matéria publicada na revista Cosmetics & Toiletries Brasil, Jul/Ago de 2022, Vol. 34 Nº4 (pág 7 a 13)
Sustentabilidade, praticidade e alta performance. Entenda por que os cosméticos waterless vieram para ficar.
Cosméticos formulados com pouca ou nenhuma água começam a ganhar espaço no cotidiano dos brasileiros. Versões em barra ou em pó de shampoos, condicionadores, desodorantes e produtos para skin care fazem sentido em um panorama de crescente conscientização ambiental: demandam menor quantidade de água na produção e na forma como o produto é utilizado, dispensam embalagens plásticas, proporcionam economia na armazenagem e entregam maior durabilidade ao consumidor.
Alguns dados sobre a água merecem ser relembrados. Mais de 70% da superfície da Terra é coberta por água. Desse total, 97% estão nos mares e oceanos e apenas 3% são água doce. Pouco mais de 2% da água doce estão nas geleiras. Temos, portanto, menos de 1% de água própria para consumo. De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas sobre o desenvolvimento dos recursos hídricos divulgado em 2021, o uso global de água doce aumentou seis vezes nos últimos 100 anos.
O Brasil concentra cerca de 12% da disponibilidade de água doce do mundo. Contudo, a distribuição é desigual: as áreas menos povoadas concentram a maior parte dos recursos hídricos. A região Norte, que tem uma densidade de apenas 4,12 habitantes por quilômetro quadrado, concentra quase 70% de todos os recursos hídricos disponíveis no país. No Sudeste, onde a densidade demográfica é de 86,92, estão 6% dos recursos hídricos. Os dados são do IBGE/Agência Nacional de Águas (2010).
A água é o principal insumo da indústria cosmética e pode representar até 80% da composição de um produto. “Ela tem, por exemplo, participação importante nas emulsões, como solubilizante de certos princípios ativos, e em deocolônias e outros produtos perfumados. Também é um insumo importante na limpeza de equipamentos e instalações. Por isso, para evitar sua contaminação, é importante que se tenha cuidados especiais para obtê-la, tratá-la e armazená-la”, explicou Sebastião Gonçalves no artigo “Água para Cosméticos” (Série Fundamentos da Cosmetologia), publicado na revista Cosmetics & Toiletries Brasil na edição janeiro/fevereiro de 2014.

Para Luis Julian, gerente de desenvolvimento de negócios LATAM, a abundância de água potável no Brasil como um todo em relação a outros lugares do planeta “pode causar a falsa impressão de que ela é um recurso inesgotável” por aqui. “Por isso, muitas vezes as políticas de racionamento de água não são levadas a sério em nosso país. Por outro lado, os consumidores estão se tornando cada vez mais conscientes sobre os aspectos de sustentabilidade envolvidos no consumo de alimentos, bebidas e cosméticos. Muitos estão desenvolvendo um sentimento de ativismo diário, incluindo em suas rotinas hábitos que podem, de alguma maneira, diminuir o impacto de seu consumo no meio ambiente”, afirma.

Esse “ativismo” abrange desde escolhas como o tipo de transporte ou combustível utilizado até a composição dos cosméticos. Monica Galli, gerente de marketing da Solabia reforça que o waterless não é apenas uma tendência. “É uma necessidade de adaptação ao mundo em que vivemos e que deixaremos para as próximas gerações. É, portanto, de fundamental importância a adequação da indústria a essa futura realidade, trazendo ideias e conceitos de produtos na forma de pó, barras ou mesmo nas versões mais concentradas”, diz.
Julian aponta o aspecto referente ao transporte de matérias-primas. “Se considerarmos que muitas matérias-primas cosméticas vêem de diferentes países ao redor do mundo, faz mais sentido transportá-las concentradas do que diluídas, porque a forma diluída representa um maior transporte de água, de maneira desnecessária”.
“Essa mesma lógica pode ser aplicada a algumas formas de cosméticos acabados, principalmente os que apresentam em sua composição uma concentração muito alta de água, como shampoos, sabonetes líquidos e condicionadores de cabelos. Essas formas cosméticas vêm apresentando as maiores contribuições para a economia de água, mas esse movimento pode se estender a outras categorias”, acrescenta.
A redução de concentração de água pode demandar alguns ajustes na formulação, para garantir a estabilidade e a efetividade. “Um ingrediente que tem sido bastante utilizado para esses ajustes é o Propanodiol (Tilamar PDO). Por tratar-se de um glicol, é um excelente solubilizante para ingredientes hidrossolúveis e tem um sensorial superior ao de outros glicóis, como glicerina e butilenoglicol. O Tilamar PDO é um produto non-GMO (sem presença de organismos geneticamente modificados), o que também é importante para os consumidores eco conscientes”, cita Julian.
Em janeiro deste ano, a Solabia lançou a Waterless Box, uma caixa de protótipos de produtos finais formulados com ativos da empresa. “Na Waterless Box, apresentamos uma série de formulações com substituição da água deionizada por água vegetal, bem como formulações em pó e sabonetes em pílulas (travel size), dentre outras opções”, menciona Monica.
Ela acredita que o consumidor brasileiro ainda reluta em consumir algumas versões de cosméticos em formato sólido, como shampoos e condicionadores. “No entanto, podemos observar uma mudança de pensamento, principalmente do público mais jovem, que pesquisa sobre o processo de fabricação do produto e os impactos causados ao meio ambiente”, afirma.
“Essas pessoas estão optando por produtos sustentáveis, provenientes de upcycling, cruelty free e veganos, bem como por aqueles que utilizam menos – ou nada – de água em sua formulação. Acredito que essa mentalidade tende a aumentar e que o futuro da cosmética será na forma de pó”, completa.
Na edição Novembro/Dezembro de 2021 da revista Cosmetics & Toiletries Brasil, John Jiménez, cientista sênior da Belcorp na Colômbia e autor da coluna Tendências, mencionou que o mercado global de cosméticos sem água tem projeção de crescimento médio acumulado de 10,5% para o período de 2021 a 2027.
Dentre outras razões, colaboram para esse movimento a tendência de redução no uso de conservantes, inovações em texturas, a simplificação das rotinas de beleza, a ascensão de marcas de baixo desperdício e o desenvolvimento de cosméticos ativados no momento do uso com pouquíssima água. “A cosmética está começando a reconsiderar sua dependência da água. Fechar a torneira é o novo luxo. Estamos na era da water conscious beauty”, afirmou Jiménez.
Um relatório da empresa de consultoria Future Market Insights (FMI) estima que os cosméticos waterless tenham uma taxa de crescimento anual composta superior a 13% no período de 2021 a 2031. Segundo a FMI, em 2020, quase 12% dos lançamentos globais em cuidado pessoal foram descritos como waterless. O estudo afirma que esses produtos representam 23% do mercado de cuidado pessoal nos Estados Unidos.
Jiménez mencionou, na
edição Novembro/Dezembro de 2020 da Cosmetics & Toiletries Brasil, a influência do conceito nos tratamentos realizados em spas: “os spas ecológicos estão procurando maneiras de limitar o uso excessivo de água. De acordo com a EPA [agência de proteção ambiental dos Estados Unidos], os chuveiros padrão usam 2,5 litros de água por minuto. Ao criar protocolos de tratamento sem água, mesmo para tratamentos corporais, os spas podem reduzir o consumo. Muitos estabelecimentos estão revisando seus tratamentos à base de água.”
No final de 2020, a Garnier, marca da L’Oréal, lançou uma linha de shampoos em barra no Reino Unido, onde são descartados 520 milhões de frascos de shampoo a cada ano, segundo a empresa. A marca informa que as barras têm 80% menos embalagem e usam 70% menos energia fóssil para transporte, em relação a uma garrafa plástica de shampoo convencional. Os produtos são embalados em papelão 100% reciclável e com certificação FSC.
Em junho deste ano, a P&G Beauty lançou sua primeira linha de shampoos e condicionadores em barra. Os produtos em formato sólido ampliaram o portfólio europeu de cosméticos das marcas Head & Shoulders, Pantene, Herbal Essences e Aussie. Segundo a P&G, uma barra equivale a duas garrafas de líquido de 250 ml. Os produtos são comercializados em embalagens feitas de papel reciclável.
A brasileira B.O.B chegou ao mercado em 2018, com shampoos e condicionadores em barra. B.O.B é a sigla para Bars Over Bottles (barras ao invés de garrafas). “Esse conceito fala diretamente sobre reduzir a poluição plástica no mundo e adotar um estilo de consumo mais consciente. Isso tudo só é possível graças ao conceito waterless, que retira a água da produção e permite que a formulação seja mais limpa, além de vegana e sem crueldade animal”, diz a empresa.
Em maio deste ano, a B.O.B lançou quatro versões de desodorantes 100% livres de plástico e com formulações customizadas para diferentes tipos de pele. A marca informa que, para desenvolver a linha B.O.B Deo, foi preciso entender quais atributos as pessoas buscam em um desodorante. Com base nesses atributos, a empresa customizou quatro formulações. Foram considerados os fatores: nível de proteção contra odor e suor excessivo, nível de sensibilidade da pele, necessidade de hidratação e tipo de pele.
A linha oferece diferentes níveis de proteção desodorante e de hidratação, “além de garantir o máximo cuidado com a pele, seja qual for o tipo ou o nível de sensibilidade”. As versões de B.O.B Deo são: Refrescante, Suavizante, Purificante e Intensivo. A opção Refrescante é formulada com manteiga de bacuri e indicada para peles ressecadas e não sensíveis ao bicarbonato de sódio, que é a base do produto.
Indicada para peles sensíveis, a barra Suavizante traz na composição argila branca, que absorve o excesso de suor sem desidratar a pele e repõe os minerais essenciais, bem como a combinação de Zinco PCA com o óleo de copaíba, que combate a proliferação de bactérias indesejáveis e ajuda a suavizar processos inflamatórios.
O B.O.B Deo Purificante tem alto poder de absorção do suor por conta do carvão ativado, que absorve a oleosidade e as toxinas acumuladas ao longo do dia, e do zinco, que normaliza a produção de oleosidade na pele, reduzindo a proliferação de bactérias que podem causar mau odor.
A versão Intensivo tem alto poder de proteção em razão da solução de prata na composição, que tem ação microbiana de longa duração, combinada com o xilitol, que evita a formação de mau odor mesmo durante atividades físicas. Com exceção do B.O.B Deo Refrescante, as outras três variantes têm como base o hidróxido de magnésio.
“O portfólio da B.O.B, que começou com a introdução de shampoos e condicionadores em barra no Brasil, já tem diversos produtos complementares, como barra de limpeza facial, máscaras capilares, linha kids e sabonete íntimo. Os desodorantes chegam para compor esse conceito do banheiro zero plástico”, diz Andreia Quercia, cofundadora da marca.
A Boni Natural apresenta sua linha de shampoo e condicionador sólidos Boni Natural Manteiga de Cupuaçu. “Além de proporcionar hidratação e brilho aos cabelos por tempo prolongado, os produtos não têm conservantes, pois produtos sem água são mais estáveis. É no ambiente aquoso que se encontram as condições ideais para o crescimento de bactérias e fungos”, ressalta a marca.
As barras de shampoo e condicionador concentram mais de 90% de ingredientes vegetais e naturais, como óleos essenciais de palma e rícino e manteiga de cupuaçu, que limpam e hidratam suavemente, sem agredir os fios. As embalagens são desenvolvidas com papéis biodegradáveis.
Em dezembro de 2021, a Natura lançou a marca de cosméticos em barra Biome. Com mais de seis anos de pesquisa e tecnologia aplicadas, a Biome foi desenvolvida com ingredientes derivados de soluções baseadas na natureza, como o óleo de dendê, produzido a partir de um sistema agroflorestal pioneiro. Para o acessório que armazena as barras, foi utilizada uma biorresina, feita a partir da captura de gás metano.
Um dos principais ingredientes de Natura Biome é o óleo de dendê, produzido no primeiro sistema agroflorestal de dendê do mundo, o SAF Dendê. Liderado pela Natura há mais de 12 anos, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), o projeto contrapõe a lógica da monocultura e cultiva dendê no Pará de maneira sustentável, aproximando a cultura da oleaginosa do seu ambiente original na floresta, por meio da associação de diversas plantas no sistema de produção, como mandioca, banana, pimenta, ingá, cacau, açaí, bacaba e madeiras.
Até o momento são comercializados cinco produtos em barra: shampoo de uso diário, shampoo de hidratação, condicionador, sabonete cremoso e sabonete esfoliante. Futuramente, o portfólio deverá ser expandido para mais de 20 itens, também em formato sólido e em diversas categorias.
A franquia Orgânica Body&Spa lançou sua primeira linha de shampoos em barra em novembro do ano passado. Eles estão disponíveis na loja virtual da marca e por meio dos franqueados, presentes em 11 estados brasileiros. João Galhardi, diretor de marketing e expansão da Orgânica, aponta que os produtos sólidos são extremamente concentrados, rendem mais que a versão líquida e duram muitas lavagens, gerando economia para o bolso do consumidor.
“Cresce a procura por produtos sustentáveis, que não agridam o meio ambiente e sejam livres de plásticos. Acreditamos que esse é o melhor momento para oferecer algo desse tipo ao mercado, devido ao fato de que a conscientização está mais acentuada. A rede estudou muito para lançar um produto com performance e eficácia que agrade as pessoas. É algo totalmente natural, com base em argila e óleos”, diz Galhardi.
A linha é composta pelos itens: Coconut Fresh (para nutrição), Acqua (refresca e limpa profundamente), Pitaya & Hibisco (combina proteínas de trigo micronizadas e vitamina B5, com ação revigorante) e Chá Branco & Gengibre (versão detox, com efeito esfoliante que estimula o crescimento capitar).
A L´Occitane en Provence acaba de lançar uma linha de shampoos em barra. “Com embalagens feitas com 0% de plástico e 100% de materiais reciclados e recicláveis, os produtos rendem até três vezes mais do que um shampoo líquido”, afirma a marca.
São três opções, com formato ergonômico: Reparação Intensiva, para cabelos danificados e com pontas duplas; Purificante, para cabelos normais a oleosos; e Equilíbrio Natural, para manter o equilíbrio do couro cabeludo. Os shampoos são formulados com um coquetel de óleos essenciais de origem natural, como lavanda, alecrim, laranja doce e cedro, e livres de sulfatos e silicones.
“Ao contrário de outros shampoos sem sulfato, os ativos cuidadosamente selecionados permitem a formação de uma espuma generosa, garantindo sensorialidade e performance em um só produto”, garante a L´Occitane. A marca ainda destaca a redução da pegada de carbono no transporte dos produtos.
Disponíveis em versões para cabelos lisos e cacheados, o shampoo em barra da Lola Cosmetics promete alinhar, restaurar e dar brilho aos fios, com rendimento de até 80 lavagens. Em 2021, a marca lançou três versões de máscara capilar em barra, uma para cada etapa do cronograma capilar: hidratação (formulada com maracujá e buriti), nutrição (com pêssego e hemisqualano) e reconstrução (com manga e proteína vegetal).
Indicado para fios oleosos, o Shampoo Purificante My Chang, da Terral, traz na composição extratos de menta e de sálvia, cúrcuma e vitamina E. A combinação de ativos tem ação tonificante, estimulante, adstringente antisséptica e antiqueda.
A Barra multifuncional Odin, da Relax, pode ser usada como shampoo, sabonete, condicionador e barra de barbear e depilar.
A formulação combina extrato de camomila e óleo essencial de melaleuca (com propriedades antimicrobianas), manteiga de karitê (ação hidratante e nutritiva), argila negra e óleo essencial de melaleuca (auxiliam na revitalização e no controle de oleosidade da pele e do cabelo). “A combinação cítrica e fresca do óleo essencial de eucalipto com cristais de mentol proporciona uma sensação ultrarrefrescante”, diz a Relax.
O Shampoo em Barra Tratamento Pós Sol Buriti, também da Relax, tem formulação à base de óleo de buriti, cenoura e karitê. Ao lado do condicionador, ele ajuda a recuperar e a proteger os fios expostos ao sol, sal e cloro, contribuindo para a hidratação e a manutenção da cor. O shampoo traz uma semente de árvore de lichia branca, que “pode ser plantada ou utilizada como pingente”.
No exterior, além dos cosméticos em formato sólido, crescem as opções de produtos em pó, como os da francesa Yodi. “As texturas em pó da Yodi são suaves ao toque. Elas têm alta concentração de ingredientes ativos benéficos para a saúde da pele e do cabelo. Graças aos avanços na ciência dos ativos naturais, oferecemos pós ativos inovadores, em texturas que se transformam em contato com a água. Os produtos estão prontos para uso, e a espuma é arejada e generosa”, diz o site da Yodi. Dentre os itens estão shampoos e produtos para limpeza e revitalização facial.
O Beauty Body Wash, da Bawdy, é um sabonete em pó ativado pela água, indicado para uso diário em peles secas e sensíveis. O produto tem formulação à base de algas marinhas e caulim, para nutrir e hidratar a pele. O sabonete foi um dos destaques da Elle Green Beauty Stars 2021, na categoria waterless.
“Trabalhamos duro para desenvolver um pó leve ativado pela água, com economia desse recurso durante todo o processo de produção e redução das emissões de combustível durante o transporte. Um frasco do Bawdy Beauty Body Wash substitui cinco frascos de sabonete líquido tradicional, tornando sua pegada ainda menor”, destaca a empresa.
Cosméticos waterless colaboram para a diminuição no uso de embalagens plásticas, que em muitos casos são substituídas por opções biodegradáveis.
Um levantamento realizado pelo WWF (Fundo Mundial para a Natureza), com base nos dados do Banco do Mundial, analisou a relação com o plástico em mais de 200 países e apontou que o Brasil produz, em média, aproximadamente 1 quilo de lixo plástico por habitante a cada semana.
Segundo o estudo, o Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, com 11,3 milhões de toneladas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Índia e à frente de países como Rússia, Indonésia e Alemanha. O levantamento aponta que o país recicla apenas 1,28% do plástico que descarta.