Autor: Jacques Le Goff
Editora: Vozes
Usura, juros, lucro e a danação eterna:
onde tudo isso se encontra?
por Carlos Alberto Pacheco
Ficha Bibliográfica
A bolsa e a vida: economia e religião na Idade Média
Autores: Jacques Le Goff
Editora: Vozes
Edição: 2022
Número de páginas: 104
Formato: 13,7 cm x 21 cm
Idioma: português
ISBN-10: 6557135120
ISBN-13: 978-6557135129
Qual é a diferença entre o lucro lícito e a usura ilícita? Essa é uma das questões a que Jacques Le Goff, historiador francês e especialista em Idade Média, que faleceu em 2014, procura responder em sua obra A bolsa e a vida – economia e religião na Idade Média, publicada pela Editora Vozes.
Como a cristandade lidou com a ideia do dinheiro ao longo da Idade Média? Além de traçar a genealogia dessa ideia, desde os tempos bíblicos de Moisés até o IV Concílio
de Latrão (1215 d.C.), no qual foram estabelecidas regras e definições relacionadas à confissão, ao pecado, à penitência e às consequências dos pecados mortais — entre elas, o inferno e o purgatório —, Le Goff ancora o pecado da usura nessa nova ordem penitencial, que, contudo, não deixa muito claro o que fazer com o usurário.
Seria a usura filha da cupidez? A resposta a essa pergunta não é tão simples quando olhamos pelo retrovisor para esse assunto, que tanto incomodou a mente dos cristãos da época, mas não da mesma maneira a dos judeus. A usura designa uma multiplicidade de práticas, o que viria a complicar o estabelecimento de uma fronteira entre o lícito e o ilícito nas operações em que são cobrados juros.
De acordo com Le Goff, nesse livro, “a usura é a cobrança de juros por alguém em operações nas quais não deveria haver juros. Não é, portanto, a cobrança de qualquer juro. Usura e juro não são sinônimos, nem usura e lucro: a usura existe quando não há produção ou transformação material de bens concretos”. Essa ideia, que em grande medida passou despercebida pela cristandade medieval, vai de encontro aos textos bíblicos Êxodo 22:25, Levítico 25:35-37, entre muitos outros. Não resta dúvida de que o trecho mencionado anteriormente, de autoria de Le Goff, é um dos mais impactantes do seu livro.
Na Idade Média, com a instituição da penitência e a crescente necessidade de financiamento público e privado, a Igreja, ao mesmo tempo que apontava para a busca interior de Deus, não fazia questão de coibir fortemente os instintos de natureza selvagem, humana e terrena em seus fiéis. Dessa forma, não se aperfeiçoava o ser: apenas se remiam suas faltas. Essa era a função do purgatório, exemplo perfeito das técnicas de morder e assoprar tão bem usadas pelos donos do poder temporal e atemporal.
Enquanto a lógica da proibição da usura funcionava bem no sentido cristão-judeu, visto que os cristãos encaravam a todos como irmãos, o mesmo não era válido no sentido oposto, uma vez que, para os judeus, apenas os membros de seu próprio povo eram considerados irmãos. Acuados cada vez mais para realizar essa função proibida aos cristãos, os judeus ficaram associados a uma atividade que lhes era permitida, mas que, aos olhos cristãos, estava marcada pelo pecado da usura. Para os governantes cristãos, os judeus tornaram-se um mal necessário. E aqui encontramos uma das sementes do antijudaísmo que percorreu a Idade Média e, posteriormente, assumiu outras formas de preconceito na Idade Contemporânea, como o antissemitismo.
Para aqueles que querem ter um conceito equilibrado entre “a bolsa e a vida”, e não “a bolsa ou a vida”, este livro é um excelente ponto de partida. Quisera eu ter conhecido essa obra antes dos 40 anos.