21 de Agosto de 2018
Gestão em P&D

O jogo dos sete erros

Julho/Agosto 2018

Wallace Magalhães

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Wallace Magalhães

Quando eu era garoto, gostava muito de fazer os jogos dos sete erros que vinham em jornais e revistas. Mesmo imaginando que todos conheçam, cabe explicar que a brincadeira consiste em comparar dois desenhos aparentemente idênticos, mas que, na verdade, têm diferenças sutis. Faltava uma pétala em uma flor, o botão da camisa em um dos desenhos não tinha furos. Coisas deste tipo. Assim pensei em listar os “erros” em processos de P&D que tenho visto:

- Levar uma amostra de uma nova matéria-prima direto para a bancada: por incrível que pareça, é um erro primário, mas muito comum. Por razões tecnológicas, regulatórias e operacionais, é necessário ter a ficha técnica com a composição em INCI name, as especificações, o custo e a FISPQ para orientar a aplicação, a manipulação e a estocagem do material antes de usá-lo. Técnicos costumam solicitar a carta de alergênicos só na aprovação da essência, o que é um equívoco. O perfil de alergênicos é um parâmetro importante na seleção do perfume.

- Não revisar as características dos ingredientes selecionados para compor a formulação: faixa de sensibilidade a pH e ponto de fusão são fundamentais para ajustar modo de preparação e especificações. Como não dá para lembrar tudo, o melhor é mesmo revisar a documentação, que, obviamente, deve estar disponível de forma ordenada.

- Escrever a formulação sem modo de preparação detalhado e sem as especificações: uma formulação é um documento composto por composição, modo de preparação e especificações. Se o resultado final depende destes três itens, mesmo na fase de desenvolvimento, eles devem estar escritos.

- Preparar amostra sem verifi cação prévia do custo e da composição consolidada em INCI name: conhecer o custo de uma formulação é essencial para não gastar tempo e dinheiro com formulações de custo acima e abaixo do objetivo. Também não se pode correr o risco de exceder a concentração máxima permitida de materiais de lista restritiva,nem contrariar algum claim. Já vi produtos “paraben free” que, na verdade, tinham parabenos nos blends usados.

- Não acompanhar visualmente o processo durante todo o tempo de preparação: se em alguma etapa aparece um evento diferente, como turvação ou “aspecto caseoso”, isto deve ser registrado para que não haja surpresas ou sustos adiante.

- Não compreender os fundamentos dos protocolos de teste: conhecer bem a fundamentação dos protocolos é básico para definir os critérios e interpretar os resultados. A temperatura do teste de estufa, por exemplo, deve ser estabelecida de forma a não submeter a amostra a uma condição que possa promover alteração do estado físico ou a deterioração de algum de seus componentes.

- Não realizar estudos de segurança e efi cácia: todos os produtos devem ser submetidos a estudos de segurança. A não realização é, no mínimo, uma situação de irregularidade sanitária. É importante avaliar também a eficácia do novo produto de alguma forma, mesmo que seja obrigatória só em alguns casos. Esta tarefa é mais difícil em produtos para a pele, mas não pode ser negligenciada por isso, porque é uma exigência do mercado cada vez mais decisiva.

- Não montar o dossiê de produtos à medida que o trabalho se desenvolve: um dos prováveis objetivos da obrigatoriedade é a garantia de que a formulação ou o produto tenham sido desenvolvidos com a observância de todos os parâmetros técnicos e regulatórios cabíveis.

- Não participar da validação do processo na fase industrial: a passagem da tecnologia desenvolvida da bancada para a planta de produção é uma etapa crítica porque pode gerar alterações estruturais, que podem causar mudança de comportamento do produto. No caso de emulsões, a homogeneidade na composição e o tamanho médio dos glóbulos da fase interna devem ser verificados de alguma maneira. Neste processo, a participação de quem desenvolveu a tecnologia é fundamental.

- Não acompanhar o resultado do produto no mercado: um produto é desenvolvido para ser usado. Saber como ele se comporta no mundo real também é uma obrigação do P&D. Avaliar os números de venda e os relatos de cosmetovigilância é um procedimento que pode mostrar se os processos usados no laboratório são eficientes.

Como pôde ser visto, aqui até o título foi um “erro”, porque foram listados dez, e não sete erros. Não importa. Certamente existem outros. Como a revisão é a etapa inicial para evoluir qualquer processo, o que conta mesmo é a possibilidade de poder ajudar alguém a aprimorar os seus procedimentos de P&D, porque não existe competitividade que se sustente sem melhoria contínua.



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