18 de Outubro de 2018
Mercado

A cara da violência

Julho/Agosto 2018

Carlos Alberto Pacheco

colunistas@tecnopress-editora.com.br

Carlos Alberto Pacheco

Assim reza a Constituição Federal da República do Brasil, art.5°: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, ...”. No entanto, parece que a sociedade, como instituição, na qualidade de um ser inanimado, desconhece esta premissa. Quando o assunto é violência parece que somos bem desiguais em gênero, raça, idade, classe social, região e em outras dimensões de acordo com os dados do último Atlas da Violência publicado pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Mundialmente somos desiguais. Em 2016 foram aproximadamente 62,5 mil homicídios cometidos em solo nacional. Em outros termos é o mesmo que dizer que há uma taxa de 30,3 mortes para cada 100 mil habitantes. Esta taxa representa 30 vezes a taxa europeia. Nos últimos dez anos mais de meio milhão de pessoas perderam a vida no Brasil. Analisando o assunto por diferentes fontes de dados (ONU, OMS ou FMI as quais possuem critérios de classificação diferentes) o Brasil sempre se destaca com dados acima da média mundial, ombreando na América do Sul com a Colômbia – país com sérios problemas de insurreições civis causadas pela FARC. De acordo com o estudo da OMS (Organização Mundial de Saúde), em 2013, a taxa mundial era de 7,9 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto a do Brasil registrava 28,6. A situação nos leva a perguntar se a desigualdade de renda se correlaciona positivamente com o aumento do número de homicídios (o Brasil é o país de maior desigualdade nesta dimensão econômica).

Somos desiguais internamente também. As regiões Norte e Nordeste foram as que apresentaram as maiores taxas de homicídios. Todos os estados com taxas acima de 50 homicídios por 100 mil habitantes se encontram nestas regiões, tendo Sergipe a maior taxa: 64,7. São Paulo e Santa Catarina são os que apresentaram as menores taxas de homicídios (10,9 e 14,2). Outro fator interessante a se observar é para onde apontam os números, os quais confirmam a tendência de desigualdade entre os Estados. Apesar da taxa de homicídio nacional indicar um aumento, no período de 2006/2016 a região Sudeste apresentou uma diminuição, enquanto as regiões Norte e Nordeste contribuíram para o aumento da mesma. Esta correlação espelha também a desigualdade do PIB por região. As regiões Norte e Nordeste são as de menor geração de PIB do país.

Quem são as vítimas? Em 2016 do total de homicídios cometidos 53,7% estão na faixa de 15 a 29 anos, e apresentam uma taxa duas vezes maior que a taxa nacional: 65,5 homicídios de jovens por 100 mil habitantes, considerando a população na mesma faixa etária, ou seja, 33.590 mil pessoas, que poderiam ter sido médicos, advogados, professores, cientistas, atletas, escritores, consumidores, contribuintes da providência, saíram do cenário econômico abruptamente. A maior parte destes jovens vítimas está nos Estados das regiões Norte e Nordeste. Destaque positivo para São Paulo e Santa Catarina que apresentam as menores taxas (19,0 e 27,2) de mortalidade juvenil. Estratificando esta população jovem por gênero o número de vítimas do sexo masculino é alarmante: 122,5 homicídios por 100 mil habitantes (94,6% do total de jovens) se perderam em brigas envolvendo armas de fogo e acidentes de carro. Curiosamente esta é a fatia mais representativa dos desempregados.

A violência tem cor. A faceta mais drástica da desigualdade da violência é evidente quando se leva em conta a dimensão raça/cor. Há uma forte concentração de homicídios na população negra. É como se, em relação à violência, negros e não negros vivessem em países completamente distintos. Em 2016, por exemplo, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior a de não negros (16% contra 40,2%). Em uma década, entre 2006/2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%, enquanto a taxa entre os não negros teve uma redução de 6,8%.

A violência tem cara: é masculina, jovem, negra e habita as regiões Norte e Nordeste. Triste geração perdida.

Outras desigualdades neste estudo foram avaliadas, mas o pior de tudo é que ainda não se vê a curto/médio prazo nenhuma política pública voltada para a redução desta triste realidade. A violência continuará ceifando vidas apesar dos fortes e emocionados apelos de familiares nos telejornais perguntando “Até quando?”. A realidade é que as poucas ações de um poder de polícia incomunicável entre a esfera nacional, estadual e municipal, aliado a uma alta taxa de desemprego, além da falência moral de instituições básicas como família, escola e igreja nos deixam pouca esperança na mudança deste quadro.



Outros Colunistas:

Deixe seu comentário

código captcha

Seja o Primeiro a comentar

Novos Produtos