Beleza Sustentável

Kátia Neves

Desenvolvimento sustentável

O papel da indústria cosmética

Ações de fabricantes de cosméticos e fornecedores de matérias-primas

 

 

matéria publicada na revista Cosmetics & Toiletries Brasil, Mai/Jun de 2008, Vol. 20 Nº 3 (pág 24 a 27)

 

 

Sustentabilidade” tem sido a palavra deste século. Este conceito foi criado na década de 1980, por Lester Brown, fundador do Instituto Worldwatch, que definiu a sociedade sustentável como aquela capaz de satisfazer suas necessidades sem comprometer as chances de sobrevivência das gerações futuras. Assim, nascia a primeira definição de sustentabilidade. Na prática, a sustentabilidade envolve várias áreas do conhecimento humano, dentre elas, a mais lembrada talvez seja a ambiental.

 

A sustentabilidade não deve ser entendida como algo externo à cultura, à sociedade ou ao próprio homem, pois ela está interligada com o comportamento e a ação de cada um de nós. O conceito de sustentabilidade, corretamente utilizado, aponta caminhos, resgata vivências e experiências e convida todos para uma ação coletiva, solidária e corajosa. Como o conceito de ecossistema nela implícito, a sustentabilidade plena significa mais do que a soma das partes. Ela deriva de relações saudáveis, éticas, democráticas e socialmente justas.

 

 

 

Desenvolvimento sustentável

 

O conceito de desenvolvimento sustentável começou na década de 1960. Em meio aos movimentos estudantis e hippies, surgiu o novo ambientalismo, com objetivos e demandas bemdefinidos, chamando a atenção para as conseqüências devastadoras que um desenvolvimento sem limites estava provocando.

 

Em 1972, após a publicação da obra Os limites do crescimento, pelo Clube de Roma, entidade formada por intelectuais e empresários, este conceito tomou grande impulso no debate mundial, atingindo o ponto culminante na Conferência das Nações Unidas de Estocolmo, naquele mesmo ano, o qual deu origem ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA.

 

A partir daí, desenvolvimento e meio ambiente passaram a fundir-se no conceito de ecodesenvolvimento, que no início dos anos 1980 foi suplantado pelo conceito de desenvolvimento sustentável, adotado como expressão oficial nos documentos da ONU (Organização das Nações Unidas), UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) e WWF (Fundo Mundial para a Natureza).

 

Em 1987, a Primeira-Ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, adotou o conceito de desenvolvimento sustentável em seu relatório Our common future (Nosso futuro comum), também conhecido como Relatório Brundtland. Nele, foi elaborada uma das definições mais difundidas do conceito: “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades”.

 

Este documento chamou a atenção do mundo. Era preciso encontrar formas de desenvolvimento econômico que se sustentassem, sem a redução dramática dos recursos naturais e sem causar danos ao meio ambiente.

 

Em 1992, 172 governos reuniram-se no Rio de Janeiro para a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), evento que ficou mundialmente conhecido como Eco-92. Os objetivos fundamentais da Conferência eram conseguir um equilíbrio harmônico entre as necessidades econômicas, sociais e ambientais das gerações presentes e futuras e firmar as bases para uma associação mundial entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como entre os governos e os setores da sociedade civil, enfocadas na compreensão das necessidades e os interesses comuns.

 

A Conferência resultou em documentos importantes como, por exemplo, a Convenção da Biodiversidade, que estabelecia metas para preservação da diversidade biológica e para a exploração sustentável do patrimônio genético, sem prejudicar ou impedir o desenvolvimento de cada país; a Convenção do Clima, que estabelecia estratégias de combate ao efeito-estufa e que originou o Protocolo de Kyoto, pelo qual as nações ricas devem reduzir suas emissões de gases que causam o aquecimento anormal da Terra; a Declaração de Princípios sobre Florestas, que garantia aos Estados o direito soberano de aproveitar suas florestas de modo sustentável, de acordo com suas necessidades de desenvolvimento e as bases para a Agenda 21, um conjunto de 2.500 recomendações sobre como atingir o desenvolvimento sustentável, incluindo determinações que prevêem a ajuda de nações ricas aos países pobres.

 

 

O papel da indústria cosmética

 

Muitas das ações socioambientais realizadas pela indústria cosmética são feitas com apoio da Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos). A Associação criou o Departamento de Meio Ambiente com o objetivo disponibilizar informações e orientações para as empresas interessadas na adoção de práticas ambientais adequadas. Participa, ainda, de diversos fóruns e discussões de projetos voltados à proteção do meio ambiente, inclusive na Amazônia, para adequá-los às realidades empresariais. Segundo Rose Hernandes, diretora de Meio Ambiente da Abihpec, atualmente o órgão está elaborando um inventário setorial sobre as emissões de gases do efeito-estufa (GEE) para, posteriormente, poder estudar oportunidades de redução dessas emissões. As empresas prestarão as informações por meio do preenchimento de planilhas padronizadas, cujo método foi desenvolvido pelo Grupo Técnico (GT) de Meio Ambiente da Abihpec, formado por gerentes, engenheiros e técnicos ambientais de várias empresas associadas. A idéia é que o inventário seja apresentado em dezembro, pois o ano-base para as informações é 2007.

 

O projeto “Dê a mão para o Futuro - Colabore com a reciclagem e ajude a gerar trabalho e renda”, em parceria com a Fundação Banco do Brasil, busca capacitar e preparar as associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis, de forma a tornar suas atividades auto-sustentáveis.

 

O Ápice é um programa de qualificação, no qual a SGS do Brasil avalia e inspeciona fornecedores de matérias-primas, embalagens, serviços de disposição de resíduos e fabricantes terceiristas, nos quesitos saúde ocupacional, segurança do trabalho e responsabilidade socioambiental. A proposta do programa não é apenas otimizar recursos e reduzir riscos, tanto para os fornecedores quanto para as indústrias usuárias de insumos e serviços, mas também promover uma imagem positiva do setor, privilegiando as empresas comprometidas com um futuro sustentável.

 

 

Ações de fabricantes de cosméticos e fornecedores de matérias-primas

 

O posicionamento e as estratégias das empresas do setor de cosméticos (tanto as que fabricam quanto as que fornecem a matéria-prima) frente à questão ambiental têm sofrido modificações significativas. Prova disso são os programas adotados por algumas companhias que estão contribuindo para a melhoria da qualidade de vida, gerando emprego e renda para milhares de pessoas e utilizando, de forma racional, a biodiversidade brasileira.

 

All Nature: atua com o posicionamento corporativo que visa o equilíbrio entre tecnologia e natureza, tendo desenvolvido um sistema de osmose reversa, que garante o reaproveitamento de água, resultante de um sistema de purificação por meio de membranas, onde todos os íons e microrganismos são retirados, obtendo água pura. O percentual de água rejeitada é reaproveitado para lavagem do chão fabril e limpeza dos banheiros.

 

Amend Cosméticos: realiza ações de conscientização contra o desperdício por meio do coleta e tratamento da água utilizada; coleta e tratamento dos resíduos industriais; reciclagem de insumos. Não faz testes em animais.

 

Aroma do Campo: todos os papéis, papelões ou derivados de celulose são devidamente separados e recolhidos por uma empresa cadastrada de reciclagem. Os resíduos químicos também possuem destino certo. A fumaça é filtrada e os demais resíduos são embalados e encaminhados para empresas especializadas no setor de reciclagem.

 

Aspa Cosméticos: está substituindo matérias-primas sintéticas por outras naturais que, além de não impactarem o meio ambiente, geram empregos em regiões agrícolas. Além disso, administra um programa de arborização ao longo das ruas circunvizinhas à sua fábrica.

 

Avon: redução da emissão de CO2 na atmosfera por meio da modificação das rotas de distribuição de cosméticos. Até o final de 2008, a empresa pretende reduzir em, pelo menos, 1 milhão a quilometragem total percorrida por veículos que efetuam a entrega de produtos às suas revendedoras. Atualmente, são percorridos 50 milhões de quilômetros por ano.

 

BASF: submete suas ações à Análise de Ecoeficiência, uma.ferramenta desenvolvida pela empresa em 1996 e aplicada em quatrocentos estudos mundialmente desde então. Para isso, conta com a Fundação Espaço ECO, instituição que promove o desenvolvimento sustentável na sociedade, transferindo conhecimento e tecnologia, especialmente pela aplicação de soluções em ecoeficiência, educação socioambiental, desenvolvimento comunitário e reflorestamento.

 

Beraca: tem o Programa de Valorização da Biodiversidade, cujo maior objetivo é garantir a rastreabilidade no fornecimento de matérias-primas da biodiversidade brasileira, em especial da Amazônia. A empresa estimula a coleta seletiva, aplicando o conceito de desmatamento evitado, e contribui com o desenvolvimento regional e fortalecimento das comunidades locais.

 

Betulla Cosméticos: promove um trabalho de reciclagem com papelão, plástico, filmes e vidros, e, além disso, os solventes utilizados são vendidos para reutilização. A lavagem dos tanques é realizada com uso de produtos apropriados, sendo o excesso enviado para incineração, para que o meio ambiente não receba

nenhum resíduo químico.

 

Biodolce: mantém uma área permanente de preservação ambiental em Atibaia-SP, buscando conscientizar os moradores locais sobre a importância da preservação do meio ambiente, do tratamento de esgoto e reciclagem de lixo.

 

BonyPlus: em seu quadro de colaboradores mantém um profissional em química ambiental para gerenciar todo o processo de impacto das atividades da empresa ao meio ambiente. Todos os resíduos fabris são 100% reciclados. Os efluentes, oriundos da fábrica, passam por processo de filtragem e tratamento físico e químico antes de retornar à rede pública para se enquadrar às normas do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

 

Chemyunion: monitora continuamente seus processos de fabricação para reduzir ou eliminar os riscos ambientais. Trata seus.efluentes, promove a reciclagem, a redução do consumo de água e a otimização do consumo de energia elétrica, treina seus colaboradores sobre a importância da preservação ambiental. Adquire matérias-primas de parceiros certificados pela Ecocert.

 

Clariant: é signatária do Programa Atuação Responsável da Abiquim – Associação Brasileira da Indústria Química. Promove campanhas internas e programas de treinamento para reforçar a consciência ambiental de seus colaboradores.

 

Cosmotec: possui um programa interno de responsabilidade ambiental – com campanhas de conscientização para seus colaboradores e familiares – e um programa de coleta de materiais recicláveis.

O valor arrecadado com a iniciativa da reciclagem é doado para entidades filantrópicas.

 

Croda: instalou uma fábrica em Manaus visando a prensagem, extração e refino de óleos e manteigas sem aditivos químicos. Esses produtos são certificados pela SAN (Sustainable Agriculture Network), IBD (Instituto Biodinâmico) e FSC (Forest Stewardship Council).

 

Dermage: cerca de 70% das embalagens são feitas com materiais que podem ser reciclados. As lojas deixaram de lado as sacolas plásticas e aderiram aos sacos de papel. Dentro da empresa, há o projeto Reciclar, que conscientiza os funcionários a reaproveitar papéis utilizados e descartar os resíduos de forma correta. O material coletado é vendido para cooperativas e o dinheiro revertido como benefícios aos funcionários.

 

Dermatus: internamente, os funcionários são estimulados a utilizar folhas de rascunho e também a reaproveitar envelopes e sacolas para envio de materiais entre as diferentes áreas da empresa, contribuindo para menor descarte. A empresa participa do PDGB (Programa de Despoluição da Baía da Guanabara) e do projeto “Produção mais limpa” que visa à diminuição de resíduos resultantes dos processos de produção.

 

Dow Corning: é certificada pela ISO 14001 e signatária do Programa Atuação Responsável. Utiliza a metodologia Six Sigma para otimização do processo produtivo de emulsões cosméticas reduzindo a utilização de água e geração de efluentes.

 

Ecologie: mantém parceria com ONGs de proteção e defesa dos animais. As embalagens são recicláveis. Além disso, seu fornecedor de extrato de algas (Assessa) possui certificação do Ibama para uso deste recurso natural.

 

 

 

EOS: durante o cultivo dos ativos utilizados nos produtos são proibidos agrotóxicos, adubos químicos e sementes transgênicas. A produção do sabonete em pó para as mãos não utiliza água como matéria-prima e sua composição inclui agentes de limpeza especiais que necessitam de uma quantidade menor de líquido para o enxágüe, o que significa economia de água tanto na sua produção quanto no momento em que é utilizado.

 

 

Farmaervas: busca suas matérias-primas no Campo Experimental da empresa, uma fazenda de 90 hectares em Bragança Paulista-SP, onde são cultivadas plantas medicinais aclimatadas ao Brasil, em um processo que vai do plantio à colheita e secagem.

 

Kert: realiza a coleta de resíduos industriais e lixo através de empresas certificadas pela Cetesb.

 

Laboratório Kush do Brasil: responsável pelas marcas Truss e Weeze, a empresa adquire apenas matérias-primas com certificação de não-utilização de derivados animais ou minerais.

 

Maxibrasil: responsável pela marca Maxiline, a empresa seleciona criteriosamente seus fornecedores de matérias-primas, priorizando a parceria com aqueles que comungam dos seus objetivos. Colocou em operação uma estação de tratamento de efluentes e treina todo o seu corpo de colaboradores, tendo como objetivo a atualização das práticas de conservação ambiental.

 

 

Maquel: adicionou à fórmula do creme para massagem com algas marinhas o emoliente Cetiol Sensoft, composto 54% de origem vegetal, considerado um produto “limpo”, que minimiza os efeitos tóxicos ao planeta e às pessoas.

 

 

 

 

 

Mary Kay: adotou um programa corporativo de reciclagem e proibiu nos laboratórios os testes de produtos em animais. Os centros de distribuição da Mary Kay nos Estados Unidos não utilizam embalagens feitas de poliestireno, e sim aquelas produzidas com milho e fécula.

 

Natuflora: utiliza papel e material recicláveis para a confecção dos rótulos e tampas de seus cosméticos. A empresa deve ampliar suas ações ambientais com a inauguração de sua nova fábrica em Cotia, na Grande São Paulo, que terá um avançado sistema de tratamentos de efluentes (tanto industriais como sanitários) com processos físico-químicos e biológicos, incluindo a desidratação do lodo industrial.

 

Natura: desenvolveu parceria com a comunidade extrativista de São Francisco do Rio Iratapuru, no Amapá, para a exploração,.de forma sustentável, do breu branco, resina usada como matéria-prima em alguns produtos da linha Ekos. Recentemente, a empresa adotou a tabela ambiental em seus rótulos de produtos, levando ao consumidor dados técnicos sobre a composição da embalagem, visando despertar o consumo consciente. A Natura foi pioneira, também, na utilização de PET reciclado em embalagens.

 

O Boticário: investe na preservação do meio ambiente por meio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, uma organização sem fins lucrativos. Sua atuação é nacional, com estratégia focada na implantação de núcleos regionais em cada bioma brasileiro. Os pólos irradiadores são as Reservas Naturais para proteger remanescentes de cada região brasileira; e as Estações Natureza, exposições permanentes criadas e mantidas com o objetivo de sensibilizar a população.

 

Payot: comercializa produtos com a certificação FSC, como o Kit Show de Lápis (embalagem com dois lápis de olho e um apontador) que leva o selo de garantia de que o produto é originário de madeira de reflorestamento, contribuindo para a preservação do meio ambiente e para o desenvolvimento econômico.

 

 

Prof NR Cosméticos Naturais: durante o processo de fabricação, bem como no pré e pós-processo destas atividades, a limpeza dos equipamentos, áreas e materiais são racionalizados, de modo a preservar e garantir a qualidade e o meio ambiente. Essa preocupação ocorre também nas áreas de sustentação, produção e administrativas.

 

Sparkkli Home Spa: a empresa possui mais de 80 produtos fabricados com ativos naturais de origem vegetal, provenientes de cultivares auto-sustentados, controlados por normas internacionais. Além disso, suas embalagens são biodegradáveis, assim como os ingredientes presentes nas fórmulas.

 

 

 

Surya Brasil: escolhe ingredientes naturais e orgânicos para uso na formulação de todos os produtos e desenvolvimento de embalagens com conceito de sustentabilidade. Na linha Amazônia Preciosa os frascos são feitos em PET 100% reciclável. As embalagens das colorações Henna Pó e Creme são produzidas em papel-cartão com certificação FSC (Forest Stewardship Council), comprovando que a produção do papel é feita a partir de madeira de áreas de reflorestamento.

 

 

 

Unilever: busca parcerias com fornecedores, envolvendo a devolução de embalagens e estudo de novas formas de abastecimento de insumos, além do desenvolvimento de novos processos para a reciclagem de materiais, incluindo compostagem orgânica. Em parceria com a rede Pão de Açúcar, a Unilever instalou Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) de embalagens recicláveis para promover a conscientização dos consumidores.

 

Valmari: participa do projeto de coleta seletiva “Dê a mão para o futuro”, desenvolvido pela Abihpec. Também possui um programa de reciclagem interno. Não há agentes poluentes atmosféricos em seus processos de fabricação, trabalha com fornecedores.e parceiros éticos social e ambientalmente corretos e não realiza testes em animais.

 

Vitaderm: comprova os resultados da segurança e eficácia dos seus produtos em seres humanos, todos voluntários, e em clínicas médicas ou empresas devidamente registradas e aprovadas pelo código de ética. Dessa forma, não realiza testes em animais.

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