19 de Outubro de 2018

Fotoproteção

Edicao Atual - Fotoproteção

Editorial

Um dia de cada vez

Velha inimiga da economia brasileira, a infl ação mina o poder de compra da população. No ambiente de incertezas em que estamos vivendo, com a crise política inevitavelmente produzindo reflexos na atividade econômica.

A atividade industrial no país registrou queda de mais de 13% em 2015 (IBGE) e o desemprego já atinge mais de 10% da população brasileira, mais de 20% entre jovens. Apesar dos índices de atividade e de inflação, e do superávit comercial, entre outros, mostrarem resultados positivos, na realidade são indicativos indiretos da estagnação da economia.

As peças estão se movendo no tabuleiro, resta aguardar pelo xeque-mate.

Esta edição de Cosmetics & Toiletries Brasil traz, na seção Enfoque, uma reportagem sobre claims e rotulagem de produtos. A matéria aborda os aspectos regulatórios e de marketing relacionados às informações que chegam ao consumidor, bem como as ferramentas científicas utilizadas pela indústria para comprovar os diferenciais do produto. A seção Persona apresenta a trajetória de Clélia Angelon.

Os artigos técnicos trazem interessantes trabalhos sobre proteção solar, sobre o uso de tensoativos em produtos de limpeza facial e corporal, e sobre problemas de estabilidade em base faciais, entre outros assuntos. Esta edição é especial, traz o Programa Oficial do 29º Congresso Brasileiro de Cosmetologia, sob o tema “Criatividade e Inspiração – o poder da transformação”, e será distribuída a todos os congressistas.

Boa leitura!

Hamilton dos Santos
Publisher

Proteção Solar: Passado, Presente e Futuro - John Jiménez (Departamento de Inovação e Desenvolvimento da Belcorp, Bogotá, Colômbia)

O passado mostra o esforço do ser humano para se proteger da radiação solar. Atualmente, existem muitos avanços científicos e faltam ações de harmonização da legislação e a garantia de acesso às melhores tecnologias. No futuro, as empresas vão destinar esforços para compreender os efeitos da radiação UVC e vamos ver as novas tendências guiando a inovação.

El pasado muestra el esfuerzo humano para protegerse de la radiación solar. En el presente hay muchos avances científicos aunque faltan acciones para armonizar las legislaciones y garantizar acceso a las mejores tecnologías. En el futuro las empresas destinarán esfuerzos para entender los efectos de la radiación UVC y veremos nuevas tendencias que direccionarán la innovación.

The past shows the human effort to protect themselves from solar radiation. At present there are many scientific advances but there are not enough actions to harmonize legislation and ensure access to the best technologies. In the future companies will make efforts to understand the effects of UVC radiation and we see new trends that will guide innovation.

Comprar

Tensoativos na Limpeza Facial e Corporal - Eric Abrutyn (TPC2 Advisors Ltd., Inc. - Delray Beach, FL, Estados Unidos)

Os produtos de limpeza facial e corporal representam um segmento importante na indústria de cuidado pessoal. Neste artigo o autor aborda o uso de tensoativos em formulações desse tipo de produtos.

Los productos de limpieza facial y corporal es un importante segmento de la industria del cuidado personal. En este artículo, el autor describe el uso de tensioactivos en formulaciones de tales productos.

The facial and body cleansing products is an important segment in the personal care industry. In this article the author discusses the use of surfactants in the formulation of such products.

Comprar

Problemas de Estabilidade e Uniformidade em Bases Faciais - Peter Tsolis, John Castro (The Estée Lauder Companies, New York, NY, Estados Unidos)

As bases faciais representam, em valor, mais do que um terço do mercado de maquiagem, e têm atributos perfeitamente percebidos pelo consumidor. Neste artigo, os autores fazem uma compilação dos principais passos a serem seguidos no desenvolvimento desses produtos, de modo a assegurar os benefícios e a performance durante a sua vida útil.

Las bases faciales representan, en valor, más de un tercio del mercado de maquillaje y tienen atributos bien percibidos por el consumidores. En este artículo los autores hacen una recopilación de los principales pasos a seguir en el desarrollo de estos productos, con el fin de garantizar los benefi cios y el performance durante su vida útil.

The foundations represent, in value, more than a third of the makeup market and their attributes are well perceived by the consumer. In this article the authors make a compilation of the main steps to be followed in developing these products, in order to ensure the benefits and the performance over its useful life.

Comprar

Análise Sensorial na Avaliação de Performance e Qualidade - Suélyn Féderle, Mariana Cristina Marcolini, Juliana Teixeira Bueno, Dayane Seco Carrari Budie, Márcio Lorencini, Valéria Maria Di Mambro (Grupo Boticário, São José dos Pinhais PR, Brasil)

Um dos importantes fatores para o desenho de um estudo sensorial é a escolha da escala apropriada para a coleta dos dados. As escalas mais utilizadas são a categórica e a linear, sendo que a seleção deve considerar aspectos técnicos. A escolha também afeta o tipo de análise estatística aplicada aos dados.

Uno de los puntos importantes del diseño experimental de un estudio sensorial es elegir la escala apropiada para recopilar los datos. Las escalas más utilizadas son lineal y categórica y la selección debe tener en cuenta aspectos técnicos. La selección también afecta el tipo de estadística que se aplicará.

One of the important points of a sensory study design is to choose the appropriated scale for data collecting. The most used scales are categorical and linear and the selection must take into account several technical aspects. The choice also affects the type of statistic analyzed applied to the data.

Comprar
Carlos Alberto Pacheco
Mercado por Carlos Alberto Pacheco

Diferenciação sempre, mais em tempos de crise

As empresas estão constantemente tentando diferenciar sua oferta de mercado da de seus concorrentes. Elas sonham com a prioridade de suas marcas na mente dos consumidores por meio de serviços e produtos diferenciados oferecidos aos clientes fiéis. Quando as empresas obtêm com sucesso este sonho dourado, a concorrência logo copia o modelo, neutralizando em pouco tempo as vantagens competitivas obtidas. Com isso, o ciclo recomeça.

Portanto, não é incomum - o que até é saudável- que, durante o ciclo de vida do produto, as estratégias de marketing diferenciem-se a fim de estender ao máximo a vida do produto e sua lucratividade, e é fundamental entender desde o início que o produto não durará para sempre.

Mas como fazer a diferenciação contínua? Em primeiro lugar, vamos à definição: diferenciar-se é desenvolver um conjunto de diferenças significativas para distinguir a oferta da empresa da oferta da concorrência. Note que diferenciar não é o mesmo que inovar. Inovar é um assunto para outro artigo.

O número de oportunidades de diferenciação varia de acordo com o setor da empresa. Os setores podem ser agrupados numa matriz de competitividade de duas dimensões: Tamanho da vantagem x Quantidade de maneiras diferentes para conseguir a vantagem. Cada setor oferece tamanhos de vantagens diferentes, e a quantidade de abordagens para conseguir estas vantagens pode ser maior ou menor. Costuma-se dividir os setores em quatro tipos de vantagem competitiva:

- Setor de volume: é composto por empresas que podem obter grandes vantagens competitivas em virtude do volume total do mercado, porém são poucas as maneiras de obtê-las e, em geral, essas vantagens competitivas são facilmente imitáveis pelos concorrentes.

- Setor estagnado: são as empresas que atuam basicamente com commodities e, por conta disso, podem obter apenas pequenas vantagens competitivas e de pouquíssimas maneiras diferentes, podendo ser plagiadas a qualquer momento e sem esforço.

- Setor fragmentado: corresponde às empresas que encontram uma grande quantidade de formas de se diferenciar, porém a vantagem competitiva que qualquer uma delas pode trazer será sempre pequena, o que no fundo não maximiza tanto o seu mercado.

- Setor especializado: aqui encontramos as empresas que possuem um grande número de possibilidades de diferenciação e todas elas têm um alto retorno, sendo, em geral, diferenciações que dificilmente são copiadas ou que são plagiadas muito lentamente pelas concorrentes. Em outras palavras, essas empresas conseguem ter uma efetiva maximização dos lucros por meio da diferenciação.

E onde se encontra o setor cosmético nas definições acima?
Onde sua empresa se encaixa?

Acredito que está claro que as empresas do setor cosmético podem se encaixar nos quatro casos acima, pois, neste segmento, existem empresas consideradas 100% seguidoras, ou seja, que apenas seguem as tendências lançadas por outras, e empresas mistas, que operam simultaneamente linhas de produtos consideradas commodities e linhas de produtos premium. E, obviamente, há as empresas que operam fortemente no mercado especializado.

Se transportarmos o conceito de “setor” mencionando anteriormente para o de “linha de produto”, isto é, se considerarmos que a linha é uma empresa individual, será fácil perceber que, não raro, dentro da própria empresa coexistem as quatro realidades dos conceitos mencionados. Também é comum que linhas de produtos nasçam com um viés de “setor especializado” e, ao longo do ciclo de vida do produto, passem para a categoria “setor de volume”.

O importante a destacar aqui é que a diferenciação é algo que faz parte do DNA das empresas do setor de cosméticos e que o profissional de marketing, dentro de um grupo multidisciplinar, deve saber identificar quando os produtos estão dentro de cada um dos conceitos acima, para então preparar ou determinar o momento de vida do produto de acordo com as possibilidades de diferenciação que cada momento pode oferecer.

Não é uma tarefa fácil, mas ela é necessária para quem visa maximizar os lucros e se diferenciar significativamente
da concorrência.

John Jimenez
Tendências por John Jimenez

Sensploration

A palavra “luxo” vem do latim “luxus”, procedente do campo agrícola, e significa “crescer em excesso”. Com o passar do tempo, esse termo foi se convertendo em sinônimo de excesso em geral. Logo, esse excesso se converteu numa “genética premium”, a qual determina que cada produto deve ter uma diferença intrínseca, tecnológica ou de desenho que contribua com um desempenho funcional ou sensorial superior à média, conseguindo impactar emocionalmente os consumidores que o compram, por meio de histórias, experiências e valores. Uma recente publicação indica que 56% das vendas do setor de luxo nos Estados Unidos para os natais anteriores estiveram dirigidas a experiências de luxo mais do que a produtos concretos. A sensploration é a tendência que está impulsionando o desenvolvimento dessa categoria.

Essa tendência começou no mundo dos coquetéis. Esse termo foi criado para descrever uma viagem multissensorial - não mais restrita ao sabor – no decorrer da experiência do coquetel. A sensploration nasceu na psicologia no final dos anos 1990 por meio de estudos que buscavam determinar como os sentidos interagem entre si e com o meio. Está impulsionada por aqueles consumidores curiosos que não estão preocupados com a marca, mas que têm muitas expectativas em relação à experiência com o produto. A ideia é que o consumidor abandone o pensamento racional para que sinta prazer com a estimulação dos sentidos, desbloqueie as papilas e experimente sabores com novas intensidades, texturas e imagens associadas a notas olfativas.

Um recente estudo realizado pela Oxford University constatou que a forma do recipiente do coquetel pode influenciar a percepção do sabor. Esse estudo também demonstrou que o contexto, o ambiente no qual a bebida é consumida, também pode melhorar o sabor e a degustação dos coquetéis em até 20%. Além disso, a pesquisa mostrou que 56% dos consumidores estão dispostos a investir mais nesse tipo de experiências. O desafio é explorar os aspectos emocionais das bebidas.

A aparência, as cores, os sons, a música e o olfato podem influenciar a forma que os coquetéis são percebidos, e isso pode ser aplicado também aos cosméticos.

A realidade virtual e a realidade aumentada são as aliadas dessa tendência, já que potencializam as sensações e as experiências vivenciadas pelos clientes. Estima-se que o mercado de realidade virtual passará dos 90 milhões de dólares de 2015 a 5,2 bilhões em 2018. Por essa razão, restaurantes, bares e barmen estão desenvolvendo inovadoras formas de consumo de coquetéis e da gastronomia em geral, por meio de elementos sensoriais cada vez mais complexos e elaborados.

Um exemplo dessa tendência em cosmética foi feito no ano passado por um famoso hotel na Europa, que abriu um bar onde as bebidas são inspiradas em fragrâncias ícones do mundo dos luxuosos e têm seu sabor, convidando os consumidores a utilizarem não somente o paladar, mas também o tato e o olfato, por meio de coquetéis que são autênticas obras de arte.

Graças à sensploration, as marcas de luxo estão formando uma identidade icônica, sustentada por uma comunicação coerente em todos os seus pontos, com matérias-primas diferenciadas, estética sofisticada e pontos de venda exclusivamente desenhados, que oferecem novas experiências multissensoriais. Como resultado, os consumidores estão sendo arrastados magneticamente a esse novo mundo de experiências irresistíveis, porque a emoção é o argumento contra a racionalidade na hora de comprar.

Henry será um dos grandes usuários de produtos influenciados pela tendência sensploration, porque representa o futuro dos consumidores na categoria de luxo. De fato, todas as marcas querem conhecê-lo e querem entendê-lo. Mas quem é Henry? As High-Earners-Not-Yet-Rich (Henry) são pessoas com salário alto, mas que ainda não são ricas, traduzindo a expressão para o português. Elas têm renda familiar entre 200 e 500 mil dólares por ano e idade entre 25 e 34 anos. O número de lares de Henry está crescendo em muitos países e, embora não cheguem ao gasto excessivo em bens de luxo, seu potencial é muito alto.

Ao contrário dos hábitos de consumo tradicionais, tais como investir numa propriedade ou economizar para um casamento, os Henrys preferem gastar seu dinheiro em experiências e produtos para um estilo de vida melhor. Esses resultados indicam uma mudança na mentalidade dos consumidores, que estão valorizando mais as experiências do que produto.

Sensploration = Sense + Exploration. Será o próximo caminho que transformará o mundo de bens e serviços de luxo, proporcionando uma experiência além dos sentidos. Aqui, o que importa é viver algo realmente único. Inspiração para a inovação em cosmética prestigie, na qual o objetivo é proporcionar aos consumidores experiências que apelam a todos os sentidos.

Wallace Magalhães
Gestão em P&D por Wallace Magalhães

“Eu quero explodir a Anvisa”

Há um tempo, ao visitar uma empresa, o diretor me recebeu dizendo isto: “Eu quero explodir a Anvisa”. Claro que ele estava com problemas regulatórios, mas penso que nem uma situação dessa não justificaria tamanho descabimento. Nem como desabafo. Um aborrecimento aqui, uma discordância ali, mas nunca tinha me ocorrido que alguém pudesse ter uma ideia dessa. Por curiosidade, inseri a frase em um slide na abertura de um tópico do curso Geração de Valor na Indústria de Cosméticos. Em todas as apresentações, a reação foi de uma “concordância quase silenciosa”, e isto me fez refletir mais detalhadamente sobre o assunto.

Uma das razões fundamentais para se viver em sociedade é poder ter acesso a uma condição de bem-estar. Não existe bem-estar sem saúde, e não é possível ter saúde sem um sistema de vigilância sanitária minimamente competente. Ao se organizar sob a forma de Estado, a sociedade elege seus governantes como representantes legítimos (existem outras maneiras, mas esta é a melhor). Estes, por sua vez, em condição ideal, organizam sua administração e estrutura para proteger e dar condições para esta sociedade de evoluir, gerar riqueza e promover bem-estar às pessoas. A vigilância sanitária, com suas normas, seus procedimentos e sua atuação, faz parte deste sistema.

Como uma sociedade organizada dá origem a um mercado consumidor, surgem empresas e profissionais interessados em atendê-lo, mas estes devem fazê-lo obedecendo às suas regras, que, no caso, são estabelecidas pela vigilância sanitária, legítima representante desta sociedade. Especificamente no caso de cosméticos, a desobediência é um fato grave e pode se configurar como crime. Resumindo: é mais simples e mais fácil funcionar sem estas regras, mas não é válido e ponto final.

Por outro lado, é necessário que as autoridades responsáveis pela vigilância sanitária compreendam que não existirá bem-estar nem saúde sem as empresas e os profissionais que atuam no setor, e que, sozinha, ela é incapaz de realizar esta tarefa. A burocracia excessiva e improdutiva que herdamos de nossas origens latinas, a desconsideração do papel de empresas e profissionais na geração da saúde, a lentidão operacional dos órgãos públicos, as auditorias com foco desviado, o desprezo pelo resultado financeiro positivo que os empreendimentos almejam e o não reconhecimento dos compromissos dos responsáveis técnicos que imperam na lógica das instituições de vigilância sanitária brasileiras, na verdade, são fatores que fazem com que elas contrariem a sua própria razão de ser porque criam dificuldades a quem efetivamente produz saúde. O ideal é que os dois lados se enxerguem como complementares e não como antagônicos. Assim, a melhor situação é quando este sistema está em equilíbrio.

Dito isso, vou me permitir fazer três sugestões:

Ter o responsável técnico como uma fi gura efetiva de vigilância sanitária. Quando não houver possibilidade de uma vistoria em prazo razoável, deveria ser aceita sua declaração assinada, considerando ainda a possibilidade do uso de vídeos neste processo. É muito comum projetos esperarem muito tempo para receber uma vistoria pelo fato de a vigilância não ter “viaturas disponíveis”. Empresas e profissionais devem merecer esta prerrogativa.

Eliminar conduta agressiva, que infelizmente ainda existe, e exigências baseadas na opinião do auditor sanitário. Elas devem estar fundamentadas nas normas. Quando não forem claramente identificadas, que se faça justificativa fundamentada das exigências, enumerando todos os fatores considerados em sua formalização.

Implantar, por meio das entidades representativas, um programa de autorregulamentação consistente e esclarecedor, com treinamento sistemático de técnicos e empresários. Para isso, deve haver esforço contínuo de ambas as partes, além da necessidade de quebrar certos paradigmas. Talvez estas sejam as duas maiores dificuldades. Temos que lembrar que, quando vamos a um supermercado, uma farmácia ou uma perfumaria, compramos produtos e os consumimos sem receio, devemos isso a esta estrutura, que garante a qualidade e a adequação do que estamos consumindo.

Em outras palavras: a vigilância sanitária é essencial, imprescindível e de valor incalculável para todos. E eu, por razões óbvias, estou torcendo para que não ocorra nenhum sinistro parecido com explosão ou incêndio na Anvisa. O certo é que todos temos de pensar assim.

Carlos Alberto Trevisan
Boas Práticas por Carlos Alberto Trevisan

Está chegando a hora

Que o leitor não se perca vendo o título desta coluna, pois não falarei de acontecimentos políticos que estão por vir. Recordarei o que foi estabelecido pela RDC nº 48, de 23/10/2016, sobre a qual a seguir vou comentar e procurar enfatizar seus tópicos mais importantes.

Como sabemos, a RDC nº 48/13 estabeleceu o regulamento técnico das Boas Práticas de Fabricação para Produtos de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos.

Essa RDC incorporou ao ordenamento jurídico nacional a Resolução GMC Mercosul nº 19/11, que aprovou o regulamento técnico das BPF para produtos de HPPC. A RDC revogou as disposições em contrário, em especial a Portaria nº 348, de 18 de agosto de 1997.

Pelo artigo 4º da RDC, ficou instituído o prazo máximo de três anos para a conclusão dos estudos de validação, a partir da publicação da Resolução.

No inciso 1º desse artigo, foi instituído o prazo de um ano, para a empresa elaborar todos os protocolos e outros documentos necessários para a validação de operações de limpeza e metodologia analítica e dos sistemas informatizados e de água de processo que já estivessem instalados.

Já o inciso 2º esclareceu que, para a metodologia analítica, a elaboração dos protocolos e a validação do método devem ser realizadas apenas quando se trata de metodologias não codificadas em normas ou bibliografia conhecidas. Portanto, se essas metodologias constarem na farmacopeia, não haverá necessidade de serem validadas.

Por outro lado, o inciso 3º determinou que, para os sistemas, métodos ou equipamentos adquiridos a partir da data de publicação da RDC, a validação deve ser realizada antes de eles serem colocados em uso rotineiro.

Uma advertência vem no artigo 5º, informando que o descumprimento das disposições contidas nessa RDC e no regulamento por ela aprovado constituirá infração sanitária, nos termos da lei no 6.437, de 20/8/1977, sem prejuízo das responsabilidades civil, administrativa e penal cabíveis.

Estamos em maio de 2016, portanto faltam menos de 5 meses de prazo para que sejam concluídas todas as validações.

Durante esses quase três anos no trabalho de consultoria, tive a oportunidade de visitar muitas empresas e verifiquei que poucas realmente se prepararam para concluir essas tarefas dentro do prazo estabelecido.

O argumento para justificar o não cumprimento dos prazos, em geral, é o desconhecimento do que e de como fazer.

Culturalmente, já foi incorporado o hábito de deixar para o último momento a conclusão de qualquer tarefa. Mas existe ainda outro mau costume do “jeitinho brasileiro”: sempre será dado um jeito para acomodar a situação. Como a inspeção sanitária não consegue atingir a todas as empresas ao mesmo tempo, muitas delas ainda contam com aquele prazo extra se, por ventura, receberem a inspeção da autoridade sanitária e não estiverem com as validações em dia.

Pesquisa informal, com aproximadamente 100 empresas, apresentou o seguinte resultado quanto às validações concluídas:

- Metodologia analítica: 75%.

- Sistemas informatizados: 40%.

- Procedimentos de limpeza: 40%.

- Sistemas de água: 50%.

Com base nesses dados, pode-se concluir que muito trabalho ainda precisa ser feito, entretanto, espero que os quase cinco meses que restam sejam suficientes para o cumprimento do que foi estabelecido na RDC nº 48/13.

Artur João Gradim
Assuntos Regulatórios por Artur João Gradim

Estabilidade... ao menos para os produtos

Deixando de lado as incertezas que temos vivido e que nos trazem instabilidade na política e na economia, com consequências desastrosas para o país, pego esse gancho para traçar um paralelo da importância da continuidade no dia a dia da empresa em comparação ao que se obtém no estudo de estabilidade realizado para determinado produto.

O estudo de estabilidade tem o propósito de avaliar a qualidade do desenvolvimento de um produto que vai ao mercado para consumo, com a expectativa de atender os anseios daqueles consumidores que vão escolhê-lo influenciados por sua campanha de mídia, por suas propriedades e finalidades, de modo a usufruir dos benefícios do produto no período de validade estabelecido pela própria empresa.

Ora, se o período de validade de um produto é determinado pela própria empresa que o desenvolveu, porque problemas ocorrem com o produto no mercado? Considerando que a formulação (ingredientes, concentrações, especificações, processo industrial, compatibilidade com a embalagem)
deveria ser projetada para uma adequada interação com fatores externos, de modo a suportar oscilações oriundas da degradação química, assim como de suas características físicas, quando submetida a extremos de variações climáticas, inclusive de transporte e armazenagem inadequados, mantendo-se íntegra no decorrer de sua validade, por que ocorrem problemas nas mãos do consumidor?

Vejamos então, a seguir, algumas causas que não têm relação com a avaliação técnica da estabilidade:

- troca de fornecedores e/ou de ingredientes que não foram tecnicamente avaliados;

- alterações no processo produtivo buscando “agilidade”;

- armazenagem inadequada devido a condições ambientais e ao pessoal não ser treinado para o manuseio do produto;

- má qualidade da documentação existente.

Esses são fatores que podem ocorrer em contraponto fatal ao produto (constatado no shelflife), comparados ao resultado de um ensaio de conformidade como planejado.

Essas mudanças de rota não são passíveis de avaliações regulatórias, tampouco são submetidas ao órgão regulador. São mudanças internas e expõem uma grande fragilidade da eficácia do sistema de Gestão da Qualidade.

A dispersão de esforços em uma empresa é facilmente verificada quando a Gestão da Qualidade é capenga. Nessa circunstância, todos os colaboradores sempre fazem o melhor, porém de maneira não convergente. Todos estão focados no “timing” das atividades e não em sua interação.

Quando a Gestão da Qualidade não funciona de forma adequada, muito frequentemente, em empresas de pequeno porte, os produtos produzidos são verdadeiros Frankensteins, cujos lotes, quando avaliados pelo monitoramento dos órgãos sanitários, causam uma “surpresa prevista”.

Nunca adiantou a formação de comitês pontuais com a finalidade de descobrir onde falhamos. Simplesmente falhamos pela existência de uma política de Gestão da Qualidade não sustentada. Isso traz como consequências a retirada de produtos do mercado, os gastos adicionais com o recolhimento, a insatisfação e a perda do consumidor
seguida pela perda de mercado.

Não foi por acaso que a RDC nº 48/13 estabeleceu, em seu artigo 3º, sobre a Gestão da Qualidade, no subitem 3.3.4, alínea i, bem como nos subitens 3.6.1 e 3.6.2, os requisitos desse estudo, de modo a produzi-lo com qualidade, quando operado sob as Boas Práticas de Fabricação.

Não é nada fácil conquistar, porém é muito fácil perder e não recuperar.

Portanto, se o estudo de estabilidade não for conduzido como deveria e não refletir a realidade proclamada, o resultado também já sabemos qual será, não é?

Antonio Celso da Silva
Embale Certo por Antonio Celso da Silva

Teste de compatibilidade

O tema central desta edição é a estabilidade de produtos, o que já me faz começar esse texto com um esclarecimento aqui necessário.

O que é na verdade essa estabilidade? É um teste, ou melhor, uma série de testes necessários e exigidos pela Anvisa para a regularização do produto, nos quais a indústria faz simulações e submete o produto a condições análogas às que estarão nos diversos tipos de PDV (ponto de venda), seja qual for o canal de venda em que a empresa opera.

Os produtos também são submetidos a temperaturas severas de transporte - dentro de um caminhão baú, por exemplo, ou mesmo em uma vitrine de loja com luz natural ou com incidência direta da luz do sol.

É sabido que no canal de venda porta a porta (venda direta) o produto fica menos exposto a condições drásticas se comparado com o canal varejo (perfumarias, farmácias etc.). Isso não muda as condições de laboratório em que os produtos são testados. O teste é padronizado em condições que simulam temperaturas maiores, como no Nordeste (estufa), e temperaturas menores, como no Sul (geladeira), além da tradicional temperatura ambiente e também da janela, até porque é comum o consumidor manter seus produtos em janelas de banheiro, principalmente shampoos e outros produtos capilares.

É importante ressaltar também que o teste de estabilidade visa acima de tudo determinar o prazo de validade do produto.

Em resumo, esse é o teste de estabilidade é feito a partir do bulk (produto fabricado e ainda não envasado) colocado em um pote de vidro de aproximadamente 250 gramas ou em quantidade suficiente para a realização dos testes, principalmente quando se trata de um teste de viscosidade, que requer uma quantidade maior.

Voltando ao esclarecimento que citei no início desse texto, vamos falar de testes, porém daqueles que são feitos nas embalagens, especificamente nas primárias, aquelas que entram em contato direto com o produto.

Esse teste denominamos compatibilidade, pois trata da observação de reações que podem ocorrer no produto ou mesmo na embalagem pelo contato de um com o outro.

Mas o que exatamente pode ocorrer numa incompatibilidade produto/embalagem? Na verdade, essa incompatibilidade pode ser química ou mesmo física. Por exemplo, quando o produto migra através da embalagem, isso mostra que ele passou pela sua parede, o que não deveria ocorrer. Mas por que isso acontece?

Esse fenômeno não se dá em embalagens de vidro, mas sim nas plásticas, porque o plástico e a resina plástica têm, em suas paredes, poros parecidos com os da nossa pele. Alguns tipos de plásticos têm esses poros mais abertos; outros, mais fechados. Essa migração ocorre quando esses poros são mais abertos, o que indica que o produto deve ser colocado em um tipo de plástico que tenha esses poros mais fechados. Nesse quesito, o PET é o mais indicado e o mais usado se comparado com o PEAD (polietileno de alta densidade), também muito utilizado.

Uma comprovação da existência desses poros nas embalagens plásticas pode ser observada dentro das fábricas que fazem decoração (silk screen, por exemplo). Antes de aplicar a tinta na superfície da embalagem, é necessário realizar uma flambagem, ou seja, fazê-la passar na frente de bicos de gás, onde o aquecimento dilata os poros, facilitando a penetração da tinta e melhorando sua fixação.

Uma incompatibilidade clássica que podemos destacar é a existente entre o óleo mineral contido em bronzeadores e óleos de banho e as embalagens PEAD.

Por outro lado, a incompatibilidade química também acontece, e talvez a mais clássica seja o uso de bandeja de folha de flandres em um pancake. Isso porque, para aplicar o pancake, a consumidora umedece a esponja e a movimenta sobre o produto. A oxidação (ferrugem) da bandeja ocorrerá gradativamente devido ao contato com a água. Nesse caso, deve-se usar uma bandeja de alumínio, que é um pouco mais cara, mas não oxida.

A experiência do técnico de embalagem ou do profissional de desenvolvimento de produto é fundamental para evitar essas clássicas incompatibilidades, porém isso não elimina a necessidade de sempre executar o teste de compatibilidade.

Ele deve ser feito depois do desenvolvimento do produto e da definição do material de embalagem a ser usado. Se houver qualquer alteração na formulação ou no material de embalagem após o início do teste, este deve ser desprezado e refeito imediatamente, contemplando essas alterações.

Vale ressaltar que o teste de compatibilidade não deve ser feito no ato de recebimento dos lotes de embalagens (controle de qualidade), mas sim e apenas no desenvolvimento do produto. No recebimento, deve-se comprovar que o material da embalagem é o descrito na especificação técnica.

As condições de temperatura e ambiente de teste são basicamente as mesmas do teste de estabilidade, porém com o produto dentro da embalagem a ser testada.

Novos Produtos