Autor: George Orwell
Editora: Principis
O perigo das palavras elegantes
por Carlos Alberto Pacheco
Ficha Bibliográfica
1984
Autor: George Orwell
Editora: Principis
Edição: 2021
Número de páginas: 336
Formato: 23 cm x 16 cm
Idioma: português
ISBN-10: 6555522267
ISBN-13: 978-6555522266
Muita gente conhece o livro 1984, de George Orwell: o Big Brother, a vigilância, o totalitarismo, a opressão política. Mas pouca gente percebe que o coração da obra não é a política, nem as câmeras, nem o Estado; o coração da obra é a linguagem.
E isso não surgiu do nada. Dois anos antes de escrever 1984, George Orwell preparou cuidadosamente o terreno, ao escrever o ensaio chamado Política e a língua inglesa, publicado em 1946, logo após a Segunda Guerra Mundial. O que Orwell estava vendo naquele momento? Um mundo devastado, regimes totalitários recém-expostos e crimes elegantes: massacres descritos como “necessidades históricas”, bombardeios de civis, privações violentas, rebatizadas de “ajustes administrativos”.
A linguagem começava a encobrir a realidade em vez de revelá-la. Orwell percebeu algo fundamental: quando a linguagem se degrada, simultaneamente o pensamento da sociedade se degrada. E, com o pensamento degradado, qualquer coisa passa a parecer aceitável.
Naquele ensaio, ele denuncia um mecanismo muito específico e perigoso: a substituição de palavras concretas por abstrações convenientes. Você deixa de dizer que “pessoas foram mortas” e passa a dizer que “houve danos colaterais”. Você deixa de dizer “mentira” e passa a dizer “narrativa”. Você deixa de dizer “censura” e passa a dizer “moderação de conteúdo”. A palavra muda, e a percepção moral muda na sequência.
É exatamente esse processo que, levado ao extremo, aparece em 1984 na forma da “novilíngua”. O que é novilíngua? É um idioma criado para reduzir o pensamento, achatá-lo, encolher o vocabulário e eliminar as distinções morais. Quando não há palavras para nomear algo, você perde a capacidade de percebê-lo com clareza e, pouco a pouco, perde também a capacidade de resistir.
Entre as seis propostas para evitar a manipulação da linguagem, o autor recomenda evitar ocultar o agente da ação por meio do uso manipulativo da voz passiva. Não se trata de uma discussão gramatical, mas sim de manipulação psicológica. Comparemos: “Os manifestantes foram assassinados” a “Os governantes assassinaram os manifestantes”.
A primeira frase, construída na voz passiva, enfatiza a ação — assassinar —, mas oculta o agente da ação, isto é, os governantes. Dessa forma, no inconsciente do leitor, a responsabilidade pelo ato é diluída, e a ação adquire um aspecto neutro, quando, na verdade, é moralmente condenável. A passividade da estrutura verbal faz com que o leitor não sinta o impacto real do ocorrido.
A linguagem transforma-se, assim, em um escudo psicológico: para quem escreve, que não se expõe; e para quem lê, que não se envolve. Onde não há sujeito ativo, não há responsável. E onde não há responsável, o assunto se dissolve no ar. Um exemplo clássico, extraído da mídia alemã durante a Segunda Guerra Mundial, é a frase: “A questão judaica foi resolvida”. Inserida em um discurso político, essa frase não esclarece qual era a “questão”, quem a resolveu, como foi resolvida nem quais foram as consequências morais dessa suposta resolução. A frase absolve antes mesmo de acusar, confere respeitabilidade à ação, desumaniza o fato e torna o processo abstrato e impessoal.
O que Orwell procura despertar é a vigilância intelectual diante daquilo que se lê e se escuta.
George Orwell escreveu o ensaio Política e a língua inglesa como um alerta para a humanidade, como um aviso direto: a corrupção da linguagem precede a corrupção da sociedade. E esse ensaio é sempre tão atual, porque essas substituições continuam acontecendo o tempo todo hoje, ao nosso redor: em discursos políticos, jornalísticos e institucionais, na boca de religiosos que usam retóricas epifânicas e até no nosso cotidiano, na nossa vida comum.
Quando as palavras deixam de nomear a realidade, elas protegem essa realidade do julgamento. É aí que o perigo se esconde. Talvez por isso o livro 1984 continue sendo tão incômodo: ele não fala de um regime distante; ele fala do momento em que aceitamos as palavras erradas para descrever coisas reais.
Vale a pena lermos ou relermos 1984 pela perspectiva desta chave – a linguagem como campo de batalha – e prestarmos atenção, muita atenção, às palavras que nós escolhemos usar e às palavras que nós escolhemos aceitar.