A tabela periódica

A tabela periódica

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Autor: Primo Levi
Editora: Companhia das Letras


O livro no qual cada elemento químico carrega uma alma


por Carlos Alberto Pacheco


Ficha Bibliográfica

A tabela periódica
Autor: Primo Levi
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2025
Número de páginas: 256
Formato: 14 cm x 21 cm
Idioma: Português
ISBN-10: 8535941975
ISBN-13: 978-8535941975





Como reagiria um químico se descobrisse que a própria matéria — os átomos presentes nas formulações — pode se tornar a chave para compreender a natureza humana em seus níveis mais profundos?

Em A tabela periódica, o italiano Primo Levi, químico de formação e escritor por urgência da memória, transforma os elementos químicos em alegorias de sua vida: amizade, medo, sobrevivência, ética, o fascínio pelos segredos da matéria e a violência que os seres humanos podem infligir aos seus semelhantes. Para quem vive da química — como os profissionais da indústria cosmética, acostumados a domar moléculas para criar beleza e cuidado — esse livro é um lembrete poderoso de que a ciência é feita por pessoas, com seus dramas, esperanças e cicatrizes.

Publicado originalmente em 1975 e agora retomado em nova edição, pela Companhia das Letras, o livro reúne 21 contos, cada um nomeado por um elemento químico. Não se trata de um compêndio técnico; para isso, há obras mais adequadas. Levi não escreve para ensinar química, embora seus relatos estejam cheios da prática laboratorial: as vidrarias resistentes, os reagentes escassos, o improviso criativo, o cheiro de laboratório que não sai da roupa. A química aparece em seu livro como linguagem íntima, metáfora e salvação — além de espelho para si mesmo.

Algumas passagens são especialmente inusitadas. Em “Zinco”, o jovem estudante Levi descobre, com humor e teimosia, que experimentos raramente seguem o script dos livros. A realidade teima em desafiar o químico que supõe saber tudo — lição universal também para quem trabalha com matérias-primas cosméticas e enfrenta formulações que desestabilizam sem aviso. Em “Ferro”, a dureza do metal se funde com a história de um amigo forte e frágil ao mesmo tempo, provando que os elementos carregam narrativas humanas.

Mas há contos que pesam como chumbo. Em “Cério”, na minha opinião o conto central da obra, surge a lembrança dos dias no campo de concentração de Auschwitz, quando Levi, preso e humilhado, encontra na química uma fresta de sobrevivência. Ele recorda o momento em que, com um pedacinho de cério roubado do laboratório da fábrica em que era escravizado, raspava pequenas faíscas que lhe permitiam acender fogo — gesto mínimo, mas vital, que reafirmava sua humanidade diante da brutalidade nazista. Ciência, ali, deixa de ser profissão: torna-se resistência.

Em outro conto marcante, “Mercúrio”, Levi explora a ambiguidade do conhecimento. O mesmo metal que desliza com beleza é tóxico e traiçoeiro. A metáfora se amplia: o intelecto humano pode iluminar ou destruir. Para um químico preocupado com segurança, impacto ambiental e escolhas éticas — cada vez mais essenciais na indústria da beleza e do bem-estar — esse conto ecoa como um alerta.

O refinamento literário de Levi se expressa ainda em contos como “Ouro” e “Carbono”. Em “Carbono”, o autor acompanha a jornada de um átomo de carbono, desde a rocha até o cérebro de um homem que escreve. É uma ode à unidade profunda entre química e vida: o mesmo átomo que pode compor um diamante incrustado em um frasco de perfume é também o tijolo da emoção e da memória — além da pólvora que destrói vidas.

Levi não cede ao sentimentalismo. Sua escrita é sóbria, exata, quase laboratorial. Há rigor na observação e poesia na síntese, em sua escrita. Talvez por isso, em quem se dedica ao desenvolvimento de produtos cosméticos — área que combina beleza, técnica e precisão regulatória — esse livro desperte uma identificação imediata. O autor mostra que o cientista não deve se esconder atrás dos equipamentos: cada fórmula nasce do olhar de alguém que sente, sonha e sofre.

Concluir A tabela periódica é sair transformado. Não porque o leitor tenha aprendido novas reações, mas porque passa a compreender melhor o que significa ser químico em um mundo complexo. Levi nos lembra que nossa relação com a matéria é também uma relação com a história e com a moral. Somos feitos dos mesmos elementos que estudamos; a diferença está no arranjo — das ligações químicas e das escolhas humanas.

A química, ao fim, não é apenas uma profissão. É uma forma de existir. Entre belas combinações e reações perigosas, nós, químicos e farmacêuticos, lidamos com promessas e riscos todos os dias. Levi nos convida a reconhecer a dignidade dessa prática e a responsabilidade que ela carrega. Ao iluminar a vida por meio dos elementos, ele afirma que nenhum átomo é neutro quando está ligado à experiência humana.

E talvez a maior mensagem de Levi seja esta: entender a matéria pode nos ajudar a entender a nós mesmos — e, quem sabe, a transformar o mundo com um pouco mais de cuidado, esperança e beleza.