Transição energética


Autores: Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser
Editora: Blucher


Muito além da eletricidade: um livro para compreender a nova geopolítica da energia


por Carlos Alberto Pacheco


Ficha Bibliográfica

Transição energética
Autores: Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser
Editora: Blucher
Edição: 2025
Número de páginas: 276
Formato: 11,5 cm x 16 cm
Idioma: português
ISBN-10: 9788521227403
ISBN-13: 978-8521227410





Há livros que respondem a perguntas. Outros têm um efeito mais duradouro: mudam as perguntas que fazemos. Transição energética, de Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser, pertence à segunda categoria.

A expressão transição energética tornou-se presença constante em discursos políticos, relatórios de sustentabilidade, fóruns internacionais e estratégias empresariais. Entretanto, poucas vezes nós refletimos sobre o significado real dessa transformação. Estamos apenas substituindo combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia? Ou estamos assistindo à reorganização das relações de poder entre Estados, empresas e sociedades? Eu não sabia as respostas a essas perguntas até ler esse livro.

É justamente essa a principal contribuição dessa obra, publicada pela editora Blucher e que faz parte da série Relações Internacionais. Os autores de Transição energética conduzem o leitor por um percurso que ultrapassa os aspectos tecnológicos da produção de energia. A discussão envolve economia, geopolítica, segurança internacional, desenvolvimento industrial, recursos minerais, mudanças climáticas e interesses estratégicos das grandes potências e das que querem fazer parte dessa discussão.

Essa perspectiva amplia significativamente o horizonte do leitor. Afinal, nenhuma grande transformação energética ocorreu apenas porque uma tecnologia era superior à anterior. Madeira, carvão, petróleo, gás natural e eletricidade coexistiram durante décadas ou séculos. Em cada transição energética, fatores econômicos, conflitos internacionais, disponibilidade de recursos, infraestrutura e decisões políticas desempenharam um papel tão importante quanto a inovação tecnológica.

Talvez a maior virtude desse livro seja justamente evitar simplificações. Em vez de apresentar a transição energética como um caminho inevitável e linear, Schutte e Fuser revelam um processo marcado por disputas comerciais, interesses nacionais e profundas assimetrias entre países desenvolvidos e emergentes. A energia aparece, ao longo da narrativa, não apenas como insumo econômico, mas também como instrumento de influência internacional.

Essa abordagem ganha relevância especial no cenário contemporâneo. A guerra na Ucrânia, a competição tecnológica entre Estados Unidos e China, a crescente demanda mundial por minerais críticos, a expansão dos veículos elétricos e as metas globais de neutralidade de carbono transformaram a energia em um dos principais elementos da geopolítica do século XXI. Compreender esse contexto deixou de ser um interesse exclusivo de diplomatas ou especialistas em relações internacionais, passando a fazer parte das conversas do dia a dia de pessoas que estão longe dos centros de decisão.

Talvez você se pergunte onde a indústria cosmética se insere nessa discussão. A resposta aparece rapidamente quando se observa a cadeia produtiva do setor. A energia está presente na obtenção de matérias-primas, na produção de especialidades químicas, na fabricação de embalagens, no transporte, na logística internacional e na própria operação industrial. Mais do que isso, consumidores, investidores e órgãos reguladores incorporam, de forma crescente, indicadores relacionados às emissões de carbono, à eficiência energética e à sustentabilidade das cadeias produtivas. Sob essa perspectiva, compreender a transição energética significa compreender uma parte importante da evolução do ambiente regulatório internacional.

Outro mérito dessa obra está na recusa de respostas fáceis. Os autores do livro reconhecem o potencial extraordinário das energias renováveis, mas não ignoram seus desafios. A expansão da geração eólica e solar exige investimentos maciços em transmissão, armazenamento e estabilidade dos sistemas elétricos.

A produção de baterias desloca a atenção para minerais estratégicos, como lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras. Em outras palavras, a dependência do petróleo tende a ser parcialmente substituída por novas dependências minerais e tecnológicas.

Esse aspecto conduz a uma reflexão inevitável que deve ser feita por países como o Brasil. Dotado de ampla matriz elétrica renovável, abundância de recursos naturais, biodiversidade singular e crescente capacidade científica, o país reúne condições privilegiadas para ocupar posição relevante nessa nova economia. Entretanto, vantagens naturais não garantem liderança industrial. O resultado dependerá da capacidade de transformar recursos em tecnologia, inovação e agregação de valor.

Talvez seja essa a principal mensagem que permanece após a leitura do livro. A transição energética não representa apenas uma mudança nas fontes de energia. Ela redefine cadeias produtivas, desloca centros de poder econômico e altera prioridades regulatórias.

Livros realmente relevantes não encerram um assunto: inauguram novas formas de observá-lo. Ao terminar de ler essa obra, o leitor dificilmente voltará a olhar uma usina solar, um veículo elétrico, uma política climática ou um acordo comercial da mesma maneira. E talvez esta seja a maior qualidade desse livro: mostrar que discutir energia é, na realidade, discutir o futuro da economia, da indústria e das relações internacionais.