Métodos Alternativos para Teste de FPS

Uli Osterwalder
Sun Protection Facilitator (SPF) GmbH, Basileia, Suíça

Steffen Uhlig, PhD, Bertrand Colson
QuoData Quality and Statistics, GmbH, Berlim/Dresden, Alemanha

Jürgen Volhardt, PhD
DSM Nutritional Products Ltd. Basileia, Suíça

Teste de FPS in vivo ISSO 24444:2019

Revisões da Norma ISO 24444:2019

Métodos FPS Alternativos Atualmente Disponíveis

Métodos de Transmitância in vitro

Métodos in sílico

Espectroscopia de Reflectância Difusa Híbrida

Visão Geral dos Métodos Substitutos

Validação de Métodos Alternativos para o FPS

Projeto de Estudo Interlaboratorial

Método de Validação Proposto

O Caminho a Seguir

Referências
 

 

Há dois anos, os mesmos autores deste artigo publicaram o artigo “SPF Assessment Revisited – Status and Outlook”1. No presente artigo, esses autores dão uma atualização do progresso em busca de métodos alternativos de FPS. Este artigo também propõe um processo de validação desses métodos, com o objetivo de torná-los equivalentes, e revisam o método da norma ISO 24444:2019,2,3 considerado o padrão ouro dos testes de determinação do FPS. Porém, inicialmente, este artigo versa sobre o desafio de encontrar métodos alternativos para FPS.


O teste de FPS in vivo, conforme consta da norma ISO 24444:2019, é um método relativamente complexo, que exige tempo e equipamento específico para sua execução. Contudo, tendo em vista que a pele humana serve como gabarito e indicador de desempenho, ela conecta-se diretamente com a aplicação de protetores solares e com o potencial dano biológico causado pela radiação UV.


A pele humana e os processos que ocorrem durante a aplicação de filtros solares também são complexos4,5 e difíceis de reproduzir por modelos ou procedimentos alternativos. Portanto, levou um bom tempo para que fossem desenvolvidos métodos que poderiam – tendo em vista a imensa variedade de filtros solares produzidos mundialmente – chegar a resultados consistentemente comparáveis.


Além disso, o procedimento de FPS in vivo usa radiação UV, a qual representa uma agressão à pele dos panelistas de teste. Levando em conta também esse aspecto, os procedimentos alternativos deveriam evitar essa agressão. Igualmente, a natureza de panelistas humanos causa, de forma intrínseca, algumas variações nos resultados. Assim, a objetivo é identificar métodos alternativos, com menos variação e que sejam mais sólidos, ao mesmo tempo que reproduzam bem os resultados do FPS in vivo.


Encontrar um método alternativo que demonstre alta precisão é relativamente fácil. A complicação começa quando se quer encontrar um método que também possa predizer corretamente qual será o valor do FPS obtido com o atual método in vivo. Esse quebra-cabeça está esboçado na Figura 1. Os métodos alternativos também precisam demonstrar uma boa correlação com esse método. Esse ponto dá abertura a um punhado de dúvidas: Como pode ser testada a correlação entre dois métodos? Quantos institutos de testes devem ser envolvidos nessa tarefa? Quantos produtos e quantos tipos diferentes de produtos devem ser testados? Quanto a validação desses métodos difere do procedimento de rotina? Para termos uma visão perspectiva, será de grande ajuda revisitarmos a norma ISO 24444:2010 e sua recente revisão, a ISO 24444:2019, antes de ver quais são os métodos alternativos.

 

Teste de FPS in vivo ISSO 24444:2019

A determinação do FPS começou há mais de 50 anos, como um método externo que usa o eritema como objetivo biológico. O dano induzido pela radiação UV deflagra uma reação inflamatória que gera um eritema visível, por um caminho biológico de múltiplos degraus. Na época, os valores medidos do FPS eram muito baixos, muitos deles da ordem de apenas 2, 3, 4 etc. Hoje em dia, a determinação do SPF in vivo é mais complexa, com protocolos que usam recursos luminosos padronizados para simulação da luz solar2,3 e valores muito maiores do FPS: 30 e 50 são as categorias mais populares. As normas ISO 24444 e a norma muito semelhante a estas, a FDA 20116, são, no momento, consideradas os padrões ouro em termos de avaliação de protetores solares. Além disso, Gardzarella et al. Demonstraram que ambos os métodos, ISO e FDA, geram valores semelhantes de FPS.7


Nos dois protocolos, as amostras de referência padrão P2 e P3 são exemplos de valores verdadeiros de FPS conhecidos. Dados recém-coletados por Alejandria et al. para a amostra de referência P2 mostram,8 com evidência, como o erro casual/geral da determinação do FPS pode ser reduzido aumentando-se o número de repetições (Tabela 1). O erro padrão (precisão) é reduzido pela raiz quadrada do número de repetições. Por outro lado, o valor médio (verdadeiro) não se altera muito, acima de um número mínimo razoável de repetições.


No caso da medição do FPS, assume-se que o valor médio de 10 voluntários seja sufi ciente para determinar o FPS em um contexto particular de laboratório e de operação de rotina. Na verdade, as diferenças entre os valores do padrão de FPS e a média de cerca de 100 medições de P2 são de apenas 3% (ISO) e 6% (FDA), respectivamente. Portanto, ambos os protocolos podem ser considerados muito próximos do valor real.


No outro extremo, a determinação do FPS única, por apenas um laboratório, pode evidentemente ficar muito longe do valor verdadeiro. Miksa et al. demonstraram que é aconselhável obter a média de, pelo menos, três ou quatro desses valores de FPS em diferentes institutos de teste, com cinco voluntários em cada um, para que tenhamos um valor mais confiável do FPS,9 como seria de se supor em termos de considerações estatísticas.

 

Revisões da Norma ISO 24444:2019

A revisão da norma ISO 24444:2019 foi preparada pelo Comitê Técnico ISO/TC217 Cosméticos, durante os últimos três ou quatro anos. Essa segunda edição da norma cancela e substitui a primeira edição.3 Veja a seguir a três principais alterações, entre as nove mudanças feitas na ISO 24444:


Foram validados e adicionados três novos protetores solares como padrões de referência (Tabela 2).


Foram mais detalhadamente descritos os procedimentos de aplicação de protetores solares.


As tabelas e as exigências de relatórios foram modificadas visando proporcionar informações mais completas sobre os resultados dos testes. Essas alterações vão aperfeiçoar a precisão na determinação do FPS. As novas amostras de referência, FPS 30 (P5), FPS 43 (P6) e FPS 63 (P8), deverão possibilitar que os laboratórios de teste ajustem seus equipamentos de modo a ficarem muito mais próximos das necessidades relevantes do mercado. A maioria dos países tem um limite dos valores do FPS, por exemplo: FPS 50+, que significa FPS>60 na Europa. Os novos padrões P5, P6 e P8 também deverão ser usados em normas futuras de métodos alternativos de definição do FPS.

 

Métodos FPS Alternativos Atualmente Disponíveis

O desenvolvimento de métodos alternativos para a determinação do FPS e do FPUVA vem ocorrendo há décadas. O fato de que nenhum deles tenha conseguido, até agora, substituir o “padrão ouro”, o que comprova que essa não é uma tarefa fácil. A Figura 2 dá uma visão panorâmica dos métodos de avaliação do FPS, que podem ser classificados conforme diferentes critérios. As divisões clássicas baseiam-se no tipo do método, ou seja, in vitro, in vivo, e in silico, e na carga de radiação UV à qual a pele é exposta. Como podemos ver – e explicaremos a seguir – essas classificações se sobrepõem.


O método ideal de avaliação deveria ser preciso e estar em conformidade com resultados in vivo, mais facilmente reproduzível e fácil de realizar, ou seja, deveria ter uma boa relação custo/benefício. A seguir é apresentado um resumo dos métodos de avaliação do FPS atualmente em desenvolvimento e alguns métodos que já estão disponíveis comercialmente. Detalhes desses métodos podem ser obtidos nas referências indicadas.

 

Métodos de Transmitância in vitro

O enfoque na transmitância in vitro foi a primeira tentativa de encontrar uma alternativa para o método in vivo. As primeiras comparações de resultados in vivo e in vitro foram realizadas há mais de 40 anos.10 Embora muitos substratos tenham sido tentados, as duas exigências mais importantes eram: 1) transparência para UV e 2) certo grau de rugosidade que mimetizasse a superfície da pele. Há décadas, o polimetilmetacrilato (PMMA) vem sendo considerado um substrato útil, mas, recentemente, outros materiais têm sido sugeridos.11 O protetor solar é aplicado em placas rugosas de PMMA, que tentam imitar a textura da pele humana. Já foram desenvolvidas dezenas de diferentes placas, com diferentes graus de rugosidade.


A transmitância da radiação UV é medida por um espectrômetro com uma esfera integradora que capta a luz difundida. Juntamente com o espectro da ação de eritema e o espectro solar (simulado), usam-se os dados medidos da transmitância para calcular o FPS. Após décadas de desenvolvimento, um grupo de trabalho da German Society of Cosmetics (DSK) chegou à conclusão de que o fator de proteção solar in vitro ainda é um desafio em busca de solução,12 embora tenha sido publicada recentemente uma importante descoberta.13,14 Três métodos in vitro: o Cosmetics Europe (CE) Method,15 o Fused Method16 e outros métodos, como o método JCIA com um “substrato de mimetização de pele”.17

 

Método CE

Sob a liderança da Cosmetics Europe (CE), foi conduzido um método de teste de definição do FPS que compara resultados in vivo versus in vitro, realizado em três laboratórios e utilizando 24 protetores solares comerciais com FPS 6-50+. O método CE15 desenvolvido por Miksa et al.14 usa um braço robótico para controlar a aplicação dos produtos em teste sobre duas diferentes placas PMMA, uma moldada e outra jateada com areia. Atualmente, o método CE é uma norma do Comitê Técnico ISO/TC217 Cosméticos, aprovado pelo número de item e com o título: “ISO/AWI 23675 Cosmetics – Métodos de Testes de Proteção Solar – Determinação in vitro do Fator de Proteção Solar”.

 

Fused method

“Fused method” é o nome extraoficial de uma combinação de diferentes métodos de transmissão in vitro. Um importante elemento novo, inovador desse método, é uma etapa de calibração e previsão da “taxa de dispersão”, conforme indicado no trabalho de Batzer et al. intitulado “The ‘Dispersal Rate’ - A Product Dependent Characteristic to Predict the Reliabilioty of Calibrated in Vitro SPF on WW5 Plates”.16


Nesse trabalho, os autores concluem: “Sugerimos implementar uma calibração individual do FPS in vitro para aumentar a reprodutibilidade das medições in vitro do FPS entre os diferentes laboratórios. Considerando que a taxa de dispersão ajuda a estimar a confiabilidade do FPS medido in vitro em placas WW5. Objetivando avaliar se aqueles produtos com elevada taxa de dispersão também podem ser calibrados com padrões especiais, há necessidade de novas medições. Demonstramos que, além do parâmetro conhecido, a composição dos produtos deve ser levada em consideração, para que se possa interpretar o FPS in vitro. Nossas constatações podem explicar algumas das múltiplas discrepâncias relatadas na correlação entre o FPS in vivo e o in vitro, especialmente nos FPSs mais elevados”.

 

Métodos in sílico

As tentativas de calcular o FPS e outros parâmetros de desempenho dos filtros solares começaram há mais de 20 anos. O estado da arte é resumido por Herzog e Osterwalder.18 O método in silico é muito semelhante ao método de transmitância in vitro, exceto pela medição da transmitância através da placa de PMMA rugosa, utilizada no primeiro método, aqui é substituída por um cálculo com um modelo de película de “protetor solar não uniforme” sobre a pele. Em seguida, o método in silico continua com os mesmos cálculos do método de transmitância in vitro. Exemplos comerciais de métodos in silico incluem o Sunscreen Simulator,20 da BASF, e o Sunscreen Optimizer,21 da DSM.


Para o monitoramento de mercado ou para pesquisas, o recurso simulador pode ser combinado com a análise do filtro de UV, por exemplo, seguindo a norma EM 17156.22 Essa análise, então, fornece as concentrações do filtro de UV, que podem ser plugadas no simulador. Hoje, ferramentas de simulação são facilmente obtidas na internet.20,21


Os métodos de determinação do FPS in silico estão cada vez mais populares porque geram resultados realistas e, geralmente, bastante conservadores. Os métodos in silico que usam espectros do filtro de UV dos protetores solares complementam as possibilidades oferecidas pelos métodos in vivo e in vitro. O cálculo in silico não tem, inerentemente, o componente de erro aleatório ao repetir o “experimento”. Isso significa que qualquer desvio em relação ao FPS verdadeiro é erro sistemático. O cálculo do FPS in silico também vem sendo usado por autoridades para monitorar o mercado, por exemplo, pela CVUA Karlsruhe (agência de proteção ao consumidor), na Alemanha.23,24 Nos Estados Unidos, a avaliação in silico dos produtos comerciais é relativamente fácil, uma vez que a declaração da concentração de filtros de UV é obrigatória nos rótulos dos produtos.

 

Simulador de proteção solar

Durante o desenvolvimento de novas formulações de protetores solares, é altamente desejável que tenhamos métodos rápidos e baratos para estimar o desempenho da filtragem UV. A abordagem mais conveniente para esse fim é obtida por simulações em computador, por exemplo, usando o Sunscreen Simulator, da BASF. Os modelos para o cálculo do FPS utilizam o mesmo algoritmo de cálculo do FPS usado nas medições in vitro do FPS, mas substituem a medição da transmitância calculando a absorbância geral dos filtros UV em uma película irregular de protetor solar. As simulações necessitam de uma base de dados com quantitativos do espectro de extinção UV de filtros de UV relevantes, além da descrição matemática da irregularidade da película.


O algoritmo de simulação também exige que sejam levadas em consideração as propriedades de fotodegradação dos filtros UV na composição do protetor solar. Além de valer-se dessas simulações para desenvolver novas formulações de protetores solares, os cálculos podem ajudar a conhecer do desempenho geral do protetor solar.20

 

Ferramenta para formular protetor solar

Outro simulador de protetor solar baseado em cálculos matemáticos comparados foi desenvolvido pela DSM em 2017, o Sunscreen Optimizer.21,25 Essa ferramenta in silico também é útil no desenvolvimento de formulações de protetores solares para uso diário. Esse simulador atua da mesma forma que um laboratório in silico e permite a comparação entre diferentes conceitos de formulação, em muitos aspectos do desempenho, além da comparação entre os parâmetros de formulação, como a carga oleosa e o conteúdo oleoso do filtro UV.

 

Espectroscopia de Reflectância Difusa Híbrida

A espectroscopia de reflectância difusa híbrida (HDRS ou H-DRS) baseia-se na espectroscopia de reflectância difusa não invasiva (DRS). Nesse caso, a proteção UVA (320-400 nm) é diretamente avaliada in vivo e, desde que o sinal de retorno não seja suficiente na faixa de UVB (290–320 nm), o FPS é calculado extrapolando a curva de UVA para UVB, usando dados in vitro – o que o torna um método híbrido. A Figura 3 mostra um esquema do princípio da HDRS. Atualmente existem três subtipos de HDRS: monocromática,26 que já está no mercado; policromática,27 com lançamento previsto; e multicromática com LEDs,28 ainda em desenvolvimento.


Os métodos HDRS estão sendo incluídos em normas pelo Comitê Técnico ISO/TC217 Cosméticos, com número de item e título aprovados: ISO/AWT 23698, Cosmetics Sun Protection Test Methods – Measurement of the Sunscreen Efficacy by Diffuse Reflectance Spectroscopy.

 

HDRS monocromática

O conceito HDRS vem sendo desenvolvido nos Estados Unidos por Ruvolo et al. - o primeiro DRS foi apresentado em 2009, para a determinação de FPUVA,29 depois, em 2014, para determinação do FPS.30 A sequência do desenvolvimento do DRS para torná-lo um método comercial foi um esforço multinacional liderado por Rohr et al.26, na Alemanha, com equipamento da empresa Bentham, do Reino Unido. Até o momento, centenas de amostras já foram medidas por HDRS. Os valores de FPUVA e FPS, aparentemente, têm boa correlação com os valores de UVA in vitro e in vivo, após as normas ISO 24443 e ISO 24442, e com o padrão ouro do FPS, a norma ISO 24444, respectivamente.

 

HDRS policromática

A empresa Solar Light Company desenvolveu uma versão policromática27 da HDRS que mede um sinal integral da parte UVA, combinado com uma varredura in vitro do espectro total, e isso se transforma em uma versão com projetos óptico e mecânico mais simples. Os testes podem ser realizados em menor tempo do que com o aparelho monocromático, que tem necessidade de fazer a varredura de um comprimento de onda de cada vez.

 

HDRS multicromática, LEDs

Outra abordagem usando o princípio da HDRS foi desenvolvida pela Universidade de Medicina Charité de Berlim juntamente com a empresa Courage-Khazaka, de Colônia, ambas na Alemanha.28 Nesse caso, para reduzir a complexidade do equipamento estão sendo usados LEDs como fontes de luz. O primeiro protótipo usou um LED 310 nm, o que é surpreendente, pois a UVB praticamente não é refletida. A versão mais recente usa oito LEDs que cobrem toda a faixa de UVB e UVA. A tecnologia ainda está no estágio de pesquisa e desenvolvimento, mas merece atenção.

 

Visão Geral dos Métodos Substitutos

A pressão para substituir o atual padrão ouro de avaliação do FPS continua aumentando por causa da disponibilidade de métodos alternativos e pelo engajamento das entidades interessadas. A Tabela 3 dá ampla visão do status dos métodos alternativos em comparação com o padrão ouro. Até o momento em que este artigo estava sendo escrito, nenhuma das alternativas conseguiu ficar completamente livre de problemas, mas muitas delas prometem tentar sua validação para desbancar a norma ISO 24444.

 

Validação de Métodos Alternativos para o FPS

Antes que um método alternativo possa substituir um método existente, ele precisa ser comparado com o método padrão. Os princípios e as diretrizes fundamentais para a validação de novo método estão na norma ISO Norm 5725: essa norma, denominada “Accuracy (Trueness and Precision) of Measurtement Methods and Results.31 Trueness (que significa “veracidade”), refere-se à proximidade da concordância entre a média aritmética de um número suficiente de resultados de testes e o valor real. Precision (que significa “precisão”) refere-se à proximidade da concordância entre os resultados do teste.


A validação envolve mais do que simplesmente uma correlação entre dois conjuntos de dados. Para esse caso, muitas vezes é usado um gráfico (direct plot), e o quadrado do coeficiente de correlação pode ser utilizado como um parâmetro de qualidade da correlação. Mas essa abordagem pode ser enganosa. Estudo realizado por Bland e Altman,32 publicado na revista Lancet, alerta sobre inconvenientes e sugere outra maneira de comparar os dados utilizando o gráfico de Bland-Altman. Esses gráficos de correlação, combinados com critérios de inclusão/exclusão, exigem - dependendo da variabilidade dos dois métodos que estão sendo comparados - grande número de entrada de dados para obter uma decisão de validação que não seja fortemente influenciada pela flutuação de dados aleatórios.


A validação deve prever o que vai acontecer com o novo método, após esse método tiver sido liberado para uso geral. Portanto, é preciso ir além da análise de Bland-Altman. Alguns atributos-chave que têm impacto na precisão e na variabilidade dos resultados do novo método devem ser conhecidos e entendidos. Entre esses atributos-chave, citamos:


- A variabilidade aleatória, ou seja, um erro que não pode ser controlado pelo procedimento.


- Vieses sistemáticos do método, isto é, um viés constante em relação ao método-padrão.


- Uma variação específica da amostra ou de componente da matriz – um erro específico de uma amostra ou de um grupo de amostras e não uma média obtida por retestagem.


- Qualquer viés específico do laboratório.


O componente da matriz poderia neutralizar a si próprio ao examinar amostras dos dados gerais, mas é um problema monitorar a neutralização, porque não é possível corrigi-la por parametrização e isso pode desenvolver um método particularmente errado. Por exemplo, os métodos in silico não mostram a variabilidade aleatória. Contudo, o parâmetro principal que define a veracidade é inútil para o componente específico da amostra.


Também é importante conhecer a reprodutibilidade e a repetitividade do novo método. Um “modelo do componente de variância” pode revelar esses parâmetros. Combinado com um projeto fatorial-fracionário que poderia testar não todas, mas as condições possíveis sufi cientes, como um modelo pode provar economia nos custos.

 

Projeto de Estudo Interlaboratorial

Também não é possível caracterizar e avaliar adequadamente o desempenho de um método alternativo em comparação com o padrão ouro quando algum erro percebido não pode ser repartido entre diferentes componentes, por exemplo, um desvio de laboratório, um erro de repetitividade etc., como os anteriormente descritos. Isso irá alinhar corretamente os erros às suas respectivas causas.


Por exemplo, se o viés geral for insignificante, mas puder afetar os resultados do padrão ouro, as diferenças individuais poderão ser corretamente interpretadas como causadas pelo viés do laboratório, afetando apenas o padrão ouro. Em outro exemplo, para os métodos in silico, não há nem erro de repetitividade nem viés de laboratório; mesmo assim, a determinação preliminar dos valores de absorção pode ter ficado sujeita a erros.


Considere o caso no qual, para determinado ingrediente, A, o valor de absorção da base de dados de referência, ou seja, do método in silico, tivesse um viés negativo. Nesse caso, todos os produtos que contivessem certa quantidade do ingrediente A na formulação seriam afetados por esse viés negativo. Esses exemplos ilustram por que a distinção entre as diferentes fontes de erro é importante para caracterizar corretamente o desempenho do método.


Em resumo: em muitos casos, e especialmente se o padrão ouro e o método alternativo apresentarem variações consideráveis, uma correta caracterização e avaliação do desempenho do método não é possível sem a eliminação do erro observado.

 

Método de Validação Proposto

Depois de sopesar o que foi visto até aqui, é proposto implementar um projeto experimental que possibilite a devida caracterização dos efeitos associados aos laboratórios, aos produtos e ao erro de repetitividade. Sendo mais específicos: é proposto que o projeto do teste deveria incluir três diferentes tipos de produto para abranger as formulações compostas de uma fase, duas fases e mais de duas fases, e que, para cada tipo de produto, sejam considerados três diferentes níveis de FPS, isto é, 15, 30 e 50+, resultando em nove grupos de produtos. Finalmente, em cada grupo de produto é proposto que sejam incluídos quatro produtos diferentes, visando atingir um equilíbrio entre as exigências estatísticas e a eficiência de custos.


Tendo em vista que esse projeto de teste possa resultar em uma carga de trabalho considerável, deve-se dar grande atenção à eficiência do projeto. Especialmente o uso de projetos ortogonais, conforme está descrito por Uhlig e Gowik,33 possibilita uma estimativa confiável dos diferentes componentes de variabilidade, ao mesmo tempo que assegura uma economia de recursos, com apenas quatro laboratórios participantes por método.


Juntamente com esse projeto experimental, o uso de um modelo do tipo linear misto vai possibilitar o cálculo de diferentes vieses e de estimativas de precisão: erros de repetitividade, de vieses em geral, vieses específicos dos laboratórios e vieses dos produtos. Os modelos lineares mistos possibilitarão caracterizar a variação entre vieses de laboratórios e de produtos. Na verdade, embora os vieses de laboratório e os de produto possam ser individualmente valores positivos ou negativos, também será igualmente informativo examinar as variações nos valores dos vieses.


Em outras palavras, muitas vezes, na validação do método é útil caracterizar o viés do produto ou do laboratório como desvio padrão – assim como no erro de repetitividade. O desvio padrão entre laboratórios pode, então, ser usado para prever variações esperadas no viés quando o FPS para o mesmo produto for determinado por um e por diferentes laboratórios. Ao mesmo tempo, o desvio padrão entre produtos pode ser usado para prever a variação esperada para o viés quando o FPS é determinado para diferentes produtos em um e no mesmo laboratório.



O Caminho a Seguir

Nas últimas décadas, foram desenvolvidos muitos métodos alternativos na tentativa de substituir a norma ISO 24444 FPS in vivo, e esses métodos atualmente estão sendo otimizados. Métodos in silico e in vitro parecem atraentes, pois podem ser realizados sem panelistas humanos. Esses métodos já provaram sua utilidade como ferramentas de screening, nas fases de planejamento e desenvolvimento de novos protetores solares. A HDRS é outro método alternativo baseado em uma interessante abordagem híbrida.34

Será que um método de proteção solar que não use voluntários humanos terá sucesso em termos de conformidade com as normas de rotulagem de protetores solares? Ou será que a pele humana continuará sendo um componente inevitável dos testes? As próximas etapas de validação vão nos dar algumas respostas. Enquanto isso, é recomendável usar toda a caixa de ferramentas do FPS, aplicando todos os métodos projetados, visando a segurança do consumidor.


Referências

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Este artigo foi publicado na revista Cosmetics & Toiletries Brasil, 32(3): 23-30, 2020.

Publicado originalmente em inglês, Cosmetics & Toiletries 135(4):40-DM17, 2020

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