21 de Outubro de 2018

Tendências em Perfumaria

Edicao Atual - Tendências em Perfumaria

Editorial

O brasileiro frente ao espelho 

O estudo “Dinâmica Demográfica da População Negra Brasileira”, divulgado recentemente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou várias informações relevantes sobre a população negra no Brasil. Uma delas é o fato de que mais brasileiros se declaram negros ou pardos, o que explica, em parte, o avanço da população negra no País.

De acordo com os dados do Censo 2010, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE), pela primeira vez na história do Censo as pessoas que se declaram brancas são menos da metade da população: 97 milhões de pessoas se dizem negras (pretas ou pardas) ante 91 milhões de pessoas que se declaram brancas. Aproximadamente 2,5 milhões de pessoas se consideram amarelas ou indígenas.

O contingente de pessoas que se dizem brancas caiu em relação a 2000. Nesse cenário, tem-se a seguinte confi guração: na última década, a taxa de crescimento da população negra chegou a 2,5% ao ano, enquanto a da branca permaneceu praticamente sem alterações. A despeito da constatação feita pelo Ipea, de que as mães negras têm mais fi lhos do que as brancas, a boa notícia é saber que cada vez mais os brasileiros sabem qual é a sua cara – e, o melhor, estão gostando dela.

Esse encontro feliz com a própria identidade é um dos aspectos abordados em nossa matéria de capa, que oferece um panorama das tendências de mercado em perfumaria no mundo e no Brasil - onde esse segmento, aos poucos, vai ganhando seus próprios contornos. Esta edição da Cosmetics & Toiletries Brasil traz, na seção “Persona”, um pouco da história de Marcelo Schulman, cuja vida é pontuada pela habilidade em superar adversidades e pelo prazer de ensinar.

Interessantes artigos técnicos abordam o bioderivado que substitui os glicóis, uma alternativa para formular para peles sensíveis infantis, e o desenvolvimento de um gloss labial com pimenta e melancia, além de artigos de revisão sobre a arte dos perfumes e uso da cafeína no tratamento da celulite.

Esta edição ainda apresenta o programa ofi cial e os abstracts de palestras e pôsteres do 25º Congresso Brasileiro de Cosmetologia.

 

Boa leitura!

Hamilton dos Santos

Publisher

Bioderivado substitui Glicóis e Glicerina do Petróleo - Rose F Durham, Robert Miller, Joseph W DeSalvo (DuPont Tate & Lyle Bio Products Company, Wilmington, DE, Estados Unidos)

Como uma iniciativa para a sustentabilidade, os autores descrevem o uso do 1,3 propanediol com base 100% biológica, obtido por meio do processo de fermentação de glicose ou açúcar de milho. O novo ingrediente se mostrou um substituinte vantajoso de glicóis e glicerina obtidos do petróleo. Neste artigo, são apresentados ensaios que asseguram sua eficácia e segurança em produtos de cuidado pessoal.

Como una iniciativa hacia la sostenibilidad, los autores describen el uso de 1,3 propanediol 100% biológico, producido por la fermentación de azúcar o glucosa de maíz. El nuevo ingrediente resultó una ventaja al remplazar glicoles y glicerina obtenidos del petróleo. En este artículo se presentan las pruebas que garanticen su eficacia y seguridad en productos de cuidado personal.

As an initiative towards sustainability, the authors describe the use of 1,3 propanediol based 100% organic, produced by fermentation of glucose or corn sugar. The new ingredient proved advantageous to a substituent glycols and glycerin obtained from petroleum. In this paper, the authors present tests that asses its efficacy and safety in personal care products.

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Formulando para Peles Sensíveis Infantis - Corey T Cunningham PhD, Stacy A Mundschau e Jeffery R Seidling (Kimberly-Clark Corp., Neenah, WI, Estados Unidos)

A natureza sensível e delicada da pele infantil está sendo bem atendida pelos produtos atualmente disponíveis no mercado. Condições mais sérias de pele exigem um nível especial de desempenho. Este artigo destaca o desenvolvimento de bases tensoativas formuladas para não provocar resposta indesejável durante o uso, ao mesmo tempo que apresenta forma cosmética tradicional.

La naturaleza de la piel sensible y delicada de los niños está siendo muy bien atendida por los productos disponibles en el mercado. Las condiciones mas serias de la piel exigen un nivel especial de desempeño. Este trabajo destaca el desarrollo de bases tensioactivas proyectadas para no provocar una respuesta no aceptable durante el uso, mientras mantienen la forma cosmética tradicional.

The sensitive and delicate nature of infants skin has been well-addressed by the current products in the marketplace. More serious skin conditions require a special level of performance. This report highlights the development of surfactant bases designed not to trigger a response during use while maintaining traditional aesthetics.

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Perfumes: Arte e Ciência - Letícia Grolli Lucca, Karina Paese e Sílvia Stanisçuaski Guterres (Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre RS, Brasil)

A perfumaria existe há milhares de anos. Apresentou conotações diferentes durante os períodos em que foi usada e hoje já é considerada uma ciência. Este artigo traz uma revisão sobre o assunto, descrevendo o histórico, a estrutura, os métodos de preparação e as inovações sobre perfumes.

La perfumería tiene miles de años. Ha tenido connotaciones diferentes durante los períodos que ha sido utilizada y ahora ya es considerada una ciencia. Este artículo presenta una revisión del tema, que describe el histórico, la estructura, los métodos de preparación y innovaciones sobre los perfumes.

Perfumes date thousands of years. It had different connotations during the periods that it was used and now it can be considered a science. This article presents a review about this subject, describing the history, structure, methods of preparation and innovations on perfumes.

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Desenvolvimento de Gloss Labial - Aline Böhm Carvalho, Marina Dias Nalvaes, Cristina M Franzini, Fernanda Flores Navarro (Centro Universitário Hermínio Ometto – Uniararas, Araras SP, Brasil)

Este artigo relata o desenvolvimento de formulação e testes de controle de qualidade de um gloss labial contendo Citrullus lanatus e Capsicum baccatum. O produto desenvolvido mostrou-se promissor para a comercialização, mas são necessários testes adicionais.

Este artículo presenta el desarrollo de formulación y ensayos de control de calidad de un brillo labial que contiene Citrullus lanatus y Capsicum baccatum. El producto desarrollado se ha mostrado prometedor para la comercialización, pero más pruebas se necesitan realizar.

This article reports the development of formulation and testing of quality control of a lip gloss containing Citrullus lanatus and Capsicum baccatum. The product developed has shown promise for commercialization, but more tests are needed.

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Cafeína no Tratamento da Celulite - Gardênia A Pereira e Gustavo F A Alkmim (Faculdades Santo Agostinho, Montes Claros MG, Brasil)

Fibroedema geloide, mais conhecido como celulite, é uma inflamação que ocorre na derme devido a diversos fatores predisponentes. A cafeína possui efeitos lipolíticos e capacidade de estimular a oxidação de ácidos graxos. O uso da cafeína em formulações tópicas anticelulite tem sido proposto desde 1988. Este artigo é uma revisão bibliográfica do uso de cafeína no tratamento da celulite.

Fibroedema geloid conocida como celulitis es una inflamación que se produce en la dermis debido a varios factores predisponentes. La cafeína tiene efectos lipolíticos y capacidad para estimular la oxidación de los ácidos grasos. El uso de la cafeína en las formulaciones tópicas anti-celulitis se han propuesto desde 1988. Este artículo es una revisión de literatura cuanto al uso de la cafeína en el tratamiento de la celulitis.

Fibroedema geloid known as cellulitis is an inflammation that occurs in the dermis due to several predisposing factors. Caffeine has lipolytic effects and ability to stimulate fatty acid oxidation. The use of caffeine in anti-cellulite topical formulations have been proposed since 1988. This article is a review of the use of caffeine in cellulite treatment.

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Carlos Alberto Pacheco
Mercado por Carlos Alberto Pacheco

Fotografia do País na primeira década do século 21

É assim, como uma fotografia, que podemos definir os dados fresquinhos divulgados pelo IBGE, referentes a abril, sobre a vida do Brasil nos últimos dez anos. Esses dados mostram a cara desse imenso e complexo País, tal como ele é.

O relatório mostra um aumento de 12,5% na população nos últimos dez anos – já passamos dos 190 milhões de habitantes. A tendência que vinha se desenhando a cada estudo anterior vai se confirmando: temos uma população mais feminina do que masculina (51,0%). A previsão da taxa de crescimento populacional é de 1,2% ao ano para os próximos dez anos. Entre as regiões do País, somente o Norte apresenta uma população majoritariamente masculina.

Com o crescimento da população, há a necessidade de uma nova distribuição das pessoas nos municípios, a fim de garantir o bem-estar da população local. O País cresceu 1% no número de cidades no período e agora soma 5.565 municípios.

No entanto, as características dos municípios não são, nem de perto, iguais entre si, visto que a dinâmica de desenvolvimento social de cada região é muito diferente. A região Sudeste concentra 41,1% da população e apresenta o maior crescimento numérico: 8 milhões de pessoas, sendo o Estado de São Paulo responsável por 21,6% da população do País e por mais da metade da região Sudeste. A cidade de São Paulo, uma singularidade entre todos os municípios, representa 27,3% da população do Estado (11 milhões somente na cidade e 16 milhões na Grande São Paulo). Apesar desse crescimento, o Sudeste vem perdendo representatividade populacional nas últimas três décadas frente a outras regiões, como a Centro-Oeste e a Norte. Levando em conta que três pontos configuram uma tendência, vemos que enquanto a região Sudeste deixou de representar 42,7%, 42,6% e 42,1% (1990, 2000 e 2010, respectivamente), o Nordeste passou a representar 6,4%, 6,8% e 7,4%, e o Centro-Oeste, 7,0%, 7,6% e 8,3%.

Outra característica importante a ser acompanhada no desenvolvimento do País é o seu grau de instrução. Infelizmente, apenas 91% da população com 10 anos ou mais é alfabetizada, ao passo que nossos vizinhos argentinos apresentam uma taxa de 97,6%. No entanto, mais do que apenas olhar o número macro da taxa de alfabetização, o importante é entender o seu comportamento dentro de algumas estratificações. Por exemplo, apenas 30,1% dos alfabetizados possuem 11 anos de estudo ou mais (antigo colegial completo ou cursando faculdade), sendo a representatividade feminina nesse estrato menor do que a masculina (28,0% contra 32,0%).

Analisando o aspecto da saúde, é curioso observar que, apesar de o PIB per capita do País ser três vezes maior do que o da Guiana, o percentual de acesso à rede sanitária é praticamente o mesmo, ou seja, 80%. No entanto, é importante ressaltar que os investimentos do governo em saneamento vêm contribuindo significativamente para a redução dos municípios sem acesso à rede de esgoto. Há dez anos, 6,96% dos domicílios não tinham banheiro ou sanitários; atualmente são 2,64% (cerca de 1,5 milhão de habitações). Embora a região Nordeste ainda seja a área menos privilegiada nesse item (7,8% dos domicílios não têm banheiro ou sanitário e o Piauí é o Estado em pior situação, com 19,9%), nos últimos dez anos a região conseguiu diminuir em 13 pontos percentuais o número de municípios sem acesso à rede sanitária. Não é preciso dizer a influência desse avanço na expectativa e na qualidade de vida da população, além do deslocamento de parte da renda em remédios para outros itens de consumo, como produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica.

Os indicadores de renda não podem ficar de fora dessa fotografia. No geral, 5,1% dos domicílios ganham mais de cinco salários mínimos, enquanto 4,3% não apresentam rendimento algum. As regiões Norte e Nordeste apresentam um percentual menor no ganho de mais de cinco salários mínimos e um percentual maior nos domicílios sem renda, diferentemente das demais regiões, que apresentam um comportamento contrário a este. Pela primeira vez, a região Centro-Oeste tem um percentual dos domicílios com ganhos acima de cinco salários mínimos que supera o da região Sudeste (6,8% contra 6,7%). A maior parte dos domicílios (28,7%) ganha entre meio e um salário mínimo.

Talvez alguém se pergunte: “O que esses números dessa importante fonte de dados, o IBGE, podem nos oferecer?”. A resposta é simples: vantagem competitiva! Esses indicadores podem se transformar em informações e essas informações em ações de sucesso, mas quem faz a mágica acontecer é você. É você quem pode relacionar as informações de tendência de mercado com as de marketing da sua empresa. Somente você pode identificar se determinado crescimento populacional ou uma concentração de renda em determinada área geográfica pode ser interessante para o desenvolvimento da sua empresa. Será que os dados podem explicar as ações dos meus concorrentes? Todas essas e muitas outras perguntas podem ser respondidas analisando os dados disponíveis de fontes confiáveis, como as apresentadas no site do IBGE: www.ibge.gov.br.

Carlos Alberto Trevisan
Boas Práticas por Carlos Alberto Trevisan

BPFeC e sua interação com a empresa

Tenho percebido que as Boas Práticas de Fabricação e Controle (BPFeC) estão sendo segregadas no dia a dia das empresas, pois não existe o sentimento de que estas sejam resultantes de uma grande série de ações que, obrigatoriamente, envolvem toda a empresa.

Por meio da ilustração desta página, podemos melhor compreender por que todas as atividades executadas na empresa podem impactar, em maior ou menor intensidade, na implantação desse sistema.

A título de exemplo, relatamos um acontecimento rotineiro, aparentemente sem grandes consequências nas BPFeC, mas que tem implicações extremamente sérias em relação aos colaboradores da empresa. Refere-se à decisão muitas vezes tomada pela área de compras quando esta necessita realizar uma redução de gastos. Na maioria dos casos, um dos itens que é alvo de redução ou eliminação é o papel-toalha usado nos lavatórios. O impacto dessa decisão, não avaliado de modo adequado, é que, ao se restringir o uso do papel-toalha existe a possibilidade de os colaboradores procurarem outras alternativas não adequadas para esse fim.

Esse fato acontece porque o encarregado das compras não tem conhecimento da importância que o papel-toalha, como meio da prática de asseio e limpeza, tem no âmbito das BPFeC.

Esse exemplo, acreditamos, é bastante ilustrativo e corrobora a importância do envolvimento coletivo com essas práticas.

Outro exemplo que considero importante é o desenvolvimento de produtos sem que o impacto sobre as atividades das áreas produtivas, como a fabricação e o envase, seja avaliado previamente; na maioria das vezes só passa a ser conhecido pelas áreas envolvidas, por exemplo, quando o material de embalagem chega à empresa.

A desinformação dos fornecedores da empresa também pode ser mencionada como um dos motivos para comprometer o sucesso da efetiva implantação das BPFeC, pois, se os fornecedores não estiverem comprometidos com o processo, continuarão produzindo não conformidades que afetarão produtos e serviços.

De modo análogo, a existência de equipamentos fora de condições normais de uso, caso os encarregados da manutenção não estejam comprometidos com a qualidade, acabam impactando o processo.

No que concerne ao setor de planejamento e controle de produção, decisões tomadas para agilizar processos de fabricação e envase visando a atender às vendas, sem o adequado planejamento, muitas vezes impactam, notadamente quando causam a dispensa de procedimentos de limpeza e sanitização entre lotes.

Quando o P&D não considera o dimensionamento e a adequação de equipamentos e das utilidades da fábrica, muitas vezes dificulta que o setor de produção trabalhe com foco nas BPFeC, obrigando-o, muitas vezes, a apelar para o famoso “quebra galho”.

As BPFeC devem ser observadas desde o momento em que o produto é idealizado pelo marketing, evitando assim as consequências e as não conformidades quando a ideia passar da teoria para a execução.

Muitos outros exemplos podem ser citados, entretanto, acredito que esses são suficientes para que o conceito seja absorvido.

Os interessados nesse assunto podem ler a consulta pública da Anvisa referida na Portaria nº 623, de 29 de março, sobre as Boas Práticas de Fabricação e Controle na indústria de Produtos de Higiene Pessoal, Cosméticos e Perfumes, na qual está clara a pretensão das autoridades de evoluírem na efetiva implantação dessas práticas sob o foco do Sistema da Qualidade.

Denise Steiner
Temas Dermatológicos por Denise Steiner

Princípios ativos botânicos em cosméticos

Quando falamos em hidratantes, por exemplo, podemos pensar em óleo de uva ou óleo de amêndoas. Quando nos referimos a tratamentos mais específicos, podemos nos lembrar dos alfa-hidróxi-ácidos, que são substâncias orgânicas extraídas de vegetais, como o ácido glicólico, feito da cana-de-açúcar.

A seguir estão listados alguns dos fitoterápicos utilizados em dermatologia cosmética e são enfatizados seus principais benefícios.

Polypodium leucotomas - Pertence à família Polypodiaceae, é uma planta que se desenvolve exclusivamente nas selvas e nos bosques tropicais hondurenhos. Na medicina tradicional, essa planta é usada para o tratamento de psoríase, dermatite atópica e artrite, devido à sua atividade imunomoduladora. Estudos mais recentes mostram sua atividade antioxidante e fotoprotetora em relação à agressão de UVA (aguda).

Óleo de oliva - A oliveira (Olea europaea) é a árvore que produz a azeitona ou oliva. O óleo é reconhecido como antioxidante devido aos seus componentes polifenólicos. O consumo do óleo extravirgem (com acidez menor que 0,8% em ácido oleico) está relacionado à proteção contra o estresse oxidativo. Em produtos tópicos, é usado em óleos e sabonetes para a pele. Também é componente de formulação tópica para ser usada em eczemas, fissuras, hemorroidas, micoses superficiais e infecções bacterianas da pele, devido às suas propriedades anti-inflamatórias e antibacterianas.

Picnogenol – Seu nome botânico é Pinus pinaster. Pertence à família dos flavonóides, que inclui as proantocianidinas, que têm propriedades antioxidantes e quimioprotetoras, além de capacidade para estabilizar o colágeno e melhorar a elasticidade e a flexibilidade da pele. Seu extrato, obtido das folhas e da casca das pinhas, promove o aumento do fator de crescimento vascular endotelial relacionado à angiogênese. Trabalhos recentes têm associado sua ingestão à melhora do melasma. Formulações tópicas melhoram o envelhecimento cutâneo.

Cafeína - Composto químico de fórmula C8H10N4O2 – classificado como alcaloide do grupo das xantinas e designado quimicamente de 1,3,7-trimetilxantina –, é encontrado em certas plantas e usado na forma de infusão, como estimulante. A cafeína tem propriedades antitumor e de proteção solar. Há vários estudos controlados mostrando que a cafeína promove a apoptose de células agredidas pelo sol.

CoffeeBerry - Trata-se de um ativo extraído do fruto verde do café, que contém alta concentração de antioxidantes. Esse fruto passa por um processo de extração específico e potencializado, que resulta na composição de polifenóis, como: ácido clorogênico, proatociandinas, ácido quínico e ácido ferrúlico, todos com ação anti-inflamatória, clareadora e antienvelhecimento. Contém cafeína, que pode ser usada para produtos anticelulite.

Arnica- A arnica europeia (Arnica montana) e a arnica brasileira (Lychnophora ericoides) têm atividade anti-inflamatória por meio das frações de lactonas sesquiterpênicas. Também são usadas para o tratamento da queda de cabelo e, quando usadas via oral, parecem diminuir hematomas; seu uso tópico não mostrou diferença no clareamento dos hematomas.

Ácido ferrúlico - O ácido 3-metóxi-4-hidróxi-cinâmico é um composto fenólico vegetal, apresenta atividades antioxidantes e pertence à família dos polifenóis. É encontrado nas paredes celulares das plantas e é um dos componentes da lignocelulose que dá rigidez a essas paredes. É potente em absorver radiação ultravioleta (UV) e, quando associado à vitamina C e à E, melhora seu efeito antioxidante.

Chá Verde – Esse chá (Camellia sinensis (L.) Kuntze), originário da China, é um potente antioxidante com polifenóis. As frações mais importantes e ativas dos polifenóis são as epigalocatequinas extraídas da folha das plantas. Estudos demonstram sua atividade supressora do efeito carcinogênico da radiação ultravioleta e esse chá tem sido utilizado tanto por via sistêmica quanto tópica.

Pomegranate – Recebe o nome científico de Punica granatum L, conhecida como romã. Contém polifenóis, além de vitamina C, vitamina B5 e potássio. Possui ação clareadora da pele quando é usada via oral, inibe a proliferação de melanócitos e a síntese de melanina. Tem propriedade antimicrobiana e antivirótica, e eficácia comprovada como antibiótico natural nos casos de inflamações orais bacterianas e virais. Estudos recentes sugerem que os efeitos antioxidantes e antivirais da romã melhorariam o efeito dos filtros solares. Parte utilizada: a casca da romã.

Resveratrol– Este polifenol da uva é considerado antioxidante, anti-inflamatório e antiproliferativo. Tem propriedades quimiopreventivas em relação a tumores de pele, mama, colo e próstata, além de propriedades antifúngicas, antibacteriana e antiviral. Trabalhos recentes demonstram sua ação protetora em relação à UVB.

Dermeval de Carvalho
Toxicologia por Dermeval de Carvalho

O cerco está se apertando

Propostas, desde as mais simples até as mais complexas, exigem reflexões racionalmente pensadas, planejadas, executadas e concluídas, as quais podem antecipar respostas de grande valia para as finalidades almejadas.

A carreira universitária, respeitadas as normas acadêmicas, deve dispor de meios que permitam a aproximação técnica e científica entre corpo docente/pós-graduandos e os órgãos regulatórios e o setor de P&D de instituições públicas e, ou, privadas. Esta aproximação, seguramente, trará melhorias à qualidade do ensino, bem como permitirá avaliar o que está sendo ensinado em relação às necessidades que estão sendo exigidas, frente às grandes conquistas tecnológicas e de mercado.

Como fruto dessa interação, é possível enxergar horizontes promissores, esquecidos ou considerados não prioritários pelo ambiente universitário, a exemplo do que vem acontecendo com o tema “avaliação de segurança e assuntos regulatórios relativos a ingredientes de higiene pessoal e cosméticos”. É aí onde está o gargalo.

Até quando o uso de animais de experimentação, empregados na avaliação de toxicidade de ingredientes de produtos de higiene e cosméticos, será permitido?

O ponto de partida que tratou da “regulamentação” referente ao uso de animais de experimentação aconteceu nos Estados Unidos (1828) e, de lá para cá, esse ponto de partida tem recebido importantes emendas regulatórias e contribuições científicas. Brussel e Burch (1959) propuseram a necessidade do desenvolvimento de métodos alternativos, com o objetivo de minimizar o uso de animais. Para tanto, eles sugeriram o teste dos “3Rs” (sigla em inglês para Replacement, Reduction and Refinament – Substituição, Redução e Refinamento), o qual vem sendo reconhecido e sobejamente valorizado.

A Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), por meio da Environment, Health and Safety Division (2000), publicou o “Guidance document on the recognition, assessment, and use of clinical signs as human endpoints for experimental animal used in safety evaluation”. Animais de experimentação têm merecido especial atenção, conforme publicações, por exemplo, do Canadá, dos Estados Unidos, da Comunidade Europeia e do Brasil, respectivamente: Guide to the care and use of Experimental Animals, Animal Welfare Act, Directive nº 86/609/EC e Lei nº 11794/08, entre outras. A fundo perdido, alguns países desenvolvidos vêm canalizando polpudos recursos financeiros, com a participação da iniciativa privada, visando a criação de centros de excelência voltados ao delineamento, à padronização e à validação de métodos alternativos, entre eles os métodos in vitro.

Os centros reconhecidos pelas siglas ECAVAN1, ICCVAM2, JACVAM3 e NICEATM4 são considerados os pioneiros, enquanto 16 outros estão plenamente engajados nesse trabalho.

O sistema de gerenciamento participativo que vem sendo exercido pelo centro Acute Tox deve servir de exemplo para os países em desenvolvimento. Esse centro conta com nove núcleos de pesquisa e 35 pesquisadores de 13 países da Comunidade Europeia, trabalhando em exemplar integração orçamentária, técnica e científica. O que o Brasil tem procurado fazer? Pelo visto, iniciativas corajosas e teimosas, somente com passagem de ida.

Vale destacar os trabalhos do INCQS (Encontro sobre Métodos Alternativos ao uso de Animais para Fins Regulatórios-2005); da Associação Brasileira de Cosmetologia (Avaliação de Segurança de Ingredientes Cosméticos - 2008 e Desenvolvimento de Métodos Alternativos com Ênfase em Ingredientes Cosméticos-2008); da Unesp (Fórum Internacional - Métodos Alternativos e In vitro para a Segurança de Substâncias Químicas e seu Impacto na Saúde e no meio ambiente - 2010); e as publicações Proposal for a Brazilian Centre on Alternatives Methods - C. Eskes e cols, Short Communication, Altex, 26:265-268, 2000; e The Need for the Establishment of BraCVAM. Presgrave, O.A.F. Atla, 37:705-708,2010.

Iniciativas teimosas, porém corajosas, pressupõem verdades futuras. A universidade, como centro de excelência, ao lado de importantes parceiros, como órgãos reguladores, regulados, de fomento e entidades representativas, pode ser a célula desse processo interativo e conduzir a implantação de mais um instituto de ciência e tecnologia, o 123º, representado pelo Centro Brasileiro para o Desenvolvimento e a Validação de Métodos Alternativos.

Mas a grande vitoriosa dessa luta será a saúde pública, especialmente os usuários de produtos de higiene e cosméticos, que contarão com meios seguros e atuais na avaliação de segurança de substâncias químicas.

Valcinir Bedin
Tricologia por Valcinir Bedin

Produtos naturais para cabelo

Está cada vez mais difícil para os formuladores de produtos para cabelo criarem produtos ditos naturais, uma vez que o mercado está tomado por materiais sintéticos, inovadores e eficazes. Todas as semanas somos invadidos por informações de fabricantes que tentam ultrapassar seus concorrentes com produtos de ótima qualidade e de alto desempenho.

Quando pensamos em produtos ditos naturais, precisamos, antes de tudo, observar a origem dessas matérias-primas. É consenso mundial que produtos advindos de locais sujeitos a práticas agrícolas de irradiação para esterilização ou uso de fertilizantes em excesso não devem ser utilizados.

A maioria das formulações de produtos para cuidados com os cabelos já oferece benefícios ao consumidor. Contudo, no caso de itens de cuidado pessoal cuja proposta é proporcionar benefícios mais específicos, é utilizado um conjunto definido de ativos nas formulações, com propriedades mais direcionadas à finalidade do produto. São exemplos os protetores solares, produtos antioxidantes, antiacne e antienvelhecimento.

Alguns benefícios podem ser mais difíceis que outros de se obter por meio de ingredientes naturais, pois eles foram projetados para as moléculas sintéticas. Vou comentar, a seguir, a inserção de ingredientes naturais em três dos mais importantes produtos para cabelo.

- Shampoos: apesar de todos os seus benefícios adicionais, são principalmente destinados a limpar os cabelos. Embora a quantidade real do tipo de surfactante necessária para promover o mecanismo de ação de remoção de óleo ser pequena, o consumidor atual está à procura de espuma abundante. Assim, a indústria é obrigada a desenvolver espuma natural e de alta densidade. Sabonetes feitos com óleos de ácidos graxos insaturados, por exemplo, azeite ou óleo de cânhamo, podem se tornar claros em uma solução concentrada. Quando são misturados com coco para melhorar a espuma, esses sabonetes líquidos limpam bem, mas enfrentam problemas de solubilidade em água dura. Uma sugestão seria adicionar quelantes naturais, como inositol hexafosfato, com cálcio divalente e íons de magnésio.

- Condicionadores: o que significa condicionar os cabelos? Reduzir a força necessária para pentear os cabelos molhados ou secos, bem como diminuir a carga de superfície das fibras do cabelo, com o intuito de melhorar a penteabilidade. A melhor maneira de obter esses efeitos seria usar tensoativos catiônicos, exemplificados por sais quaternários de amônio, mas o uso destes encontra severas restrições das certificadoras de produtos naturais.

As combinações de óleos vegetais, como o de jojoba, a outros emolientes também podem encontrar seu caminho em formulações de condicionadores de cabelo, bem como a lecitina (geralmente originária da soja), que está disponível em versões orgânicas. Esses materiais têm alguma substantividade para a cutícula do cabelo, desde a virgem até a mais danificada, e podem atuar como um filme de redução de atrito no eixo da haste.

É importante lembrar que, quando se olha para os derivados naturais, alguns produtos simples podem ser obtidos por via sintética. Glicina, o menor aminoácido, por exemplo, é abundante na natureza, mas é difícil distinguir o natural do sintético. Isso também ocorre com os derivados de glicerol – existem tanto os sintéticos como os derivados, a partir de óleos vegetais e gorduras.

Há, no entanto, sérias limitações em relação à cor, pois muitas cores extraídas de plantas não são aprovadas para o uso cosmético, mesmo se forem aprovadas para o uso em drogas e alimentos. Os corantes solúveis que podem ser usados são caramelo, urucum, beta-caroteno e carmim da cochonilha mexicana, entre outros.

Produtos para penteados: produtos para pentear os cabelos dependem de propriedades adesivas de formação de película ou de seus resíduos secos. Esses produtos são revestidos com uma solução de polímero ou pulverizados como uma névoa de gotículas que “soldam” as fibras em conjunto, para estruturar o penteado. Esses polímeros podem vir de fontes naturais, baseados em carboidratos ou proteínas. A desvantagem é a sua reduzida resistência à umidade. Proteínas como as do milho e as provenientes de gomas vegetais podem ser usadas, a exemplo da goma arábica extraída da acácia e da pectina. Finalmente, para modificar a flexibilidade e reduzir a descamação, o glicerol pode ser considerado um plastificante universal, e glicóis, como o propilenoglicol fermentado na origem, podem ser usados.

Por último, mas não menos importante, é preciso lembrar que o formulador tem um desafio constante quando se trata de produtos ditos naturais: o de testar a fórmula final em relação à qualidade microbiana e à sua preservação.

Antonio Celso da Silva
Embale Certo por Antonio Celso da Silva

Embalagem e sustentabilidade

Quando se trata de meio ambiente, poluição, efeito estufa, ecossistema e reciclagem, a palavra que já nos acostumamos a ouvir é “sustentabilidade”. Mas, o que é mesmo sustentabilidade? Será que ela vai resolver ou, pelo menos, minimizar os problemas do mundo, despoluir rios, reduzir a poluição ambiental, reflorestar as áreas desmatadas e acalmar a mãe natureza? É um pouco tarde para consertar o que o homem devastou. Contudo, é preciso fazer algo para, ao menos, tentar frear os estragos que tem sido feitos.

No que nos diz respeito, produzir cosméticos de maneira sustentável é o que podemos fazer para contribuir para o sucesso desse processo. No entanto, ao fabricamos cosméticos cuja finalidade é embelezar, proporcionar prazer, aumentar a autoestima das pessoas e fazer o mundo mais feliz, não estamos, de certa forma, também praticando a sustentabilidade? Como o nosso assunto é embalagem, prefiro deixar essa resposta para os usuários
“ecoconscientes”.

No que se refere à embalagem, já estamos tomando algumas medidas, mas ainda há muito para se fazer. Existe uma discussão interessante, na qual cada segmento que produz embalagem se defende, dizendo que seu processo é sustentável e não polui. O setor vidreiro e o de cartonagem empunham, com razão, fortemente essa bandeira. Toda a culpa do mundo recai, portanto, sobre o setor produtor de plástico, o qual não tem como defender-se, pois produz o tipo de embalagem que mais polui.

Não podemos, no entanto, colocar toda a culpa nos fabricantes de plásticos, se o restante da cadeia também não trabalha para minimizar esse impacto. O setor plástico já vem buscando e usando alternativas sustentáveis, como o ecoplástico, um “plástico verde” derivado de vegetais, cujo tempo de degradação é infinitamente menor em relação aos derivados do petróleo. Por outro lado, é sabido também que alguns tipos de plástico podem ser reciclados e outros não, e que alguns plásticos emitem gases poluentes durante seu processo de fabricação e outros não.

Com os poucos exemplos acima, já começamos a perceber que é possível colaborar com o processo de sustentabilidade.

O governo também vem fazendo a sua parte, com a lei que criou a Política Nacional de Resíduos Sólidos. É claro que essa é uma lei que ainda precisa ser melhorada e lapidada, pois tem muitos pontos falhos. Mas, de certa forma, ela já obriga o setor a convergir para o caminho da sustentabilidade. Vale mencionar a política de logística reversa, na qual a responsabilidade, no que diz respeito à embalagem, é de toda a cadeia e não apenas do fabricante.

Outra ação que une o útil ao agradável é a redução no peso das embalagens, que permite aos fabricantes reduzir o peso sem descaracterizar ou prejudicar seu conteúdo. Com isso, a quantidade de embalagem por produto descartada no meio ambiente é menor, principalmente no caso dos plásticos não recicláveis. Nesse caso, unir o útil ao agradável significa que, juntamente com a redução de peso, vem de brinde uma obrigatória redução no custo da embalagem – o que incentiva sobremaneira os empresários. Esse é o tipo de ação que o mundo mais tem praticado e temos diversos exemplos no mercado cosmético.

Outro ponto interessante é não comprar de um fornecedor que fique muito distante da fábrica. Além do valor do frete, que normalmente é embutido no preço da embalagem, existe também a poluição que é emitida durante o transporte: quanto maior a distância entre o fornecedor e a fábrica, maior será a quantidade de resíduos poluentes emitidos e que aumentam o efeito estufa.

O uso do “monomaterial” nas embalagens também é uma ação que colabora com a preservação do meio ambiente, quando essa embalagem pode ser reciclada. Alguns exemplos do que chamamos de embalagem composta de monomaterial são: tampa (polipropileno), rótulo (polipropileno biorientado) e frasco (polipropileno). Como têm a mesma composição e são recicláveis, eles podem ser descartados juntos, sem necessidade de separação prévia.

Também é de fundamental importância nesse processo o destino que as empresas fabricantes de cosméticos dão às suas embalagens com defeito; aos restos de produtos do processo de envase; às devoluções de produtos vencidos; e aos produtos envasados e contaminados. O correto é encaminhar esses itens às empresas especializadas e autorizadas pelos órgãos ambientais. É preciso, porém, verificar se essas empresas têm Certificado de Aprovação de Destinação de Resíduos Industriais (Cadri) – também conhecido como certificado de movimentação de resíduos de interesse ambiental – e se esse Cadri não está vencido, pois, embora a embalagem esteja sendo descartada por uma empresa especializada, a empresa de cosmético é co-responsável pela destinação desse item.

Na verdade, as ações de sustentabilidade no que diz respeito às embalagens ainda são muito tímidas. No entanto, a conscientização, aliada à criatividade dos nossos técnicos, nos permitirá, em breve, dizer que fabricamos cosméticos para aumentar a autoestima das pessoas e que fazemos um mundo mais feliz de maneira sustentável.

Luis Antonio Paludetti
Manipulação Cosmética por Luis Antonio Paludetti

No futuro, um dia...

Através do anteparo transparente, o farmacêutico contemplava sua farmácia, uma das poucas que ainda praticava a manipulação de medicamentos. Aos 110 anos de idade, ele jamais imaginara que pudesse estar ainda na ativa. Graças aos avanços da medicina, da nutrição, da cosmecêutica e das ciências farmacêuticas, ele superou, em muito, o limite dos 70 anos de vida.

Com a costumeira suavidade, sua assistente entrou em sua sala. O farmacêutico lembrou-se do dia em que ela, ainda bastante jovem, entrara da mesma maneira em sua sala para o exame de seleção de estagiária. Agora, uma mulher de meia idade, com 65 anos, ela ainda tem o mesmo sorriso e a mesma simplicidade de quando era jovem.

- Mestre! – exclamou a farmacêutica – tenho algo especial para você.

Ela ainda insistia em chamá-lo de mestre, embora seus conhecimentos já fossem iguais aos dele.

- Pois não Farminha, como sempre, estou ao seu dispor.

Depois de tantos anos de convivência com o farmacêutico, ela já havia se conformado. Apesar de a farmacêutica ter vários títulos, ele continuava a chamá-la no mesmo tom e pelo mesmo apelido carinhosos.

- Acho que você vai gostar desta aqui – ela disse, ao mesmo tempo que agitava uma prescrição em uma das mãos.

- Interessante. É realmente das antigas... CRM 55.299. O doutor deve ter a minha idade ou mais. Além disso, a prescrição está em papel, escrita à mão e com caneta! – respondeu ele.

Por um instante, ele contemplou a prescrição, mais parecida com uma relíquia arqueológica. Lembrou-se de que, quando era jovem, sempre aviava prescrições como aquela.

- Vamos lá, Farminha. Ao laboratório!

Ambos caminharam alguns passos para a câmara de paramento e descontaminação. Nela permaneceram por alguns minutos, enquanto as radiações e frequências ultrassônicas específicas faziam a descontaminação.

Ao entrar no laboratório, com a mesma vivacidade que tinha quando manipulou sua primeira prescrição, o farmacêutico solicitou ao computador, com um comando de voz, que separasse as matérias-primas necessárias.

Nesta época, a maioria das prescrições era aviada por máquinas. Pequenas impressoras inkjet misturavam corretamente soluções contendo os fármacos, incorporando-as a bases cremosas, líquidas, adesivos, injeções, cápsulas ou pastilhas adocicadas.

Nascido antes destas inovações, ele sempre se perguntava como era possível o médico prescrever eletronicamente, baseado no genoma do paciente, e, utilizando a rede mundial, encaminhar a prescrição à farmácia escolhida pelo paciente.

Depois que essas tecnologias foram implantadas, os prescritores praticamente desistiram de prescrever manipulados, e as farmácias magistrais praticamente desapareceram. Os antigos médicos que sabiam prescrever manipulados se foram e a geração de novos médicos foi influenciada diretamente pelas novas tecnologias e não foi ensinada a estes a arte de prescrever. Tudo era genômico, tecnológico, preciso e efetivo, mas, ainda assim, impessoal.

Aquela prescrição era diferente e requeria uma intervenção pessoal. Apesar de ainda ser muito eficaz, esta prescrição não estava programada na máquina e precisava ser manipulada segundo a arte.

A assistente do farmacêutico já havia separado o almofariz e o pistilo de new glass, um vidro sintético totalmente inerte, inquebrável e muito mais resistente que o aço.

Com as matérias-primas e bases já precisamente pesadas pelo computador, o farmacêutico precisamente adicionou os materiais ao almofariz e os incorporou à base, com a mesma prática de anos atrás. Era como andar de bicicleta: uma vez aprendida e incorporada, a arte de manipular não podia ser esquecida.

Após acondicionar o produto, sua assistente tomou o frasco em suas mãos. Ela expôs o produto ao espectrômetro multifrequencial e verificou a concentração de ativos automaticamente. Como tudo estava correto, rotulou o frasco e sorriu para seu mestre, dirigindo-se à recepção para entregar o medicamento ao cliente.

O farmacêutico, cheio de felicidade, sentou-se na banqueta, fechou os olhos, suspirou e, por um instante, foi levado novamente ao reino dos sonhos.

- Mestre, mestre! Precisamos de você no laboratório.

Ele acordou assustado. Olhou para a jovem assistente, que lhe observava com aquele sorriso de “acordei você de novo”.

- O que foi Farminha?

- Estamos com uma formulação difícil e precisamos de você. Vá se paramentar, pois estou esperando você na cabine de manipulação de hormônios.

- É “pra já” – disse o farmacêutico à assistente.

Enquanto se paramentavam na antecâmara pressurizada, ele comentou com a assistente:

- Lembre-me de iniciarmos o quanto antes um programa de educação médica em prescrição de medicamentos manipulados.

- Por quê? – perguntou a assistente.

O mestre levantou os olhos e, com a certeza confiante de quem antevê o futuro, respondeu:

- Porque um dia isso fará toda a diferença.






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