A volta dos cachos

Erica Franquilino

A volta dos cachos

Enfrentando a transição capilar |  Muito além do espelho |  No Poo e Low Poo

 

Aspectos fisiológicos

Técnicas de alisamento e o caminho de volta |  O gene do cabelo encaracolado |  Ondulados, cacheados e crespos

 
 
 
 
 
 Matéria publicada na revista Edição Temática outubro de 2017 - Nº 36 - Ano 12

  Depois do boom dos alisamentos – alavancado pela chegada da escova progressiva, no final da década de 1990 –, cresce o número de pessoas que escolheram fazer o caminho de volta, optando por cabelos naturais e volumosos. O retorno aos cachos faz parte de um movimento de valorização da autenticidade e da diversidade, bem como de formas mais naturais de cuidar dos fios. As demandas desses consumidores impulsionam lançamentos na indústria, a criação de salões especializados no segmento e de cursos de especialização voltados ao cuidado de cabeleiras crespas e cacheadas.
  Os fios encaracolados e crespos passaram por várias estéticas na história recente. Disciplinados pelos primeiros alisamentos no início do século passado, eles foram presos em coques e outros penteados nos anos 1950 e 1960, até chegar ao movimento black power, na década de 1970. Naquele período, vários artistas negros se destacaram no panorama musical e cinematográfico. No Brasil, Elis Regina imortalizava “Black is beautiful”, canção de Marcos Valle, em 1971.

   Nos anos 1980, a permanente – técnica que encaracolava fios lisos – virou febre. O objetivo era conferir volume aos cabelos, que também eram enrolados com a ajuda de bobes e “bigudinhos”. A predileção por fios lisos e chapados voltou a ganhar força na virada do século, quando a escova progressiva método que revolucionou o mercado de transformação capilar no país – conquistou uma legião de usuárias.
 
   A primeira década do século 21 trouxe, portanto, novas tecnologias para alterar a forma e diminuir o volume dos fios. Em contrapartida, o período também evidenciou a tendência de “desconstrução” de padrões estéticos.
   Historicamente, sabemos que os cabelos são carregados de simbolismos. Nesse sentido, a adesão aos fios crespos e
cacheados agrega o desejo de afi rmação, liberdade de escolha e quebra de paradigmas de beleza. Esse cenário integra um
questionamento maior da sociedade, em relação ao que é belo.  No que diz respeito aos cabelos, há espaço para uma profusão de estilos, em fios lisos, multicoloridos, trançados, crespos, cacheados, volumosos e cheios de personalidade.
  No entanto, a recuperação da forma original dos cabelos e a manutenção da beleza dos fios encaracolados exigem um cuidado especial. Nos últimos anos, fabricantes de cosméticos têm investido, de forma expressiva, em lançamentos para suprir a carência de produtos específicos para esses cabelos. As consumidoras passaram a contar com novos itens e formulações mais elaboradas. Além de investir no desenvolvimento de produtos voltados para esses tipos de fios, grandes marcascomeçaram a dar mais visibilidade a mulheres de cabelos cacheados em suas campanhas e ações.
 
   O surgimento de salões voltados exclusivamente ao cuidado dos cabelos crespos e cacheados também faz parte desse panorama, bem como a criação de cursos de especialização para cabeleireiros. Em outubro do ano passado, o Instituto Embelleze lançou o Curso Profissional de Cachos. “Os fios cacheados merecem atenção e técnica apurada, pois exigem tratamentos, cortes e colorações específicas. Os processos são bem diferentes de outras tipologias, e por isso é tão importante que cabeleireiros interessados em trabalhar com cabelos cacheados se especializem”, destacou o gerente de marketing do Instituto Embelleze, Eduardo Tegeler, à época do lançamento do curso.
 
   Com carga horária de 44 horas e duração de dois meses e meio, o curso é direcionado aos profissionais da área que já têm conhecimentos básicos. Nessa especialização, o aluno adquire conhecimentos sobre a fisiologia dos cachos, os tipos de tratamentos específicos para cada grau de curvatura, como lidar com clientes em transição capilar, como fazer coloração e mechas e quais são os cortes mais indicados para cada tipo de fio, além das técnicas “no poo” e “low poo”.

Enfrentando a transição capilar

   O momento é de valorização dos cabelos volumosos, que estão em evidência em campanhas publicitárias, no visual de ícones de beleza e no espelho da adolescente que nem pensa em abrir mão de seus caracóis. Contudo, para quem passou anos submetendo os cabelos a procedimentos de alisamento, o resgate dos fios naturais requer tempo e paciência.
 
   A transição capilar é o período em que a pessoa para de realizar alisamentos e deixa os fios naturais crescerem, cortando gradualmente o comprimento, para ir eliminando os fios com química. Nesse período, não é recomendável o uso de secadores, chapinhas ou modeladores de cachos para dar forma aos fios. Essa conduta, apontam os especialistas no assunto, continuaria a fragilizá-los e retardaria a “redescoberta” do volume e da textura originais dos cabelos.
   Durante a transição, os cortes continuam a ser feitos, até que os cabelos atinjam um comprimento ideal para o big chop (o grande corte), que tira todas as pontas lisas. Abrir mão de fios longos e aderir a um visual completamente diferente é uma decisão difícil, mas que encerra uma fase complicada, na qual é preciso lidar com o volume na raiz dos cabelos, que se contrapõe às pontas ainda lisas e quebradiças.
 
   São várias as formas de passar pela transição capilar, e há muita informação – produzida por quem viveu essa experiência
disponível em redes sociais, blogs e canais no YouTube. Para lidar com a diferença entre a textura da raiz e a das pontas, blogueiras indicam diversas técnicas de “texturização”, realizadas para diminuir a diferença na aparência entre as duas partes do cabelo.
   Na fitagem, uma das técnicas mais difundidas, os cabelos recém-lavados são divididos em várias partes. Durante o procedimento, cada parte recebe um pouco de leave-in para então ser penteada, com os dedos, em direção às pontas. A separação de pequenas mechas com os dedos cria “fitas”, que devem ser “amassadas” com as mãos, em direção à raiz, formando cachos depois deste movimento. A técnica é repetida em todo o cabelo, que pode secar naturalmente ou com o uso de um difusor.
 
   Os cabelos também podem ser “texturizados” por meio de técnicas como twist, coquinhos e tranças e com o auxílio de flexi rods. No twist, o cabelo é agrupado em pequenas mechas. Cada mecha é então dividida em duas partes, que são “torcidas”. É preciso esperar que os cabelos estejam secos, para então soltá-los cuidadosamente e finalizá-los de forma a conseguir o aspecto desejado. A técnica dos coquinhos consiste em separar o cabelo em pequenas mechas e, depois, formar “minicoques” por toda a cabeça. Tranças feitas em cabelos umedecidos também garantem volume e aspecto encaracolado depois da secagem.
 Já o flexi rod – uma espécie de “bigudinho” flexível, revestido com borracha – proporciona maior duração do efeito cacheado. O mecanismo é o mesmo dos bobes, mas o produto oferece maleabilidade e liberdade para definir os cachos.

Muito além do espelho

   Pessoas que estão passando pela fase de transição capilar são ávidas por informação. Nesse contexto, mulheres que decidiram compartilhar suas experiências na internet – por meio de blogs e vídeos postados no YouTube – tornaram-se experts no assunto e ajudaram a alavancar o movimento de adesão aos cachos. Tutoriais, resenhas de produtos e receitas caseiras para o cuidado, a hidratação e a finalização dos cabelos conquistam seguidoras, que estabelecem uma relação de confiança com as influenciadoras
digitais.
 
    Em muitos casos, esses conteúdos vão além das questões relacionadas à estética: entre um vídeo e outro sobre novos procedimentos e produtos para conseguir cachos perfeitos, há quem fale sobre temas de destaque na atualidade, sobre identidade negra, sexualidade, autoconfiança, autoestima...
 
   O relacionamento com as blogueiras também chega à vida off-line, nos chamados “encontros de cacheadas”. São eventos de confraternização criados por blogueiras – por vezes em parceria com marcas ou entidades – para troca de informações, com sorteios, brindes, demonstração de produtos e dicas de penteados e uso de acessórios.
   Realizada em maio deste ano, em Recife, a quarta edição do evento elaborado pelo grupo “Crespas e Cacheadas PE” teve uma programação diversificada, que incluiu: feirinha de artesanato e de cosméticos; palestras sobre temas relacionados ao racismo e à violência contra a mulher; oficinas de tranças e demonstrações de produtos; workshops sobre coloração e penteados; e desfile de cacheados.
 
   Organizada pelo projeto Hot Pente, que une referências do hip hop, do grafite, da moda e do street dance, e pelo Blog das Cabeludas, a “Marcha do Orgulho Crespo” chegou à terceira edição no dia 5 de agosto, com passeata pela avenida Paulista,
em São Paulo, e atividades como debates, oficinas e shows.
   Iniciativas desse tipo acontecem por todo o país, com diversos formatos e propostas. Em junho deste ano, o Colégio do Salvador, em Aracaju, realizou o Festival Cabelos Lindos, com o tema “Meu cabelo não é moda, é identidade. Solte o cabelo e prenda o preconceito”. Meninos e meninas – da educação infantil ao ensino médio – contaram histórias e dificuldades, vivenciadas em razão do seu tipo de cabelo. O encontro também abordou dicas de penteados e cuidados para cabelos cacheados e crespos, além de um desfile, que exaltou todos os tipos de beleza.

A onda perfeita

 
 
              Pesquisas apontam que a “revolução” das crespas e cacheadas está apenas começando. As marcas se
   alinham a esse movimento, com ações e lançamentos para atender às demandas de um público ávido por novidades
 

 No ano passado, as buscas pelo termo “cabelo cacheado” no Google superaram, pela primeira vez no Brasil, as pesquisas voltadas ao cabelo liso. A informação faz parte de um estudo conduzido pelo programa Google BrandLab, segundo o qual o interesse por fios encaracolados aumentou 232% no país em 2016. Em outubro do ano passado, a cacheada Raissa Santana foi eleita Miss Brasil. A paranaense foi a segunda negra a vencer o concurso, muito tempo depois da eleição de Deise Nunes – dona de uma vasta e crespa cabeleira –, em 1986. Em agosto deste ano, foi a vez da piauiense Monalysa Alcântara, a terceira negra coroada em toda a história do tradicional concurso de beleza. Embora o evento não exerça sobre os brasileiros o mesmo fascínio de décadas atrás, a presença da diversidade entre as candidatas e as vitórias de Raissa e Monalysa são emblemáticas.

   Monalysa, a garota de 18 anos que ganhou o concurso, revelou que passou a aceitar seus cachos inspirada pela youtuber Rayza Nicácio, presente como repórter no evento. Rayza tem mais de 1 milhão de seguidores em seu canal no Youtube, no qual fala sobre vários temas, como moda e comportamento, com foco no universo das cacheadas.
 
   Em janeiro deste ano, Rayza celebrou a marca de 1 milhão de inscritos com uma festa realizada pela Dove. Durante a comemoração, a marca da Unilever fez a divulgação da campanha “Ame seus cachos”, adaptação da iniciativa global “Love Your Curls”, cujo objetivo é incentivar meninas e jovens a amarem seus cabelos cacheados. A campanha promoveu o lançamento da linha de produtos para cabelos cacheados da marca no Brasil, a Dove Ultra Cachos, composta por shampoo,condicionador, creme de tratamento e creme para pentear.
 
   As bandeiras do empoderamento feminino e da autoestima, somadas à força das influenciadoras digitais, constituem uma parte importante do movimento de valorização dos cabelos naturais. Nesse contexto, cada vez mais pessoas buscam informações sobre “cabelos cacheados” na internet e novidades nas prateleiras. A indústria cosmética está atenta a essa onda, que não tem nada de passageira.
   De acordo com o Censo 2010, a população negra e parda é maioria no Brasil: 50,7% de um total de 190.732.694 pessoas.A miscigenação, tão característica do país, é um dos aspectos que explica a variedade de tipos de cabelos entre os brasileiros.Uma pesquisa realizada em 2012 pela Unilever, em parceria com a Kantar Worldpanel, revelou que 51,4% das brasileiras têm os cabelos originalmente cacheados ou crespos.

Segmento em ascensão

   O Brasil é o quarto maior mercado consumidor de produtos para cabelos no mundo e deve encerrar 2017 com estabilidade em volume e alta de 1% em valor em relação a 2016, segundo estimativa da Euromonitor. A tendência, de acordo com projeções da consultoria, é de que o aumento anual até 2021 chegue a cerca de 5%, em volume e valor.
 
   O consumo na categoria segue concentrado em shampoos e condicionadores. Cresce, no entanto, a demanda por produtos para tratamento e finalização, sobretudo em um cenário de queda nas visitas aos salões de beleza. Dados divulgados pela Nielsen, com base nos meses de janeiro a setembro de 2016, revelam que 2,9 milhões de lares brasileiros pararam de frequentar salões de beleza no período, em comparação com o mesmo intervalo de 2015. Nesse panorama, e considerando as mudanças comportamentais dos consumidores, o segmento de produtos para cabelos cacheados ascende como uma das principais apostas da categoria.
    Em nível global, produtos capilares representam 17% do mercado mundial de beleza, de acordo com a Euromonitor, que aponta como uma das grandes tendências em hair care a dupla diversidade/multiculturalidade. Esse direcionamento está na pauta de gigantes como a Unilever, que tem investido em lançamentos e ações para consumidores de cabelos crespos e cacheados.
 
   No final de 2014, a Dove lançou a campanha “Love your curls”, que precedeu o lançamento da linha Dove Quench, direcionada a pessoas com cabelos cacheados, nos Estados Unidos. Um vídeo no Youtube apresentava meninas que se sentiam envergonhadas por seus cabelos cacheados, mas que, graças ao apoio de outras mulheres, conseguiam resgatar a autoestima e enxergar a beleza dos fios. Em dois dias, o vídeo teve quase 3 milhões de visualizações.
   Em 2015 – também como parte da estratégia de lançamento da linha Dove Quench –, a Dove anunciou a criação de um teclado com emojis de cabelos encaracolados. A ideia surgiu após a constatação de que os aplicativos de mensagens instantâneas não contemplavam as mulheres que não possuem fios lisos.
   A Seda, também da Unilever, intensificou o diálogo com consumidoras e influenciadoras brasileiras para desenvolver uma nova linha de produtos para cabelos crespos e cacheados, a Seda Boom – apresentada em setembro deste ano. Com apelo jovem, o lançamento tem a comunicação alinhada ao universo das youtubers e conta com um time de embaixadoras composto por nove
influenciadoras digitais. O destaque é Rayza Nicácio, mencionada anteriormente.
 
    A Embelleze produz itens especialmente desenvolvidos para mulheres cacheadas e crespas desde 2014. “Entendemos que não se trata de uma tendência e sim de uma quebra de paradigmas, que engloba questões sociais e comportamentais. É o empoderamento que vem de dentro para fora e que também se expressa por meio da aceitação dos fios naturais”, afirma Jomar
Beltrame, vice-presidente do Sistema Embelleze. O portfólio da marca tem 70 produtos elaborados para esse público.
   No primeiro semestre, a Embelleze fez diversos lançamentos no segmento, com destaque para o spray condicionante da linha Novex Meus Cachos Santo Black Poderoso Desata Nós, a família Novex Meus Cachos de Cinema e as Manteigas Ativadoras, também da linha Novex. Todos os produtos são liberados para as técnicas no poo e low poo.
  Beltrame destaca o sucesso da família Novex Santo Black Poderoso, cujos produtos são formulados com óleo de semente de baobá. “A semente de baobá é composta por um blend das vitaminas A, B, D, E e F, além de ômega 3, 6 e 9, que se destaca pela ação extremamente hidratante e pelo poder de emoliência. Esse é um ativo de fácil absorção, que tem a capacidade de devolver o brilho aos fios com muita rapidez. É ideal para cabelos cacheados, principalmente para os mais crespos”, comenta.
   O primeiro item da linha Novex Santo Black Poderoso foi o creme de tratamento, em embalagem de 1 kg. “O sucesso devendas nos fez aumentar a família, e hoje ela é composta por creme de tratamento, creme para pentear, shampoo, tratamento condicionante, óleo multifuncional e spray condicionante, lançado recentemente”, conta. “Nossos cremes para pentear, disponíveis nas versões de 300 e 500 gramas, também têm uma excelente aceitação no mercado, assim como as manteigas”, acrescenta.
   Com forte presença digital, a marca mantém perfis institucionais nas redes sociais e trabalha com um time de 35 influenciadoras, entre mulheres com cabelos ondulados, cacheados e crespos. “Nos preocupamos em formar um grupo bem diverso e engajado. São elas as primeiras a receberem nossos lançamentos e a nos passarem os principais feedbacks”, diz.
  A empresa também realiza ações de integração entre as mídias online e offline, por meio de merchandising em novelas e programas de TV, encontros em pontos de venda com a presença de influenciadoras digitais, dentre outras iniciativas para falar
de perto com os consumidores. O executivo adianta que estão previstos diversos lançamentos e novidades para 2018.
  
 
  Inocência Manoel, fundadora da Inoar, comenta que praticamente todos os produtos da marca são liberados para as técnicas low poo, no poo e co-wash, muito utilizadas pelos consumidores de cabelos crespos e cacheados. “Há duas linhas dedicadas a esses tipos de cabelos: a Cachos Online, com cremes para pentear para as diferentes curvaturas de cachos; e a Divine Curls, vencedora do prêmio Allure de 2017 nos Estados Unidos, dentre mais de 10 mil produtos”, ressalta. Em setembro deste ano, a Inoar recebeu o selo Best of Beauty, concedido pela revista Allure. Os itens da linha Divine Curls foram considerados os melhores na categoria Cabelos Cacheados. Atualmente, os produtos da Inoar estão presentes em mais de 40 países.
   “Além de Cachos Online e Divine Curls, lançamos neste ano a linha Minha Vó Fazia. Apesar de não ser exclusiva para cabelos cacheados ou crespos, ela oferece muitos benefícios para essa categoria, por trazer um pré-shampoo nutritivo que podeser utilizado também para umectação”, aponta. Os campeões de vendas da marca no segmento são os cremes para pentear da linha Cachos Online.
  “O shampoo e o condicionador da linha Divine Curls também são especiais, pois contêm ingredientes altamente hidratantes e que controlam o frizz por horas. Eles mantêm a memória dos cachos, valorizando esse tipo de cabelo”, afirma.
   Inocência ressalta que a Inoar conquistou uma grande proximidade com o consumidor final nas redes sociais e investe nessa estratégia, com conteúdo próprio, produzido pela mesma equipe que desenvolve as linhas. “Todos entendemos muito rapidamente as demandas e conseguimos trabalhar a comunicação da embalagem no ponto de venda. Além disso, estamos na mídia especializada e participamos de eventos de grande porte, como a última edição da Beauty Fair”, diz.
   No que diz respeito ao potencial de crescimento do segmento, ela destaca o caráter “libertador” do movimento de valorização dos cabelos crespos e cacheados e que a tendência é de fortalecimento desse mercado, que deve aumentar o investimento em ingredientes botânicos. “O mesmo consumidor que busca liberdade para definir seu look é o que quer saber o que existe dentro da embalagem. Não testar em animais e não utilizar produtos de origem animal, é tão importante quanto ter liberdade de escolha”, acredita.
 
   O último lançamento da Mutari para fios crespos e cacheados é a linha Black Mult Cachos, liberada para os adeptos do no poo/low poo e desenvolvida para definir e modelar todas as curvaturas. A formulação dos produtos combina os óleos de pequi, coco, algodão e PCA sódico.
   Outros destaques da Mutari são as linhas: Cachos do Brasil, formulada com açaí, coco, castanha-do-pará, pequi e erva-mate; Coconut, para o tratamento de cabelos ressecados e porosos, com óleo de coco, queratina, quitosana e PCA sódico; e a Suplemento Power Hair. “A suplementação capilar atua na reposição de massa em fios fragilizados. É ideal para quem está em transição capilar, com os cabelos ressecados, porosos e quebradiços. A linha traz os ativos: tutano vegetal, creatina, colágeno vegetal e proteína do trigo”, explica Josiele Gonçalves, técnica da Mutari.
   Entre os itens mais vendidospara o segmento, estão o Ativador de cachos da linha Cachos do Brasil e a Manteiga Modeladora de Pequi, da linha Black Mult Cachos. Além da presença em redes sociais, a marca investe no treinamento de distribuidores e cabeleireiros parceiros. “As mulheres cacheadas desejam um profissional de confiança, que saiba distinguir as necessidades de cada curvatura”, comenta.
   “Para o home care, a tendência é o uso de produtos que auxiliem na manutenção de cachos, atuando na reposição do que esses cabelos normalmente mais necessitam, como definição, umectação, hidratação e brilho intenso. Para o profissional, a aposta está em produtos que auxiliam na abertura e definição de cachos, sem agressões e com técnicas modernas”, diz.
 
    Recentemente, a Salon Line lançou a campanha “Salon Line, transforme-se em você”. “Foi uma ação toda feita com consumidoras. Nós as transformamos em nossas modelos”, diz a gerente de marketing Kamila Fonseca. Ela ressalta a proximidade entre a marca e as consumidoras. “Trabalhamos muito com cocriação, e nossas consumidoras participam ativamente das pesquisas prévias e do desenvolvimento de produtos”, afirma.
   As linhas específicas para cacheadas são a S.O.S Cachos, a #todecacho e a Creme para Pentear. Kamila comenta que outras linhas da marca, como a S.O.S Bomba de Vitaminas, também atendem às demandas desse público.
   A estrela do portfólio é a linha #todecacho, “que há dois anos revolucionou o mercado e criou uma categoria de cuidados específicos, classificados pelo tipo de cacho da consumidora. São mais de 70 produtos, dentre eles a famosa Maionese Capilar e as  Gelatinas para misturinhas”, salienta.
   As últimas novidades da linha são: #todecacho Babosa (composta por shampoo, condicionador, máscara e gel de babosa) e #todecacho Men (com shampoo, condicionador e creme para pentear). Na família S.O.S Cachos, foram lançadas as variantes Rícino e Queratina, ambas com shampoo, condicionador, máscara e ativador de cachos.
   “Acreditamos que assumir os cachos e voltar a usá-los de forma natural não seja moda, nem tendência. Cada vez mais, as mulheres se aceitam como são e acentuam sua beleza natural. Vemos que o mercado ainda vai crescer e se fortalecer. É preciso continuar inovando para manter a liderança, trazendo soluções cada vez mais inovadoras para essas mulheres”, conclui.

Aspectos fisiológicos

 
                 Conheça a estrutura dos fios e outras particularidades relacionadas aos cabelos crespos e cacheados
 
   
  Cabelos crespos e cacheados demandam cuidados especiais. Devido à forma espiralada dos fios, a oleosidade do bulbo capilar tem dificuldade para chegar até as pontas. Em razão desta e de outras características, eles têm maior tendência ao ressecamento e à quebra. Além da menor lubrificação ao longo do fio, cabelos encaracolados apresentam grande assimetria entre as camadas de cutículas, e o simples ato de penteá-los ou secá-los pode ocasionar danos em pontos específicos da fibra.
   Os cabelos podem ser classificados em três tipos, de acordo com as etnias: caucasiano (levemente ondulado), oriental (liso) e negroide (crespo). As variações na curvatura da fibra e na forma da secção transversal dos cabelos são determinadas geneticamente. A secção transversal do fio pode tender, de forma mais ou menos acentuada, para um círculo. O cabelo negroide tem alto grau de irregularidade no diâmetro ao longo da fibra, quando comparado aos demais tipos, e a secção transversal é mais oval do que a dos cabelos caucasianos e asiáticos.
 
     O cabelo do tipo negroide tem menos resistência ao estiramento, demanda o uso de maior força para ser penteado e apresenta 
menor conteúdo de água em relação ao cabelo caucasiano. Contudo, no que diz respeito às características químicas – como a concentração de aminoácidos –, os cabelos caucasiano, negroide e asiático não apresentam diferenças significativas.
    “Os cabelos crespos e cacheados têm essa forma devido à distribuição da queratina dentro da haste capilar. Para criar essa curvatura, a queratina fica distribuída de uma forma elíptica, isto é, mais de um lado da haste e menos do outro. Isso leva a uma certa fragilidade da haste”, diz o médico tricologista Valcinir Bedin.
 
   O químico Adriano Pinheiro, diretor-executivo do grupo Kosmoscience, explica que o formato elíptico acontece em razão de duas hipóteses principais: a posição inclinada do folículo capilar em relação à derme e a morfologia interna do córtex, formada pela mistura de duas fases, denominadas ortocórtex (região menos resistente docórtex, com queratina amorfa em sua composição) e paracórtex (região mais rígida do córtex, formada por uma queratina cristalina e de maior resistência).
   “Essa composição explica o formato ondulado desses cabelos, pois ocorre a presença de um conjunto de estruturas hexagonais de macrofibrilas altamente densificadas e cristalinas, associada à presença de vacâncias e porosidade interna.
 
   Esses fatores tornam esses fios mais fracos e menos resistentes. A configuração de cachos dificulta o pentear e não permite que as fibras se mantenham hidratadas, caracterizando-as como mais ressecadas, com alto potencial formador de frizz e difícil manuseio”, comenta.

Técnicas de alisamento e o caminho de volta

   Em síntese, os cabelos são constituídos por proteínas formadas por longas cadeias de aminoácidos, ligadas entre si por diferentes tipos de interações. A principal proteína presente no fio é a queratina, que é rica em enxofre, o que permite uma grande quantidade de interações, denominadas pontes dissulfeto – responsáveis pela manutenção do formato dos fios.
   Em razão da estrutura mais frágil, cabelos crespos e cacheados são bastante suscetíveis aos danos causados por procedimentos químicos, como o alisamento. “Para conseguir o alisamento perfeito, é necessário que se abra a cutícula, para destruir as pontes químicas que fazem essa forma cacheada existir, e, depois, refazer essas pontes com o fio alisado. É claro que estes procedimentos podem levar à quebra dos fios ou, em menor escala, a sua fragilização. Pode haver um afinamento dos fios, com a perda de volume de queratina e a fragilização da haste, levando a uma maior condição de quebra”, diz Bedin.
 
    Os alisantes, denominados relaxantes químicos pelas regulações sanitárias, têm efeito permanente nos cabelos. As opções disponíveis no mercado oferecem graus variados de eficiência – e de possíveis danos à fibra capilar. Pinheiro informa que os alisantes alcalinos podem conter entre 1,0-10,0% de hidróxido de sódio, hidróxido de lítio, hidróxido de cálcio, ou uma combinação desses ingredientes, denominados “lye” cáusticos – que são irritantes. As composições de carbonato de guanidina e hidróxido de cálcio são denominadas relaxantes “no-lye” (ou não cáusticas), caracterizadas por menor potencial de irritação.
    “Este pH elevado da emulsão (9,0 - 14,0) causa o intumescimento da fibra capilar, permitindo que o agente alcalino (OH-) penetre nas fibras do cabelo, até a endocutícula. No contato com o córtex, o produto reage com a queratina, quebrando e reorganizando as pontes de dissulfeto, que fazem a molécula de queratina espiral tornar-se macia, alcançando o alisamento”, explica. Esse processo pode tornar o cabelo  suscetível ao atrito, reduzindo sua resistência e força.
   Nos alisantes alcalinos, não há necessidade de utilização de calor, por causa do fenômeno chamado “supercontraction”, que fornece tensão suficiente para alisar a fibra em uma base permanente. Já em procedimentos como a escova progressiva, o processo térmico é essencial para promover o alisamento.
 
    Nos anos 2000, a escova progressiva conquistou imensa popularidade, por atribuir aos cabelos um aspecto suave e natural.
A técnica, contudo, foi alvo de controvérsias, em virtude das altas concentrações de formaldeído. Os produtos mais utilizados, naquele período, continham uma solução de formaldeído a 37%. Depois da proibição da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do uso de qualquer produto que contivesse formaldeído em concentrações superiores a 0,2%, chegou ao mercado a escova progressiva à base de ácidos.
  “O mecanismo de ação para o alisamento por meio da aplicação de ácido não acontece pela reação entre o formaldeído e o cabelo, mas pelo meio reacional ácido, que provoca alterações químicas significativas na estrutura dos aminoácidos, pela reação entre o radical aldeídico com os grupamentos amínicos e as pontes dissulfeto. Por outro lado, o radical ácido, também reagido com os grupamentos amínicos e as pontes dissulfeto, após enxágue, e associado ao calor de 180ºC a 230°C, origina uma estrutura biopolimerizada de característica hidrofóbica, conferindo o efeito de alisamento dos cabelos”, descreve o químico.
   
   Na contramão das opções de alisamento existentes no mercado, está a tendência de valorização da forma natural dos cabelos. Um número crescente de pessoas que submeteram os fios às técnicas descritas anteriormente, deseja resgatar seus cabelos encaracolados.
     Uma vez tomada a decisão de abandonar a realização de alisamentos,tem início a fase conhecida como transição capilar. Essa etapa termina com o big chop (grande corte), deixando apenas os fios naturais. Esperar que os cabelos cresçam, sem fazer uso de qualquer procedimento químico ou recorrer ao uso de modelador e chapinha, são formas de passar por esse período. A segunda alternativa, entretanto, é desaconselhada por especialistas, por fragilizar os fios. “Se houver necessidade, pode-se lançar mão de tratamentos que reponham a queratina perdida, como a cauterização química”, aponta Bedin.
    O caminho de retorno aos cachos demanda tempo. No entanto, para atender ao desejo de pessoas que querem retomar o visual cacheado mais rapidamente, salões oferecem procedimentos químicos para reverter fios lisos em cachos, com aspecto natural. Pinheiro ressalta que esse tipo de procedimento requer extremo cuidado e só pode ser realizado em cabelos modificados por meio da escova progressiva e não por outros tipos de alisamento.
   “Quando a consumidora submete os cabelos à escova progressiva pela primeira vez, ocorrem reações pontuais ao longo de toda a fibra capilar. Cabe ressaltar, contudo, que depois de uma única aplicação, grande parte da fibra permanecerá com ligações químicas naturais ainda intactas. Nesse sentido, é possível trabalhar na reversão do efeito liso em cachos. Para tanto, cabe ao cabeleireiro conhecer e possuir o prontuário de cada cliente”, orienta.
 
   A Kosmoscience realizou um estudo para verificar se esse tipo de procedimento é seguro parao consumidor. “Utilizamos o ingrediente mais comum no mercado para esse tipo de técnica, o ácido acetil glicólico”, comenta. Segundo Pinheiro, quando
a pessoa fez somente uma escova progressiva, abiopolimerização ocorre em apenas alguns pontos da fibra capilar. Nesse caso, é possível realizar o procedimento químico para cachear os cabelos com menor risco de danos.
   “Em históricos acima de cinco aplicações de progressiva, a reversão para cachos se torna grave, porque esse cabelo já está bem polimerizado. O contato com a substância que formaria esse cacho causaria a quebra do cabelo”, ressalta. “Nesses casos, a consumidora deverá ter paciência e aguardar o crescimento dos fios”, acrescenta. O químico reforça que a reversão é segura quando os fios foram submetidos anteriormente a uma ou, no máximo, três escovas progressivas.

Curvas poderosas

 

 

 

Ativadores de cachos, soluções para aumentar ou diminuir o volume, máscaras de tratamento, inalizadorese itens elaborados especialmente para a fase de transição fazem parte do arsenal de opções oferecido aos consumidores. Confira uma seleção de destaques da indústria, em produtos para hidratar, nutrir, definir e ressaltar a beleza de todos os tipos de cachos.

 
 

 
                                                           

 


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Silsoft* Silk PMF
INCI Name: Silicone Quaternium-18 (and) Trideceth-6 (and) Deceth-7 (and) Cocamidopropyl Betaine (and) Dipropylene Glycol

Silsoft* Silk PMF é uma microemulsão de silicone quaternizado que possui ação condicionante e alta substantividade aos fios e confere diversos benefícios aos cabelos cacheados como melhora da penteabilidade a úmido e seco, redução de frizz , definição dos cachos e brilho sem residual oleoso, além de proporcionar sensorial único deixando os cabelos leves, soltos e sedosos.

ProCutiGen® Hold
INCI Name: Phyllostachys Bambusoides Extract

ProCutiGen® Hold são lipopeptídeos derivados do bambu, que devido sua tecnologia inovadora "ProBonding" confere proteção proativa para os fios evitando os danos causados por processos de aquecimento dos fios além de auxiliar na maior duração dos penteados. 

CITROFOL BII
INCI Name: Acetyl Tributyl Citrate

Controle natural dos cachos, brilho, força, e cuidados com o couro cabeludo são alguns dos atributos associados aos tratamentos desta atual necessidade das consumidoras brasileiras. Para atender este novo posicionamento, alguns ingredientes são classificados como permitidos para o cuidado dos cachos, e observamos que há uma preferência pelos de origem natural e suaves. Quando falamos de ésteres formadores de filme que proporcionam brilho e proteção da fibra, a novidade é o CITROFOL BII que tem derivação natural e é um formador de filme natural flexível, ajuda na retenção dos cachos com performance e propriedade. É uma alternativa aos silicones e ésteres derivados petroquímicos.

HAIRSPHERES AG XP
INCI Name: Consultar documentação técnica

Tecnologia Spherulites para uma reparação multidimensional dos cachos, composto por óleo de abacate, ceramidas e ácidos graxos em microcápsulas que permitem uma entrega gradual e prolongada, possui altíssima atratividade com a fibra capilar com ação de até 96 horas, mesmo após processo de lavagem dos fios. Maior reparação da estrutura capilar proporciona o fortalecimento, hidratação e fortalecimento, para cachos e fios em fase de transição.

DISTINCTIVE COCONUT WATER
INCI name: Cocos Nucifera (Coconut) Liquid Endosperm (and) Glycerin (and) Cocos Nucifera (Coconut) Fruit Juice

A água de Coco coletada dos cocos maduros tem sido de amplo consumo no mercado de alimentos durante muitos anos. Distinctive® Coconut Water é produzido com base na extração da água de cocos maduros num processo a frio. Usando somente o concentrado de água de coco processada a frio como matéria prima, o produto final retém inestimáveis nutrientes e antioxidantes trazendo os benefícios de hidratação, revitalização e equilíbrio para os cabelos.

QUINOA PRO EX
INCI name: Hydrolyzed Quinoa

Proteína natural com propriedades multifuncionais, rica em aminoácidos que penetram no córtex capilar para um poderoso efeito booster na proteção e retenção da cor, confere cabelos saudáveis e com alto brilho.
 
 

 

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