desenvolvimento.
 
    Uma definição bastante difundida para startup é a de que ela é composta por um grupo de pessoas com perfil empreendedor, à procura de um novo modelo de negócio, que seja escalável (possa crescer aceleradamente em receita, mas mantendo custos baixos) e repetível. São características das startups a eficiência e o alto grau de inovação. São negócios que começam com poucos fundadores e a formatação de um projeto ou produto-teste.
 
    A aproximação entre corporações e startups pode acontecer por meio de programas e maratonas de criação desenvolvidos pelas empresas, de incubadoras e parques tecnológicos e do trabalho realizado por entidades que dispõem de mecanismos de apoio ao empreendedorismo e à inovação.
 
   Em 2006, em uma iniciativa bem-sucedida, a NetFlix promoveu um concurso para premiar com US$ 1 milhão quem conseguisse desenvolver um algoritmo capaz de melhorar o sistema de recomendação do site em 10%. No Brasil, o Buscapé foi uma das primeiras empresas a criar desafios para startups. Em 2011, a companhia lançou o programa “Sua ideia vale um milhão”, por meio do qual selecionava empresas para fazer um investimento de R$ 300 mil em troca de uma fatia de 30% do negócio.
   
Em 2014, o Bradesco criou o programa InovaBra, que convida as startups que tenham soluções para produtos financeirosa serem parceiras do banco. O objetivo do programa é viabilizar os produtos inovadores sugeridos e, em alguns casos, investir nas companhias.
 
    Os modelos para esse tipo de parceria são bem diversificados. Algumas empresas montam sua própria incubadora ou aceleradora, outras fornecem o capital inicial para financiar ideias inovadoras de empreendedores – podendo ou não exigir participação societária como contrapartida. Corporações também investem na criação de hackathons, eventos que reunem programadores, designers e outros profissionais ligados ao desenvolvimento de softwares para uma maratona de programação. O objetivo é desenvolver um software que atenda a uma finalidade específica ou projetos livres e inovadores.
 
 

 

Iniciativas no setor cosmético

     A Natura, que atua no modelo de inovação aberta e colaborativa há mais de uma década, começou a prospectar startups pelo país há cerca de três anos. “Desde 2014, acompanhando os avanços do ecossistema empreendedor no Brasil e no mundo, nos inserimos em novas redes relacionadas a esse movimento e ampliamos nosso modelo de inovação aberta, para abranger uma perspectiva mais empreendedora, dedicando recursos para conectar as startups com desafios internos e nos preparar para esta interação. Temos práticas estabelecidas para captura de oportunidades e acompanhamento das parcerias com foco em inovação de produtos e serviços. Acreditamos que esta interação vai elevar significativamente nosso grau de inovação”, diz Alessandro Mendes, diretor de Inovação da Natura.
   
A interação com esse ambiente empreendedor foi estruturada com a criação do programa e do portal Natura Startups, em 2016. O objetivo da empresa é se aproximar de empreendedores inovadores, para a criação de novos projetos, soluções, processos e produtos. “A companhia busca parcerias com empresas que contribuam com sua proposta de valor, que é a de aumentar o bem-estar do cliente no uso de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos”, ressalta Mendes.

 
   Entre as informações disponíveis no portal Natura Startups, estão os temas de interesse da empresa, detalhes sobre cases anteriores e o passo a passo de como enviar uma proposta. “Nosso objetivo é viabilizar, colaborar e acelerar oportunidades por meio
de parcerias e geração de negócios, com foco em crescimento, diferenciação e desenvolvimento sustentável”, afirma.     Atualmente, 136 startups interagem com diferentes áreas da Natura. Destas, 22 já participam de projetos ou pilotos em parceria com a empresa. A Natura já desenvolveu mais de dez projetos em parceria com a startup curitibana Já Entendi, especializada em inteligência educacional. O primeiro projeto foi concretizado no final de 2014, com a criação de uma plataforma voltada ao treinamento técnico, a respeito dos produtos, para as consultoras. “Outro case envolve as startups Allevo e Goga, de Porto Alegre, que somaram competências e inteligência em rede para trazer novas tecnologias para a transmissão de conteúdos sobre produtos, que foram traduzidas para uma linguagem mais amigável às consultoras pela Já Entendi”, explica o diretor.
  Criada em maio de 2012, a Já Entendi é uma startup de inteligência educacional que tem “a missão de fomentar o desenvolvimento profissionalda base da pirâmide por meio de videoaulas, apps e games”, diz a fundadora Gladys Mariotto. 
 
   Os cursos têm uma metodologia inovadora, que faz uso da andragogia (conceito de educação voltada ao adulto), heutagogia (método educacional no qual o estudante é o gestor de seu processo de aprendizagem), storytelling, neurolinguística, design instrucional (conjunto de técnicas, métodos e recursos utilizados em processos de aprendizagem a distância) e mapas mentais. A proposta é oferecer como resultado um aprendizado 200% mais eficiente que os métodos tradicionais.
 
   Ao todo, já foram treinados mais de um milhão de trabalhadores,em áreas como segurança do alimento, hospitalidade, limpeza, segurança e saúde do trabalho, vendas, comunicação e comportamento. Com sede em Curitiba PR, a Já Entendi conta com 17 funcionários. A aproximação com a Natura se deu por meio do núcleo de relacionamento com startups, que pertence à área de inovação da empresa. “Foi realizada uma busca por diversas startups, em diferentes áreas de atuação. O que despertou o interesse da Natura foi a experiência da Já Entendi em treinamentos e o conhecimento para desenvolver um material que traduzisse a linguagem da empresa para suas consultoras”, ressalta Gladys.
 
   Depois dessa primeira experiência, vieram outros projetos de parceria com a fabricante de cosméticos. “A Natura abriu uma concorrência para um treinamento presencial de maquiagem para as consultoras, da qual participaram grandes empresas de educação de São Paulo e de outros estados. A Já Entendi surpreendeu positivamente pela qualidade da proposta e pelo entendimento da necessidade da consultora”, afirma. Ela destaca que a Já Entendi entregou um pacote completo, contemplando educação, design e vídeo. “O fato de ser uma startup contribuiu para um formato ágil de trabalho”, aponta.
 
  Após o treinamento de maquiagem, a Já Entendi venceu outra concorrência, desta vez para estruturar o plano de treinamento da linha de tratamento antissinais Chronos, que foi relançada em 2016. “O treinamento tem ajudado a Natura a alcançar um grande número de consultoras Natura treinadas, com qualidade e alto índice de satisfação. Em cerca de três meses, 100 mil consultoras foram treinadas no Brasil, com ganhos de produtividade”, diz Gladys.
 
  “Para as grandes empresas, as startups são um meio facilitador, uma vez que estão relacionadas às inovações e novas leituras do que já vem sendo praticado no mercado. A Já Entendi procura ter a mesma linguagem da empresa e oferece soluções de acordo com a necessidade da equipe. Nesse processo, existe a flexibilidade dos materiais, conforme o conteúdo que precisa
ser transmitido”, finaliza.
 
   Em maio de 2016, a L’Oréal anunciou um investimento estratégico na Founders Factory, aceleradora e incubadora digital com sede em Londres. O acordo estabeleceu que as parceiras apoiarão, a cada ano, o crescimento de cinco startups em estágio inicial e com alto potencial de desenvolvimento e cocriarão duas novas empresas. 
  
Os primeiros dados referentes à parceria foram divulgados em janeiro deste ano. L’Oréal e Founders Factory receberam 180 inscrições de empreendedores na área de beleza de várias partes do mundo, como Alemanha, Lituânia, Eslovênia, Reino Unido e Estados Unidos. Cinco startups foram selecionadas para um programa de aceleração de seis meses. Dentre elas, estão as startups InsitU, Preemadonna e Tailify.
 
   A InsitU desenvolve produtos personalizados e naturais para o cuidado da pele, disponíveis apenas on-line. A empresa foi criada por Maria Salichou, cientista de origem grega com PhD em medicina nuclear pela Universidade de Oxford e com mais de 10 anos de experiência em biotecnologia e cuidados com a saúde. O dispositivo e aplicativo Nailbot, da Preemadonna, permite ao usuário escolher ou criar desenhos e depois imprimi-los diretamente sobre as unhas. A Tailify conecta grandes marcas a inflenciadores de mídias sociais para criar campanhas, ao mesmo tempo em que permite que os influenciadores rastreiem, distribuam e monetizem o seu conteúdo.
 
  A L’Oréal realizou sua primeira hackaton no Brasil, a Beautyhack, em março de 2016, em São Paulo. Foram 24 horas de trabalho ininterrupto. Durante o desafio, 15 startups pré-selecionadas, das 108 inscritas, desenvolveram aplicativos móveis para quatro projetos estratégicos da empresa. A solução apresentada pela startup vencedora, a Neostore, foi o app Maybeonlline, que tinha como desafio integrar todos os pontos de venda da marca Maybelline – on-line e off-line. A startup curitibana Neostore (à época da maratona, o nome da empresa era Neomode) foi premiada com R$ 100 mil, valor destinado ao desenvolvimento do projeto. 
 
As startups que participaram da hackathon puderam se inscrever para quatro desafios: um para cada área de negócios da empresa. Além do prêmio para a grande vencedora, quatro empresas (entre elas a Neostore), também foram reconhecidas por terem apresentado os melhores projetos em cada área. A Neostore venceu o Desafio PGP/Maybelline (Divisão Produtos Grande Público). A Rag Softwares, de Minas Gerais, foi a vencedora no Desafio DCA (Divisão Cosmética Ativa). Nesse caso, o objetivo proposto pela L’Oréal Brasil era o de potencializar o uso do programa de fidelidade Dermaclub no cotidiano do consumidor de produtos de dermocosmética.
 
A Inovalab, do Rio de Janeiro, foi a melhor no Desafio DL (Divisão Luxo). A ideia era incentivar o uso dos produtos de luxo do Grupo L’Oréal, explorando ocasiões específicas e especiais. A Points Rocket, com sede no Rio Grande do Norte, venceu o Desafio DPP (Divisão Produtos Profissionais). A proposta era difundir informações sobre as marcas L’Oréal Professionnel entre profissionais de salão de beleza, de forma acessível, engajadora, simples e completa. 
 
A Neostore, destaque da Beautyhack, é uma startup de tecnologia direcionada a soluções e inovações para o varejo.
Criada para participar do hackathon da L’Oréal, a startup é fruto da união de Fabíola Paes (especialista em varejo e estratégias de omnichannel), Daniel Koleski (designer), Carlos Balsalobre (desenvolvedor Web) e Luis de Souza (desenvolvedor mobile). Depois da maratona, o time passou a contar com Rafaele Medeiros, que assumiu o posto de diretora de marketing.
“O objetivo proposto pela L’Oréal era desenvolver uma experiência de compra assistida de produtos Maybelline em mobile, que aumentasse o uso e o conhecimento de toda a linha. A ideia é que o aplicativo possa ser usado de forma associada à orientação de especialistas da empresa, espalhados em quiosques e pontos de venda em todo o país”, explica Fabíola.O app para a Maybelline será lançado no primeiro semestre deste ano.
 
A Neostore também está dando suporte aos projetos do Boti Lab, área de inovação recentemente criada pelo Grupo Boticário. “O objetivo é fornecer uma plataforma mobile que integre experiência de compra on-line e off-line, aumente a conversão de vendas e promova o engajamento do público, por meio de uma moderna experiência de compra”, comenta Rafaele.
 
“A ferramenta trabalha em conjunto com plataformas de e-commerce e sistemas ERP [Enterprise Resource Planning ou Sistema de Gestão Empresarial, um software corporativo que tem como principal função apoiar empresas no controle total de suas informações], permitindo que as marcas varejistas ofereçam aos clientes a conveniência de comprar em qualquer lugar, a qualquer hora, de forma prática e fácil”, acrescenta.
 

 

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