Fundamentos da Cosmetologia - Géis Cosméticos

 
 
Luciana Amiralian, Claudia Regina Fernandes
Phisalia Produtos de Beleza Ltda., Osasco SP, Brasil
 
 
 
 
 
artigo publicado na revista revista Cosmetics & Toiletries Brasil, Jul/Ago de 2018, Vol. 30 Nº 4 (pág 26 a 28)
   Géis são soluções coloidais ou suspensões de substâncias insolúveis em água e hidratáveis. Essas soluções podem ser transparentes ou opacas e, quanto menores forem os tamanhos das partículas, mais transparentes elas serão. Geralmente, as substâncias formadoras de géis são polímeros que assumem conformação doadora de viscosidade à preparação cosmética quando são dispersos em um meio aquoso.11


Tipos de Gel

    Basicamente, há 2 tipos géis, o gel aquoso e o gel-creme.

   Exemplos de gel aquoso são: géis hidratantes para a pele oleosa, géis protetores solares, géis esfoliantes para a pele, géis fixadores e modeladores para os cabelos, géis para banho, shampoos em gel, géis dentais etc.1 O gel aquoso é composto basicamente de uma fase aquosa constituída de um formador de gel, como um carbômero (polímero carboxivinílico), ou ainda uma hidroxietilcelulose, água e um glicol para diminuir a pegajosidade.

   O gel-creme é constituído de uma fase aquosa, composta de um formador de gel, como carbômero (polímero carboxivinílico) ou ainda hidroxietilcelulose e uma fase oleosa composta de ceras e emolientes leves.

   Há ainda o álcool-gel para a higienização das mãos, formado basicamente por água, álcool etílico e um polímero. Esse produto tem legislação específica para sua comercialização, a RDC nº 42/2010, e deve possuir álcool na concentração mínima de 70%, com atividade antibacteriana.12


Componentes dos Géis

   Existem diversas matérias-primas que podem formar géis e que auxiliam na estabilização das emulsões, aumentando a viscosidade da fase contínua. Essas matérias-primas podem ser classificadas em naturais ou sintéticas. Exemplos de matérias-primas sintéticas são os polímeros sintéticos, como o polímero carboxivinílico (carbômero) e os acrilatos, e de matérias-primas naturais são os polímeros naturais, como alquil celulose, alginatos, pectinas, amidos e argilas, como a bentonita. Essas matérias primas, em concentrações adequadas, proporcionam sensação agradável de lubricidade e deslizamento, principalmente na pele.


Formadores de Géis

   Os polímeros carboxivinílicos são amplamente utilizados na área cosmética. Nesses polímeros, os grupos ácidos, ao ser neutralizados por bases alcalinas (hidróxido de sódio, trietanolamina), formam uma rede polimérica, tomando o formato de gel, sendo estáveis entre os pHs 6,5 e 7,5.

   No mercado, existem atualmente polímeros pré-neutralizados que são muito versáteis, como o copolímero do ácido sulfônico acriloil-dimetil-taurato e o ácido vinilpirrolidona neutralizado. Esses dois polímeros são formadores de gel aniônico, estáveis em pH de 4,0 a 9,0, que formam géis transparentes com sensorial agradável.

   Em se tratando de polímeros naturais, existem alguns polissacarídeos, como a goma sclerotium, que tem propriedade biodegradável obtida por biotecnologia com base nas culturas de Sclerotium rolfsii, espécie de fungo, que apresenta propriedades gelificantes, espessantes, emulsionantes, suspensoras e formadoras de filme. A goma sclerotium possui vantagens importantes, como a capacidade de formar géis aquosos estáveis em condições extremas, pois é estável em uma faixa de pH bastante ampla, na presença de sais e eletrólitos, álcool e solventes orgânicos.
 
    A goma xantana é um polímero aniônico bastante utilizado na área cosmética, pois mantém sua viscosidade em ampla faixa de pH e em meio eletrolítico.

   O amido de milho modificado (INCI:Hydroxypropyl starch phosphate) é um polímero natural modificado e pré-gelatinizado que promove a formação de gel a frio, com sensorial leve, reduz o brilho e confere boa espalhabilidade em formulações para pele e cabelos.
 
    A hidroxietilcelulose, a propilcelulose e a propilmetilcelulose também são amplamente utilizadas e, quando estão na concentração adequada e são aquecidas, formam géis de consistência média e com característica não iônica. São compatíveis com tensoativos catiônicos, apresentam-se na forma de pó e devem ser dispersas e hidratadas em água ou em solventes orgânicos, para a formação degel transparente. São utilizadas em cremes, loções, géis, condicionadores  de cabelo, shampoos etc.
 
    A carboximetilcelulose de sódio, obtida por meio da reação dos grupos OH da celulose com o monocloroacetato de sódio, devido à sua natureza é aniônica é, por isso, incompatível com substâncias catiônicas. Ela não precisa ser neutralizada para dar espessamento e é muito utilizada em cremes e géis dentais.
 
    As argilas e as bentonitas, componentes naturais de silicato de alumínio e magnésio, fornecem soluções opacas, são utilizadas em cremes e loções e são dotadas de grande capacidade de abasorção de água.
 
  Há ainda as sílicas pirogênicas, que têm alto poder de absorção de água ou de óleo e formam géis transparentes ou translúcidos, proporcionando propriedades tixotrópicas às formulações. 

  Os géis têm sido muito utilizados em produtos cosméticos e como base dermatológica, pois têm boa espalhabilidade, não são gordurosos e podem veicular princípios ativos hidrossolúveis ou lipossomas. Em produtos para os cabelos, eles são utilizados como géis modeladores ou como espessantes, em shampoos, géis de banho, géis para barbear e géis pós-barba. Outra aplicação interessante dos géis é no desenvovimento de cremes dentais na forma de gel.1,5


Formulação Básica

   Na Tabela 1 é apresentado um exemplo genérico de uma formulação de gel capilar.



Processo de Fabricação de um Gel Capilar

    O processo de fabricação de um gel capilar consiste basicamente na dispersão do polímero sob agitação vigorosa até ocorrer sua total dispersão. Após essa dispersão, adicionam-se os umectantes, corantes, agente quelante e conservante. Depois da homogeneização desses componentes, neutraliza-se o gel com o regulador de pH. Após se obter o gel, mistura-se a fragrância no solubilizante de fragrância e esses são adicionados ao produto. Caso o gel tenha um formador de filme, como o PVP K-90 (INCI: PVP), este deve ser dispersado a parte, em uma quantidade suficiente de água, e adicionado ao produto no final do processo.

   As etapas críticas da fabricação de um gel capilar consistem na dispersão adequada do polímero formador de gel e na solubilização da fragrância, para que o produto tenha suas características de transparência e homogeneidade mantidas durante toda a sua estabilidade.


Carcterísticas do Produto Final

   As características físico-químicas de um produto cosmético para a categoria gel devem atender aos seguintes parâmetros:
- Viscosidade: de acordo com o tipo de embalagem do produto final;
- Aspecto: gel transparente ou gel turvo, dependendo do tipo de produto desejado;
- pH: depende do tipo de produto desejado; para um gel capilar, o pH deve estar entre 6,0–7,0.


Conclusão

   O desenvolvimento de géis deve ser realizado de forma consistente, levando em consideração as interações entre os materiais, suas solubilidades e polaridades, e evitando, assim, incompatibilidades e possíveis desestabilizações da formulação durante seu shelf life.

   Outro ponto importante a ser considerado é que o gel ou o gel-creme deve ter aparência agradável, toque sem sensação de pegajosidade, boa lubricidade e deslizamento, principalmente, na pele.


Referências

1. Rebello T. Guia de produtos cosméticos, 7. ed., Editora Senac, São Paulo, 2008
2. Ansel HC, Popovich NG, Allen LV. Formas farmacêuticas e sistemas de liberação de fármacos, 6. ed., Colômbia: Editorial Premier, 2006
3. Coutinho CSG, Santos EP. Cremes e loções: visão geral, Cosm & Toil Brasil 26(4):36-38, 2014
4. Daltin D. Tensoativos: química, propriedades e aplicações, Ed. Bucher,São Paulo, 2011
5. Becher, P. Emulsions: theory and practice, 2ª ed, Reinhold Publishing orp., New York, 1965
6. Salager JL, Miñana-Perez M, Pérez-Sánchez M, Ramirez-Gouveia M, Rojas. Surfactant-oil-water systems near the affinity inversion. Part III: The two kinds of emulsion inversion, J Disp Sc and Technol 4(3):313-329, 1983
7. Gomes RK, Gabriel M. Cosmetologia: descomplicando os princípios ativos, 2006.
8. Barata E. Cosméticos: arte e ciência, Lidel-edições técnicas Lda.,Lisboa, 2002
9. Schlossman ML. The chemistry and manufacture of cosmetics, v.1 – Basic science. 3rd ed., (Edit) Schlossman, 2000
10. Anton RE, Salager J-L. Emulsion instability in the three-phase behavior region of surfactant-alcohol-oil-brine systems, J of Colloid and Interface Science 111(1):54-59, 1986
11. Maia Campos PMBG, Mercurio DG. Formas Cosméticas, Cosm & Toil Brasil 26(2):36-40, 2014
12. Anvisa. RDC nº 42/2010, de 25/10/2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de disponibilização de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos, pelos serviços de saúde do País, e dá outras providências. DOU de 26/10/2010
Luciana Amiralian é farmacêutica-bioquímica formada pela Universidade de São Paulo (USP) e sócia-diretora da empresa Phisalia Produtos de Beleza, na qual é responsável pelas áreas de pesquisa e desenvolvimento, inovação e controle de qualidade.
Claudia Regina Fernandes é química-industrial com especialização em Engenharia Cosmética e com mais de 15 anos de experiência na área de pesquisa e desenvolvimento, regulatórios e controle de qualidade. Atua na empresa Phisalia Produtos de Beleza, como supervisora da área de pesquisa
e desenvolvimento.

 

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