Pele Sensível e a Autoestima

Katerina Steventon, PhD
FaceWorkshops LLC, York, Reino Unido

Primeiras Impressões

Sensações Subjetivas no Cérebro

Detecção da Sensibilidade em Tipos de Pele

Conclusão

Referências

 

Cerca de 50% das mulheres declaram ter pele sensível. Essa sensibilidade da pele pode causar certa turbulência emocional quando há coceira, queimação e irritação, mesmo não sendo visíveis, ou quando ocorrem manchas irregulares. A pele sensível continua sendo um grande problema sem resposta, porque não se enquadra em nenhum padrão fisiológico. Também tem o desafio de surgimento de pele irregular, que pode variar entre o ressecamento e a oleosidade excessiva.

 

Este artigo aborda um trabalho recente relacionado com a pele sensível e as primeiras impressões que causamos nas pessoas, interpretações no cérebro, com diferentes tipos de sensibilidade, entre outros temas.

 

 

Primeiras Impressões

 

Julgamentos de caráter podem basear-se na aparência facial, o que, por sua vez, pode influenciar as interações pessoais em termos de relacionamento social ou aversão pessoal. Na verdade, a pesquisa tem demonstrado que as pessoas são particularmente sensíveis a manchas na pele, pois estas podem sugerir a existência de problemas de saúde e a presença de alguma doença infecciosa. O efeito negativo de uma pele manchada também pode criar a impressão de que a pessoa é imatura e pouco confiável versus o efeito positivo de uma pele lisa, que evoca imagens de confiabilidade, atratividade e saúde.1

 

Esses impactos da sensibilidade da pele, juntamente com sintomas sensoriais desagradáveis, motiva as pessoas com pele sensível a levarem muito mais a sério os cuidados com a pele.

 

Pense, por exemplo, na dermatite atópica (DA) e em doenças alérgicas, que têm aumentado dramaticamente nas últimas décadas. O conhecimento científico dos fatores de risco para o desenvolvimento dessas condições e as devidas medidas preventivas para evitá-las ainda são limitados. Na verdade, há evidências de que a insuficiência da barreira da pele e a dermatite atópica de infância podem ter influência no desenvolvimento de sensibilização da pele. Dessa forma, cuidados com a pele desempenham importante papel nesse contexto, e o uso regular de emolientes profiláticos pode reduzir significativamente a expressão da DA, desde que o tratamento seja mantido por longo prazo.2

 

 

Sensações Subjetivas no Cérebro

 

A sensibilidade da pele também é um assunto subjetivo, como já foi demonstrado por imagens de ressonância magnética (fmRI). Em um estudo, foi feita uma imagem do cérebro na tentativa de buscar uma base neural para a pele sensível, em sujeitos que se autopercebiam como portadores de pele sensível e de pele não sensível. A pesquisa demonstrou que o desconforto da pele, por causa da irritação em um teste de ácido láctico, causou maior atividade em áreas específicas do cérebro, em todos os participantes, especificamente, o córtex primário sensório-motor contralateral ao sítio de aplicação; e a rede frontoparietal bilateral que inclui o córtex parietal, áreas pré-frontais ao redor do sulco frontal superior, e áreas motoras suplementares.

 

Porém, a atividade foi significativamente maior no grupo de pele sensível. Apenas nesse grupo, essa atividade disseminou-se para outras áreas do cérebro, especificamente pelo córtex sensório-motor ipsilateral e pela área somatossensorial secundária peri-insular bilateral.

 

Portanto, a pele sensível autopercebida mostra, aparentemente, uma ativação do cérebro durante a irritação, com um padrão neurofisiológico específico.3

 

Em dermatologia, a coceira tem sido mapeada no cérebro, pois se trata de uma experiência sensorial comum associada com a inflamação da pele. Os sinais comunicativos entre os queratinócitos, o sistema imunológico e os nervos sensoriais são os responsáveis pela fisiopatologia da coceira. Esses sinais têm início na pele, seguindo para a coluna vertebral e, finalmente, alcançando o cérebro, onde a coceira é processada.4

 

Estudo comparando alterações da eletroencefalografia (EEG) no cérebro de pacientes queimados e com coceira crônica demonstrou que nesse órgão estavam ocorrendo a queda da atividade alfa dos canais occipitais e menor atividade beta baixa na área frontal, em condições de olhos vendados. Portanto, a coceira em queimados parece estar associada com alterações na reorganização do cérebro, em nível cortical, conforme ficou caracterizado pelo modelo EEG.5

 

 

Detecção da Sensibilidade em Tipos de Pele

 

É crescente a demanda por cosméticos que visam a pele sensível. Mas ainda não foi estabelecido nenhum método absoluto para detectar a sensibilidade da pele. Sabe-se que uma insuficiência da função de barreira tem influência na pele sensível. Reações neurais e vasculares exageradas também estão implicadas na sensibilidade.

 

O teste de “picada” com ácido láctico, o de fluxo de sangue basal, o do atual limite de percepção (CPT) e o teste de capsaicina da dobra nasolabial são métodos padronizados frequentemente usados na tentativa de efetuar testes em peles sensíveis.

 

Resposta mais elevada ao ácido láctico e menores valores basais do CPT ocorrem em pessoas que têm sensações de picada, queimadura e coceira. Destaque-se que foi identificada uma variação genética do potencial receptor transitório do membro 1 da subfamília vaniloide (TRPV1) e que sensações desagradáveis demonstram que o TRPV1 é um fator importante para a patogênese da pele sensível.6,7

 

Ressalte-se, ainda, que a sensibilidade da pele pode ocorrer tanto em peles do tipo seco quanto do tipo oleoso. Sobre esse tema, mapeamento não invasivo de parâmetros fisiológicos da pele facial tem sido feito ultimamente; desde o ponto de vista de simples avaliações bioinstrumentais, até a visualização continuada da hidratação da pele, da função de barreira, do pH superficial e do sebo, em todos os tipos étnicos de pele. Pele seca, por exemplo, pode ser associada com a sensibilidade e a coceira da pele. Embora ainda haja escassez de dados sobre problemas subjacentes celulares e bioquímicos na pele seca, este é o tipo de pele mais mapeado até o momento.

 

Em 2014, foi desenvolvida a análise facial contínua de avaliações bioinstrumentais usando uma abordagem de mapa de calor. Esses mapas possibilitaram a visualização de características faciais e revelaram uma inesperada complexidade da pele facial, demonstrando que gradientes notáveis de hidratação da pele, como perda de água transepidérmica (TEWL), pH da superfície da pele e sebo, ocorrem em curtas distâncias em toda a face.

 

Portanto, é necessário fazer uma abordagem estatística para comprovar essas alterações nos parâmetros da pele facial, visualizar a eficácia dos tratamentos e avançar em um conhecimento abrangente da fisiologia da pele e da aplicação do produto adequado.8 Essa pesquisa é o alicerce do conceito de Corneocare, desenvolvido pela empresa DSM, que inclui ingredientes e conceitos com uma abordagem holística para

sensações da pele relacionadas com a epiderme. Segundo declarações da empresa, “Combinadas com a aparência [essas inovações] oferecem uma completa experiência de beleza e uma sensação de liberdade, de conforto da pele, e com uma pele macia e de toque agradável”.

 

Da mesma forma que foi feito o mapeamento da pele seca, ainda falta realizar mapas faciais da pele oleosa, em uma pesquisa de sensibilidade da pele. A oleosidade excessiva pode levar ao desconforto emocional, por causa de preocupações com o brilho, os poros dilatados, a acne e a insuficiência da barreira da pele. A gama de texturas de peles oleosas também precisa ser avaliada por meio da correlação de análise de instrumental, com classificação clínica. Isso porque cada área da face apresenta diferentes níveis oleosidade, além de diferentes quantidade e aparência de poros e comedões.

 

Maiores classificações para a intensidade de brilho e da oleosidade e a tendência à pigmentação coincidem com maiores valores objetivos de produção de sebo, TEWL e aspereza de textura da pele. Outras características da pele também influem na prevalência da sensibilidade e de manchas em diferentes áreas da face.9,10

 

A avaliação de pele sensível pode ser influenciada por fatores como o clima e a estação do ano, as regiões da face, além do fototipo e do estilo de vida. Por exemplo, no teste de contato com ácido láctico surgem diferenças de sensibilidade conforme a estação do ano, com os escores tendo seu pico no outono. Destaque-se, ainda, que nos fototipos de peles III e IV a frequência do sono e a ingestão de alimentos condimentados também podem afetar a sensibilidade.11 E, conforme a indústria já constatou, a microbiota da pele pode agravar a sensibilidade. Sobre esse tema, alguns estudos12 já sugeriram que um ambiente rural pode proporcionar uma proteção mediada pela exposição a micróbios ambientais necessários para dar suporte à tolerância imunológica normal. O triângulo das interações entre micróbios ambientais, microbiota hospedeira e sistema imunológico ainda é pouco conhecido, mas, provavelmente, também afeta a sensibilidade da pele.

 

 

Conclusão

 

Os desafios para a indústria são conhecer melhor e mapear a inter-relação de fatores, como os presentes na complexidade da vida moderna, nos diferentes tipos de pele. A formulação com foco na resposta do cérebro às aplicações de cuidados com a pele, aos inibidores de irritação sensorial e aos ativos antiinflamatórios, pode reduzir a resposta vascular neural aumentada da pele sensível, que é essencial para futuras pesquisas e formulações de produtos de skin care.

 

Poder aplicar rapidamente os resultados das pesquisas pode levar ao desenvolvimento de produtos inovadores, multifatoriais e direcionados para aliviar os sintomas do consumidor e elevar seu bem-estar emocional.

 

 

Referências

 

1. Jaeger B, Wagemans FMA, Evans AM, van Beest I. Effects of facial skin smoothness and blemishes on trait impressions. Perception 47(6):608-625, 2018. Disponível em://www.ncbi.nlm.nih. gov/pubmed/29580151

 

2. Lowe AJ et al. The skin as a target for prevention of the atopic march. Ann Allergy Asthma Immunol 120(2):145-151, 2018. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29413338. Acesso em: 6/8/2020

 

3. Querleux B et al. Neural basis of sensitive skin: an fMRI study. Skin Res Technol 14(4):454-461, 2008. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18937781. Acesso em: 6/8/2020

 

4. Yosipovitch G, Rosen JD, Hashimoto T. Itch: From mechanism to (novel) therapeutic approaches. J Allergy Clin Immunol 142(5) 1375-1390, 2018. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30409247. Acesso em: 6/8/2020

 

5. Miraval FK et al. A preliminary study on qEEG in burn patients with chronic pruritus. Ann Rehabil Med 41(4):693-700, 2017. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28971055. Acesso em:

6/8/2020

6. Sun L et al. The evaluation of neural and vascular hyperreactivity for sensitive skin. Skin Res Technol 41(3):381-387, 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26841957. Acesso em: 6/8/2020. Acesso em: 6/8/2020

 

7. Ham H et al. Itching sensation and neuronal sensitivity of the skin. Skin Res Technol 22(1):104-107, 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26250122. Acesso em: 6/8/2020

 

8. Voegeli R, Gierschendorf J, Summers B, Rawlings AV. Facial skin mapping: from single point bio-instrumental evaluation to continuous visualization of skin hydration, barrier function, skin surface pH, and sebum in diff erent ethnic skin types. Int J Cosmet Sci 41(5):411-424, 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31325176. Acesso em: 6/8/2020. Acesso em: 6/8/2020

 

9. Maia Campos PMBG, Melo MO, Mercurio DG. On-Line. Use of advanced imaging techniques for the characterization of oily skin. Front Physiol, 2019. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fphys.2019.00254/full. Acesso em: 6/8/2020

 

10. Mercurio DG, Segura JH, Demets MBA, Maia Campos PMBG. Clinical scoring and instrumental analysis to evaluate skin types. Clin Exp Dermatol 38(3):302-308, 2013. Disponível em: https:// www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23517362. Acesso em: 6/8/2020

 

11. Ye CX et al. Skin sensitivity evaluation: What could impact the assessment results? J Cosmet Dermatol 19(5):1231-1238, 2019. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31498557. Acesso em: 6/8/2020

 

12. Kasahara, K. (2018, Dec 7). Farm to face: environmental bactéria boost skin’s barrier. Cosm & Toil 134(1):8, 2018. Disponível em: https://www. cosmeticsandtoiletries.com/research/biology/video-Freshly-FarmedBacteria-Boost-Skins-Barrier-502161681. html. Acesso em: 6/8/2020

 

 

Publicado originalmente em inglês, Cosmetics & Toiletries 135(4):32-36, 2020

Este artigo foi publicado na revista Cosmetics & Toiletries Brasil, 32(4): 31-33, 2020

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