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Erica Franquilino

Em ritmo de expansão

Formulação

Fisiologia da pele e dos pelos

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Segurança e eficácia

Mercado

Legislação

 

Edição Temática Digital - Julho de 2024 - Nº 85 - Ano 19

 

 

Em Ritmo de Expansão

 

Desde 2009, um dos maiores hospitais do país, localizado em São Paulo, libera visitas de animais de estimação a pacientes internados, inclusive em unidades semi-intensivas. Segundo a instituição, a iniciativa humaniza o tratamento e interfere positivamente no processo de cura. Ainda que não saibam de todos os benefícios dessa relação, tutores (ou “pais”) de pets retribuem com amor e uma série de cuidados, que movimentam um dos setores mais dinâmicos e resilientes da economia.

 

 

“Esse megamercado cresceu 5,4% de 2021 para 2022, teve um faturamento global de US$ 145,2 bilhões em 2021 e de US$ 149,8 bilhões em 2022, com os Estados Unidos responsável por uma participação de 43,78%, a China com 8,7% e o Brasil com 4,95%”, destaca Edison Nakayama, consultor em projetos cosméticos e novos negócios pela NK4 Consultoria e CEO da Pet Passion, marca de cosméticos pet para uso profissional.

 

 

O Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo em faturamento, atrás de Estados Unidos e China. Em 2023, o país teve um faturamento de R$ 68,7 bilhões, somando indústria, varejo, serviços e a criação de animais, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). A cifra representa um crescimento de 14% ante 2022.

 

O avanço de dois dígitos no ano passado “bem além de muitos mercados de produtos para uso humano”, como aponta Nakayama, sinaliza que as oportunidades em pet care “são enormes, com novos entrantes, novos produtos e serviços e população animal crescente, muito acima da população infantil”.

 

Temos a terceira maior população total de animais de estimação do mundo, atrás de Estados Unidos e China. De acordo com dados da Abinpet referentes a 2022, há cerca de 160 milhões de animais de estimação no país. Os cães lideram o ranking, com 60 milhões de indivíduos.

 

Na sequência estão as aves (40 milhões) e os gatos (30 milhões). Completam essa população os peixes ornamentais (cerca de 20 milhões) e os pequenos répteis e pequenos mamíferos (2,5 milhões).

 

 

“Mais de 30% dessa população foi adotada no período da pandemia e mais de 80% dos brasileiros consideram o pet como um membro da família”, diz Nakayama. “Com todos esses números e resultados, o mercado de pet care é a bola da vez no Brasil. Grandes indústrias e marcas, como a Granado, que já tinha sua linha pet, a Unilever, com a marca pet Cafuné e, por último, o Grupo Boticário, com a linha Au.Migos, já abriram os olhos para o segmento e seu crescimento. A previsão é de que esse mercado cresça 140% até 2026”, afirma.

 

A expansão traz novos players e novos canais de vendas, como farmácias, lojas de conveniência e marketplaces. “Há ainda os novos negócios, como creches, buffets para pets, escolas profissionalizantes para a formação de profissionais de banho e tosa, convênios médicos, vestuário e até joias e semijoias para pets”, completa. Segundo o consultor, a cada dez produtos vendidos para pet care no país, seis são shampoos e condicionadores.

 

“As tendências, tecnologias e inovações geralmente vêm do mercado de cosméticos de uso humano, uma vez que as matérias-primas são as mesmas. Antigamente, só se falava em lançar produtos para banho. Hoje, temos produtos como máscaras para hidratação profunda dos pelos, finalizadores, dermocosméticos para tratamento da região dos olhos, para orelhas, patas, região íntima e pele sensível, além de toda a linha de perfumaria fina”, comenta.

 

No que diz respeito aos desafios e carências desse mercado, ele menciona a escassez de produtos para tratamentos específicos, como os relacionados às peculiaridades de determinadas raças.

 

“A falta de conhecimento sobre saúde animal em nossos P&Ds ainda é grande. A ausência de uma legislação mais clara e que proteja nosso mercado e nossos animais também é um grande problema. Hoje, uma indústria de cosméticos de uso humano não pode produzir um cosmético de uso veterinário. E estamos falando apenas de cosméticos para embelezamento e estética animal, que é como classifica o Mapa – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento”, afirma. (veja mais sobre legislação no final)

 

Segundo Nakayama, outra questão delicada diz respeito aos testes clínicos de segurança e eficácia, uma vez que não existe uma legislação específica acerca dos ensaios que devem ser realizados em cosméticos para animais.

 

“Que segurança as indústrias dão para os nossos pets ao lançarem um dermocosmético para tratamento de ele sensível ou com FPS? Há também a guerra entre ativistas, ONGs e o mercado. Não se pode mais fazer testes de segurança em animais, mas qual segurança daremos para os nossos animais?”, questiona.

 

 

Formulação

 

“Humanos não se lambem”, diz Veronika Soban Rezzani, consultora de market assessment e abertura de negócios internacionais, para destacar que, em formulações de pet care, menos é mais. “É recomendável optar por composições simples, objetivas e suaves, com ingredientes de baixa toxicidade. Entender as diferenças entre as peles é essencial para garantir que nossos amigos peludos fiquem bonitos e seguros”, afirma.

 

Ela explica que a barreira epidérmica de cães e gatos difere da barreira epidérmica humana principalmente pela espessura da epiderme e do estrato córneo. (saiba mais sobre fisiologia)

 

“Raças com pelo mais fino tendem a ter um estrato córneo mais espesso para compensar a menor proteção oriunda dos pelos. Essa relação é especialmente evidente em raças de cães e gatos sem pelo, nas quais essa camada assume um papel fundamental na proteção da pele. O Xoloitzcuintli, uma raça de cão sem pelo, tem estrato córneo significativamente mais espesso do que a de um Labrador Retriever, que tem pelo abundante”, explica.

 

Seguindo a premissa de que menos é mais, é preciso dar atenção especial ao tensoativo escolhido em formulações para limpeza e manutenção. “A falta de padronização na escrita dos ingredientes, não exigida na lei, torna complicado entender quais surfactantes estão presentes na formulação. No entanto, ao analisar os tensoativos e considerando a anatomia da pele dos animais, é evidente que, quanto mais suave for o tensoativo, melhor”, afirma.

 

“Dessa forma, a escolha do Lauril Éter Sulfato de Sódio com 3 moles de óxido de etileno, por exemplo, é menos agressiva do que com 2 moles. Além disso, a adição de Polysorbate - 20 na formulação pode ajudar a torná-la ainda mais suave”, aponta.

 

“Outro produto que merece atenção especial é aquele que destaca na rotulagem frontal a presença de neutralizador de odor. Aqui, não há um ingrediente específico, mas sim uma promessa. Neutralizar odores geralmente atende mais a demanda do proprietário do animal do que a uma necessidade fisiológica do bichinho”, acrescenta.

 

Veronika ressalta que, em oposição a cremes e loções complexos, formulados com ingredientes que podem irritar a pele sensível dos animais, as formulações para cães e gatos podem adotar uma abordagem minimalista, utilizando apenas os componentes essenciais para a saúde da pele e dos pelos.

 

As formulações para cães e gatos se caracterizam pelo uso de extratos rigorosamente selecionados, com benefícios comprovados por pesquisas científicas, como Aloe vera, camomila e algas marinhas. Além dos extratos naturais, as composições de shampoos para pets têm ingredientes essenciais que complementam e potencializam seus benefícios. Veronika menciona alguns exemplos:

 

Para hidratação e emoliência – sorbitol e glicerina formam uma dupla que previne o ressecamento, mantendo a pele macia e flexível.

 

Ação calmante e regeneradora – alantoína e pantenol acalmam peles irritadas, promovem a cicatrização e auxiliam na regeneração celular.

 

 

Proteção antioxidante – a vitamina E protege a pele contra os danos causados pelos radicais livres, prevenindo o envelhecimento precoce e mantendo a saúde geral da pele e dos pelos.

 

A fragrância é um dos aspectos mais relevantes na formulação. Cheiros agradáveis para humanos podem ser irritantes ou desagradáveis para animais de estimação, que têm olfato mais sensível. O nariz de um cão tem 200 milhões de receptores olfativos – cerca de 25 vezes mais do que o de um humano.

 

Em produtos para banho, é preciso considerar as diferentes pelagens, no que diz respeito a cor, comprimento, oleosidade e secura. As formulações precisam ser suaves, com matérias-primas selecionadas e pH compatível. Algumas raças de cães (como Bulldog Francês, Shar Pei, Labrador Retriever, Golden Retriever e West Highland White Terrier) têm predisposição genética à dermatite atópica, uma condição inflamatória crônica da pele, causada por alergias ambientais.

 

“Os gatos também podem sofrer de diversas alergias, muitas delas desencadeadas por produtos perfumados ou com ingredientes irritantes. Muitos produtos cosméticos para gatos contêm fragrâncias que podem causar reações alérgicas, resultando em coceira, vermelhidão e, em casos mais graves, infecções secundárias. Para prevenir essas alergias, é crucial optar por produtos especificamente formulados para gatos, livres de fragrâncias e químicos agressivos e com ingredientes suaves”, ressalta.

 

Veronika também destaca a escolha dos preservantes em formulações para pets. “A busca por produtos ‘livres de’ se estende a esses ingredientes essenciais, mas que podem levantar preocupações sobre segurança. É fundamental considerar a toxicologia e a eficácia. Os parabenos (Methylparaben e Propylparaben), quando usados em concentrações adequadas e com grau farmacêutico, são considerados seguros. A escolha deve levar em conta o tipo de produto, o pH da formulação e o espectro de microrganismos que se deseja inibir”, diz.

 

Os ácidos orgânicos, frequentemente utilizados como preservantes devido à baixa toxicidade, exigem atenção especial em composições para pets. “A atividade dos ácidos orgânicos como preservantes pode ser comprometida em pHs acima de 5,5-5,8. Estudos demonstram que o pH dos shampoos veterinários pode variar significativamente, de 5 a 8,73, dependendo da raça”, menciona.

 

Ela cita como exemplos os pHs de cosméticos para as raças Springer Spaniel (entre 5,6 e 6,8), Husky Siberiano e Manchester Terrier (entre 8,0 e 8,4 para ambos). “Seguindo como referência o equilíbrio da pele de cães e gatos, normalmente o pH dos produtos varia de 6,5 a 7,4, o que inviabiliza o uso de ácidos orgânicos”, completa.

 

“Para uma formulação segura, recomenda-se a escolha consciente de preservantes, e testes de desafio devem ser considerados para analisar sua eficácia. Pensando na segurança dos animais, quanto mais próximos de ‘food grade’ ou para produtos infantis, mais seguros serão”, diz.

 

“São exemplos o Caprylyl Glycol, o Phenylpropanol, o Propylene Glycol, o Ethylhexylglycerin ou mesmo o Phenoxyethanol. Não há uma lista restritiva de conservantes na legislação relacionada à fabricação de cosméticos para pet care. Portanto, o bom senso é essencial. Preservantes como o Methylcloroisothiazolinone e o Methylisothiazolinone são altamente alergênicos e não recomendados, assim como o DMDM Hydantoin, que, apesar de ser seguro para humanos, pode ser sensibilizante para os pets”, conclui.

 

 

Fisiologia da pele e dos pelos

 

A pele com pelos tem espessura variável (de 0,5 mm a 5 mm nos cães e de 0,4 mm a 2 mm nos gatos). Em linhas gerais, a espessura cutânea do dorso, do pescoço e da cabeça de cães e gatos é maior do que a do abdômen. A pele também é mais espessa na fronte, na região glútea e na base da cauda. Além das diferenças de espessura entre as regiões do corpo, existem variações relacionadas à raça e à idade desses animais. Em relação aos humanos, a pele de cães e gatos é mais espessa e não apresenta hipoderme.

 

“A superfície da pele de cães e gatos é coberta por uma camada hidrolipídica composta por ácidos graxos, ceras e esteróis, provenientes das glândulas sebáceas. As glândulas apócrinas (ou epitríquias) também secretam proteínas, sendo mais ativas em raças grandes e gigantes. Diferentemente da pele humana, a pele canina não tem secreção significativa das glândulas écrinas (ou atríquias), presentes principalmente nas patas. Isso resulta em um pH mais alto na superfície da pele (cerca de 7,0) em comparação à pele humana”, explica Veronika.

 

A pele dos cães tem pH entre 6,2 e 7,4, enquanto a dos gatos é mais próxima de 7,0. Formulações com pH inadequado podem causar irritações e ressecamento.

 

Os pelos são anexos cutâneos, com função de proteção térmica e solar, além de serem importantes instrumentos sensoriais. A etapa de troca de pelos é sazonal, com tempo de duração que varia conforme a raça, a espécie, a região do corpo, a idade, o estágio de desenvolvimento do animal, o sexo e outros fatores patológicos e/ou fisiológicos.

 

As vibrissas (os bigodes) são pelos sensoriais mais longos e grossos, que detectam as vibrações do ambiente e ajudam o animal a se localizar melhor. Elas são essenciais para que cães e gatos possam “medir” o tamanho e a altura de objetos e decidir se cabem ou não em determinados espaços.

 

Gatos e cães são considerados animais endotérmicos, pois têm mecanismos para a regulação térmica. Os principais são:

 

Termogênese: ativação do metabolismo por meio da contração muscular ou da proteção pelo tecido adiposo;

 

Sistema circulatório: alteração do padrão do fluxo sanguíneo;

 

Isolamento térmico: realizado pela presença dos pelos e camadas de gordura subcutânea;

 

Resfriamento evaporativo: por meio do ofegar dos cães;

 

Vasoconstrição: redução do fluxo sanguíneo para retenção de calor;

 

Vasodilatação: aumento do fluxo sanguíneo para a pele, com o objetivo de auxiliar na perda do calor excedente para o meio externo;

 

Coxins das patas: zonas bastante vascularizadas que promovem a troca de calor.

 

Matérias-primas

 

 

“Nos últimos anos, a presença de pets nos lares brasileiros aumentou consideravelmente. Eles deixaram de ser apenas animais de estimação e se tornaram membros da família. Nós, do grupo Solabia, temos diversas opções de ativos para esse mercado, para auxiliar desde o equilíbrio da microbiota até o aumento do brilho dos pelos”, diz Allessandra Silva, coordenadora de MKT Técnico & Inovação.

 

Ela destaca dois ativos: Fucogel e Prelliance. O primeiro, com características multifuncionais, é conhecido mundialmente por sua atuação em diversas frentes que proporcionam um bem-estar geral. “A primeira delas é a ação neurocalmante, que acontece por meio da inibição da inflamação neurogênica pela via de sinalização ASIC [do inglês acid-sensing ion channel], o que traz benefícios para animais que tenham a pele sensível, seca ou irritada”, cita.

 

 

 

 

 

O Fucogel também tem ação hidratante, pela estimulação do ácido hialurônico e inibição da hialuronidase-2, além de atuar na reestruturação, reforçando a barreira imunológica, e conferir um sensorial agradável. Outro benefício importante é a suavização dos danos às fibras ou pelos (como mostra o teste abaixo), diminuição das irregularidades da superfície e suavização da fibra, em condições com e sem enxágue.

 

 

 

 

 

O Prelliance é um ativo multifuncional que atua no equilíbrio do microbioma e no controle da caspa úmida, com efeito prebiótico, bem como no tratamento dos pelos danificados. Ele tem ação antipoluição e melhora a radiância dos pelos e a penteabilidade, com efeito imediato em formulações com enxágue.

 

“Temos outras ótimas opções, como o Sublim’Hair, um complexo de aminoácidos obtidos a partir da semente de quinoa e que promove a hidratação e o reparo dos pelos”, cita. O ativo repara danos profundos, repondo os aminoácidos e restaurando o córtex. “Ele melhora a superfície das cutículas e o assentamento dos pelos, fazendo com que fiquem mais macios e suaves”, acrescenta.

 

Para o aumento do brilho, ela indica como opção o Nutrimel, um ativo obtido a partir da batata yacon, rico em frutooligossacarídeos e que pode ser utilizado com o apelo de “mel vegetal”. Além do efeito de brilho mediato com enxágue, ele tem ação suavizante, “promovendo o aumento da adesão das cutículas aos pelos, o que, consequentemente, leva à diminuição das irregularidades na superfície”.

 

 

Para Vanessa Arruda, gerente técnica e de marketing Beauty & Personal Care da IMCD Brasil, a busca dos consumidores por cosméticos formulados com ingredientes naturais e sustentáveis se estende ao cuidado com os animais de estimação. “O momento do banho requer especial atenção, pois tensoativos podem ser irritantes para peles sensíveis, ainda mais para a pele dos pets. A Innospec (representada em todo o Brasil pela IMCD) é uma empresa que desde 2007, acredita na tendência sulfate free e vem investindo em novas tecnologias para o mercado de cosméticos”, pontua.

 

O Luxuriact (INCI: Sodium Methyl Cocoyl Taurate) é um tensoativo taurato pronto para uso. “Esse ingrediente tem 28% de ativos, 80% de naturalidade e foi desenvolvido para atender a demanda por ingredientes suaves, eficazes e fáceis de usar. Sendo processável a frio, líquido límpido e fluido à temperatura ambiente, ele permite a redução do tempo de processamento durante a fabricação. Esses aspectos técnicos são únicos do Luxuriact, tornando esse ingrediente uma revolução entre os tensoativos tauratos”, afirma.

 

Apresentado como uma nova geração de Isetionatos, o Iselux (INCI: Sodium Lauroyl Methyl Isethionate) é um produto sólido (em escamas) com 80% de ativos, sem conservantes e com quatro anos de prazo de validade. É um tensoativo aniônico suave, sulfate free, utilizado em formulações como surfactante primário ou secundário.

Iselux forma espuma densa, cremosa, luxuosa e duradoura, levando a uma explosão de espuma comparada ao LESS (lauril éter sulfato de sódio). Esse tensoativo é fácil de usar, podendo ser processo a frio, e oferece benefícios de condicionamento devido à formação de coacervado. Além dos benefícios para a formulação, ele ainda segue as tendências de sustentabilidade, tendo alto grau de vegetalização e origem de fontes renováveis”, descreve.

 

Vanessa ressalta que os tensoativos podem remover fatores hidratantes naturais da pele e afetar a integridade da barreira lipídica no estrato córneo, aumentando a permeabilidade da pele, o que pode causar irritação. “Suavidade para a pele e os olhos é uma característica fundamental. Dentre os vários estudos mostrando a suavidade dos tensoativos sem sulfato, destacamos o gráfico (abaixo) no qual os resultados da irritação cutânea cumulativa (14 dias) demonstram que os tensoativos 'sem sulfato' levam a menos irritação e, portanto, podem ser considerados mais suaves do que o LSS e o LESS. Outros estudos da literatura também relatam e fundamentam alegações de relativa suavidade em combinações de tensoativos”, afirma.

 

 

 

Segurança e eficácia

 

 

Samara Eberlin, gerente técnica internacional do Grupo Kosmoscience, aponta que, por serem todos mamíferos, seres humanos, cães e gatos compartilham características fisiológicas comuns. “Mesmo com diferenças sutis observadas no tecido cutâneo, os ensaios para avaliar a segurança e a eficácia de produtos de higiene e embelezamento animal podem ser realizados nos mesmos sistemas utilizados para cosméticos humanos”, diz.

 

“A proibição do uso de animais em pesquisas para produtos cosméticos é um processo irreversível no Brasil e no mundo, restando como opção a extrapolação dos resultados para a pele do pet e a incorporação de um diferencial ao produto”, acrescenta.

 

São muitos os ensaios disponíveis para avaliação da segurança e eficácia de produtos cosméticos, abrangendo ensaios pré-clínicos, estudos clínicos e estudos não biológicos in vitro, “que constituem uma ferramenta muito interessante para avaliar as propriedades mecânicas de fibras capilares, unhas, neutralização de odores e efeito hidrofóbico, entre outros aspectos”.

 

Ela elenca, na tabela abaixo, alguns exemplos de ensaios pré-clínicos, clínicos e in vitro não biológicos que podem ser aplicados para a avaliação de segurança e eficácia de produtos de higiene e embelezamento animal.

 

 

 

Com base na sensibilidade olfativa dos cães, a empresa adaptou uma metodologia de avaliação de toxicidade inalatória, para mensurar a sensibilização promovida por fragrâncias. Nesse ensaio, uma cultura de células pulmonares é colocada em contato com as fragrâncias para avaliar a resposta biológica relacionada a citotoxicidade, apoptose, resposta imunológica e resposta inflamatória. “Com esse ensaio, é possível fazer um screening de fragrâncias ou misturas de fragrâncias mais suaves ao olfato canino”, explica.

 

Outra possibilidade de ensaio é avaliar as características sensoriais dos pelos, utilizando como sistema-teste mechas de pelos caninos, obtidas após um processo de tosa eletivo. Nesse modelo, é possível avaliar atributos como penteabilidade (a seco ou a úmido), facilidade de desembaraçar, suavidade ao toque, maciez, frizz, facilidade de secagem, brilho e tempo de secagem (a frio ou a quente).

 

“Uma característica peculiar de cães e gatos é que a espessura na epiderme é mais fina, e isso contribui para as manifestações atópicas, comuns em algumas raças. Nesse sentido, aplicamos um modelo experimental que mimetiza a pele sensibilizada, no qual é possível avaliar a ação de produtos na mitigação da resposta inflamatória exacerbada e na proteção de barreira cutânea”, completa.

 

 

Mercado

 

 

 

 

 

 

De janeiro a dezembro de 2023, o faturamento do segmento de Alimentos para Animais de Estimação chegou a R$ 38,1 bilhões (55,5% do total do setor), segundo a Abinpet. A categoria pet food é a maior do setor pet. No entanto, entre 2022 e 2023, o percentual de crescimento dessa categoria (13,1%) foi menor do que as de pet vet e pet care, ambas com 18%.

 

De acordo com uma estimativa da Euromonitor International, o mercado de pet care deverá crescer 56% no Brasil até 2028, saltando de R$ 4,49 bilhões para R$ 7 bilhões. Ainda segundo a Euromonitor, o gasto médio com pets na América Latina é 22% superior à média mundial e 74% dos donos na região veem seus animais como membros efetivos da família.

 

Em outubro de 2023, o Grupo Boticário estreou no segmento de produtos para animais de estimação com a marca Au.Migos Pets, desenvolvida para cães e gatos e composta pelos itens: shampoo 5 em 1, shampoo pelos claros, shampoo filhotes, condicionador, banho a seco, limpa e hidrata patinhas e colônias para pets adultos e filhotes. Os produtos foram inicialmente disponibilizados em 122 lojas e em 17 Espaços do Revendedor.

 

 

 

 

 

Em maio deste ano, o grupo anunciou a ampliação dos pontos de venda da Au.Migos Pets. O portfólio da marca agora pode ser encontrado em lojas e megalojas voltadas para animais e pets, assim como em pet shops, em todo o território nacional. A Au.Migos Pets já está presente nas mais de quatro mil lojas O Boticário no país, incluindo o e-commerce e o marketplace Beleza na Web. A meta é que a marca feche seu primeiro ano com mais de 600 pontos de venda B2B.

 

A presença no mercado pet é um movimento estratégico para o grupo, que busca oferecer soluções completas de beleza e bem-estar, permitindo uma proximidade maior com os consumidores, além da abertura de espaço para alcançar novos públicos.

 

“Acreditamos na importância dos laços entre as pessoas e os animais de estimação delas. Nosso compromisso é proporcionar produtos que não apenas atendam às necessidades de cuidados dos pets, mas também criem memórias, especialmente por meio do olfato, além de fortalecer os vínculos emocionais e de cuidado nas famílias, contribuindo com nosso grande objetivo de fazer parte da rotina de todos os brasileiros", afirmou Marcela De Masi, diretora-executiva de Branding e Comunicação do Grupo Boticário.

 

O Grupo Orba é detentor das marcas Pet Clean e Pet Look e atua como terceirista para mais de 65 marcas no Brasil. “Somos conhecidos pelos lançamentos inovadores no mercado pet. Fomos a primeira empresa a desenvolver o hidratante de patinhas para cães, assim como o hidratante de focinhos, deixando o pet mais seguro e higienizado. Em 2024, lançamos a linha Dedal Care. São dois produtos inovadores que permitem ao tutor higienizar a boca e a orelha de seu pet”, diz o CEO Bruno Martins.

 

 

Ele aponta um aumento expressivo e contínuo na demanda por itens para a higienização do animal em casa. “O tutor do pet percebeu a importância e os benefícios de realizar a higiene com frequência. Estamos em constante evolução e pesquisa para desenvolver produtos que permitem uma higiene segura e prática, para que os tutores possam realizá-la em sua residência, em um passeio ou mesmo durante viagens. Acreditamos em um aumento de vendas e de consumo muito grande para os próximos anos nessa categoria”, destaca.

 

Há quatro anos, a Unilever escolheu o Brasil para fazer sua estreia no mercado de produtos para cuidados com animais de estimação. A marca Cafuné abrange as linhas: cuidados com o pet, cuidado com a casa e cuidado com a higiene do pet. Dentre os itens da linha de cuidados com o pet, estão o Shampoo Cafuné Filhotes e o Condicionador Cafuné Maciez e Brilho, formulados com extrato natural de aveia, e as Toalhas Umedecidas Cafuné Sem Fragrância. Com 95% de água purificada, elas são indicadas para a limpeza de orelhas, patas, pelos, região externa dos olhos e focinho. No mercado há mais de 25 anos, a linha Pet da Granado passou por uma repaginação recentemente. A linha ganhou nova identidade visual e ampliou o mix de produtos, que inclui shampoo, condicionador, colônia, sabonetes e fluido desembaraçador.

 

O Shampoo Pet Azul Pelos Claros Granado foi desenvolvido para limpar profundamente e reduzir o amarelamento dos pelos claros de cachorros e gatos. A formulação é enriquecida com ativos derivados do coco e corante azul, que eliminam e previnem o amarelamento dos pelos.

 

O Fluido Desembaraçador é indicado principalmente para cachorros e gatos de pelos longos. O fluido age como um finalizador, auxiliando na remoção dos nós e diminuindo a estática dos pelos, mantendo-os alinhados. Com ativos condicionantes, o produto facilita a escovação, além de deixar os pelos macios, hidratados e levemente perfumados.

 

Dentre os lançamentos feitos recentemente pela Pet Society, está a extensão da linha Hello Kitty and Friends, com a adição do personagem Pochacco. A linha desenvolvida para cachorros traz shampoo, condicionador e colônia, enriquecidos com extrato de algodão e camomila, que hidratam e nutrem a pele e a pelagem dos cães.

 

Na linha Hello Kitty and Friends by Pet Society, voltada aos felinos, alguns dos destaques são os produtos Shampoo 2 em 1 e Banho a Seco em Mousse, ambos formulados com extrato de avelã e baunilha. A linha Super Premium da Pet Society tem itens como o Fast Shower Banho a Seco, formulado com um ativo neutralizador de odores e pantenol, que traz brilho e maciez à pelagem de cães e gatos.

 

Em 2023, a Pet Society recebeu o World Branding Awards pela marca Hydra, de produtos profissionais para saúde, higiene e embelezamento animal. A World Branding Awards, premiação reconhecida no mundo todo, é dividida em três pilares: Global Award, Regional Award e National Award. A Pet Society recebeu o prêmio na categoria Regional Award, referente à Bélgica e à América do Sul.

 

 

Legislação

A legislação do segmento pet é controlada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Produtos para higiene e embelezamento de animais são isentos de registro no Ministério, que os define como produtos sem ação terapêutica ou profilática e que não devem apresentar na rotulagem indicações que remetam à prevenção, ao diagnóstico, à cura ou ao tratamento de doenças, bem como à restauração ou modificações de funções orgânicas e fisiológicas.

 

Após a realização de um cadastramento, o produto é submetido à análise do Mapa para aprovação. Fabricantes de produtos cosméticos para pets que também produzam linhas para humanos têm de manter um espaço reservado à fabricação desses produtos. Os equipamentos de produção e todas as matérias-primas utilizadas nas formulações têm de ser reservados apenas para o uso nessa categoria.

 

A Coordenação de Fiscalização de Produtos Veterinários (CPV) do Mapa fiscaliza a fabricação, o comércio e o uso de produtos veterinários, estabelecendo normas e instruções que orientam produtores, veterinários e consumidores.

 

Algumas referências legais são:

 

Decreto-Lei N° 467, de 13 de fevereiro de 1969 – Dispõe sobre a fiscalização de produtos de uso veterinário e dos estabelecimentos que os fabricam.

 

Decreto N° 5.053, de 22 de abril de 2004 – Aprova o regulamento de fiscalização de produtos de uso veterinário e dos estabelecimentos que os fabriquem ou comerciem.

 

Instrução Normativa Mapa Nº 11, de 8 de junho de 2005 – Aprova o regulamento técnico para registro e fiscalização de estabelecimentos que manipulam produtos de uso veterinário e o regulamento de boas práticas de manipulação de produtos veterinários (farmácias de manipulação).

 

Instrução Normativa Mapa N° 13, de 3 de outubro de 2003 – Aprova o regulamento de Boas Práticas de Fabricação de produtos de uso veterinário e o glossário.

 

Instrução Normativa DAS/Mapa nº 26, de 16 de setembro de 2005 – Aprova o regulamento técnico para elaboração de partida-piloto de produto de uso veterinário de natureza farmacêutica.

 

Instrução Normativa Mapa Nº 26, de 9 de julho de 2009 – Aprova o regulamento técnico para a fabricação, o controle de qualidade, a comercialização e o emprego de produtos antimicrobianos de uso veterinário.

 

Instrução Normativa DAS/Mapa nº 37, de 8 de julho de 1999 – Estabelece os produtos dispensados de registro.

 

Portaria SDA N° 74, de 11 de junho de 1996 – Aprova os roteiros para a elaboração de relatórios técnicos, com a finalidade de registro de produtos biológicos, farmacêuticos, farmoquímicos e de higiene e/ou embelezamento de uso veterinário.

 

Ato Nº 4, de 24 de abril de 2007 – Procedimento para preenchimento e encaminhamento do formulário de solicitação, alteração ou cancelamento de registro de produtos de uso veterinário.

 

Ato Nº 10, de 16 de setembro de 2005 – Roteiro para inspeção de Boas Práticas de Fabricação de produtos veterinários de natureza farmacêutica.

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